Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 128 | Ano 13 | Out 2008
ESPECIAL | QUALIDADE DE VIDA
LIMITES

RECONHECER as impossibilidades ajuda a superar a angústia

Não há receita para que a vida tenha qualidade do ponto de vista físico e mental. Mas o psicanalista Robson de Freitas Pereira, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Appoa), alerta que tanto Freud quanto Lacan diziam que uma análise não deve ser levada longe demais. Se uma pessoa está feliz no trabalho e na vida amorosa, isto já está de bom tamanho. A medida pode estar dentro de cada pessoa.

“Diante do excesso de informações e de ofertas de objetos de consumo, talvez seja um ponto de qualidade poder escolher o que vai ser importante em cada momento da vida”, observa o psicanalista. E estas escolhas não precisam estar ligadas a grandes sonhos de consumo, podem ser detalhes – até porque os bens de consumo mudam com o tempo e com a cultura. Por exemplo: se há 30 anos tomar determinada marca de uísque e fumar um cigarro era símbolo de status, hoje tudo isso é execrável.

Detalhes são importantes de forma diferente para cada pessoa. Pequenos gestos de amizade e solidariedade espontâneos podem surpreender, mas, para notá-los, é preciso que se esteja disponível. Mesmo lembranças e histórias antigas, quando voltam à memória como referência de felicidade e de progresso, são capazes de dar um gostinho de qualidade. Não para se manter fixado no passado e achar que aquela época é que era boa, explica Pereira, mas como forma de valorizar e compartilhar uma experiência: um filho adolescente que curte a mesma música que o pai curtiu em sua época é uma delas.

“A gente perde a noção do valor desta história porque o cotidiano é muito alienante e nos faz entrar em situações de repetição”, explica o psicanalista. “E é angustiante ter que dar conta de tarefas do dia-a-dia”. A angústia, por sua presença constante na lista de queixas de quem busca ajuda de um terapeuta, será o tema de um congresso internacional da Appoa em novembro, em Porto Alegre. Os especialistas vão analisar as manifestações da angústia nos nossos tempos. Ela pode se manifestar de duas formas: pelo corpo, com uma pressão no peito e garganta fechada, como se fosse ter um ataque cardíaco; ou por sensações subjetivas de impotência de que a pessoa não vai dar conta de sua vida cotidiana, de que o tempo é insuficiente e que seus esforços não são o bastante diante da magnitude das tarefas.

Ter angústia é normal, avisa Pereira. Essa sensação faz parte da constituição psíquica e aparece sempre que há uma situação desconhecida, que pega o sujeito de surpresa. É um problema quando a pessoa se sente impotente para sair desse estado e sofre com isso. Fica tão confusa, que não consegue seguir em frente. Nos últimos anos, o aumento da longevidade fez crescer a procura dos mais velhos – aqueles cujos filhos já estão criados, que têm aposentadoria garantida e cujos amigos já estão partindo desta vida – pelos consultórios em busca de resposta para suas angústias. Eles e seus familiares, especialmente cônjuges e filhos de doentes com Mal de Alzheimer e de Parkinson, doenças cada vez mais evidentes.

“A terapia é um recurso, uma das escolhas para lidar com as angústias”, afirma Pereira. “Mas a gente não pode psicologizar ou medicalizar a vida, porque ela é bem mais ampla”, acrescenta. Reconhecer certas impossibilidades é um sinal de maturidade. Educar uma criança, lidar com a falta de dinheiro, enfrentar a doença de um pai que não conhece mais o filho, tudo isso é angustiante. O importante é entender e conseguir distinguir impotência de impossibilidade. Quando as pessoas se dão conta de que, apesar das condições adversas, têm condições de seguir em frente, a angústia e o medo se dissipam. (CLARINHA GLOCK)

CULTURA
Acesso nem é computado nos índices oficiais

Expectativa de vida, alfabetização, matriculados em escolas, Produto Interno Bruto. No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Organização das Nações Unidas (ONU), bem como em outros instrumentos de avaliação da qualidade de vida, a cultura nem aparece. Há explicações práticas para isso. Patrick Carvalho, chefe da Divisão de Estudos Econômicos da Firjan, diz que até seria “interessante” incluir o acesso a teatro, cinema, literatura, espetáculos. “No entanto, a idéia esbarra na falta de dados municipais consistentes com abrangência nacional e periodicidade curta”, justifica.

A economista Andréa Gomes Silva, da Gerência de Estudos e Pesquisas do Trabalho na Secretaria de Políticas Culturais do governo federal, lembra que o campo das pesquisas culturais foi bastante limitado até pouco tempo atrás. “O intuito do MinC (Ministério da Cultura) é mudar tal panorama, colaborando com a produção de dados que permitam medir o alcance das políticas culturais no setor público e privado. Para tanto, tem firmado acordos de cooperação técnica com institutos de pesquisas como o IBGE e o Ipea”, informa. Segundo a economista, os resultados desta atuação podem ser visualizados através da Pesquisa MuniC, que contém um suplemento sobre a cultura, e o Sistema de Informações e Indicadores Culturais, estudo que contempla informações sobre as empresas e os trabalhadores da cultura.

Andréa ressalta que estas pesquisas vão proporcionar o desenvolvimento de novos trabalhos, como a criação de um índice de desenvolvimento cultural (IDCult) que o Ipea juntamente com a Unesco desenvolvem neste momento. “Este indicador promoverá o conhecimento sobre as dificuldades de acesso e consumo cultural nos municípios brasileiros”, completa.

O professor e “candidato a escritor” (como se autodefine) Luís Augusto Fischer desconfia que o acesso à cultura não faz parte dos índices que medem desenvolvimento no país por dois motivos. O primeiro, por dificuldade de mensuração. “O que é quantificável é mais evidente”, analisa. O segundo, por uma questão histórica. “Provavelmente porque todas as coisas do mundo cultural, na tradição luso-brasileira, são vistas como algo natural para quem está por cima, e sonegáveis para os que estão embaixo – as artes são vistas como prerrogativas das elites”, avalia Fischer. “E o que se refere ao mundo da gente de baixo, a quem o Brasil não reconheceu nem com cidadania plena, porque até hoje não há escolas para todos, não é quantificável nos índices”.

Para a atriz e diretora Irene Brietzke, não é possível falar em qualidade de vida sem acesso à cultura. “A cultura está intimamente ligada à Educação. Quando falo em cultura, falo em compreensão de informação, arte, divertimento de uma forma bem ampla – não precisaria ter uma grande renda se vivêssemos num país que propiciasse ao cidadão um incentivo de compreensão da importância cultural”, diz Irene. Na visão da diretora, os projetos de acesso à cultura no Brasil são, em geral, projetos de ação social pouco sólidos. As exceções, em sua maioria, são iniciativas particulares, não-governamentais. Ela própria tem um projeto denominado Sinapse, aprovado desde 2002 pela Lei Rouanet, esperando patrocínio. A idéia é formar técnicos em áreas diversas, como figurino, cenografia, iluminação, entre outras, para atuarem em cinema, teatro, tevê e publicidade, com jovens da periferia oriundos de famílias de baixa renda. Até hoje não conseguiu financiamento. “A impressão que me passa é que vivemos em um país que, por objetivos misteriosos, fecham cada vez mais o funil para que o cidadão tenha menos Educação, menos saúde e menos acesso cultural. Talvez pela mesma razão misteriosa não interessaria incluir a cultura para quantificar a qualidade de vida de alguém”. (CG)

O que é ter qualidade de vida para você?
“Para mim, a vida cultural estaria no centro de tudo. Mesmo que não fosse professor e escritor, quereria saber e mostrar que ouço música, vejo ficção, leio. E não se deve excluir a televisão. A telenovela pode ser banal, mas historicamente tem um lugar na narrativa”.

LUÍS AUGUSTO FISCHER
Professor e candidato a escritor

“Bons salários (com renda digna), moradia digna, qualidade de alimentação, de educação, de saúde, um entorno menos violento, acesso à cultura e ao lazer. Não é uma ordem por importância, mas de causa e conseqüência: tudo parte da baixa renda da população brasileira. É difícil separarmos as coisas, porque talvez o ponto inicial não seja o da renda, e sim o da educação. Mas como não me dedico a esta questão, não sei o que vem primeiro, se o ovo ou a galinha”.

IRENE BRIETZKE
Atriz e diretora

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