Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 131 | Ano 14 | Mar 2009
SAÚDE
CÂNCER DE MAMA

Uma maratona de dificuldades para conseguir tratamento

O tumor na mama é a primeira causa de morte por câncer entre as mulheres gaúchas. No entanto, quando diagnosticado precocemente, a chance de cura chega a 95%. Hoje todo mundo tem pelo menos uma conhecida q
Por Clarinha Glock

No estado que se enquadra entre os campeões de estatísticas, a Força-Tarefa anunciada pela governadora Yeda Crusius para combater os altos índices de mortalidade do câncer de mama soa como um déjà vu– e só o tempo vai dizer se é apenas mais uma campanha com conotação política ou se efetivamente serão tomadas medidas para mudar o panorama atual. A Carta de Porto Alegre, lançada em 14 de novembro de 2008, explica que a Força-Tarefa tem como objetivo alavancar ações estratégicas, incluindo processos educacionais com agentes de saúde. Para dar andamento às ações, foi criado o Comitê Estadual Permanente de Combate ao Câncer de Mama da Secretaria de Saúde.

Em 2009, a previsão é fazer cursos de capacitação para radiologistas, técnicos em mamografia e ecografia mamária. Além disso, foi encaminhado ao Fundo Nacional de Saúde do Ministério da Saúde o pedido de compra de cinco mamógrafos. “Queremos que cada microrregião tenha sua estrutura”, explica Sandra Coccaro de Souza, responsável técnica da Força-Tarefa pela Secretaria Estadual de Saúde. As regiões mais carentes no atendimento são Centro-Oeste, Missões, Norte e Vales.

Há cinco anos, a Secretaria de Saúde e a Sociedade de Mastologia do estado já haviam feito um projeto-piloto semelhante na região de Caxias do Sul. O treinamento durou um mês e acabou por falta de verba. “Queríamos sensibilizar e solucionar problemas”, explica Felipe Zerwes, presidente da Sociedade de Mastologia Regional RS. “Não tem por que uma paciente com dor na mama viajar quilômetros do interior até a capital para ser examinada e entrar na mesma fila de exames que a que tem câncer”, justifica. Uma outra tentativa de mudar esta realidade, feita há nove anos pela mesma entidade, mas sem apoio político, não teve os resultados esperados.

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

O trabalho da Força-Tarefa implica preencher com capacitação e equipamentos os furos que facilitam o avanço da doença, principalmente no momento inicial, do diagnóstico. “A maioria dos cânceres são diagnosticados pela própria paciente”, lembra a oncologista e epidemiologista Alice de Medeiros Zelmanowicz, coordenadora do Centro de Prevenção de Câncer do Hospital Santa Rita, que integra o Complexo Santa Casa de Porto Alegre.

Cada vez mais a doença tem sido identificada entre mulheres com idades entre 20 e 40 anos. Os médicos supõem que a causa esteja ligada às mudanças no estilo de vida. A entrada no mercado de trabalho traz junto o estresse, a gestação tardia, o sedentarismo, sem falar no fumo e na ingestão de álcool. Quanto mais jovem a mulher, mais agressivo o câncer.

Hoje, se uma mulher suspeitar de alguma alteração na mama, deverá procurar o médico no posto de saúde mais próximo de sua casa. Este profissional tem de estar treinado para identificar um provável risco, o que nem sempre acontece porque não há a cultura de fazer o exame da mama em algumas regiões.

O período de tempo entre “desconfiar” e “iniciar o tratamento” é um problema: atualmente dura de três a seis meses, podendo chegar a um ano. Dependendo do caso, será preciso fazer radioterapia ou quimioterapia. E aí surgem outros entraves. Por exemplo: é preciso fazer exames pré-operatórios, como um eletrocardiograma, e às vezes não há aparelhos na cidade onde a paciente mora, ou a Secretaria de Saúde está sem ambulância para levá-la ao centro de referência. Ou: a mulher tinha consulta marcada e perdeu o horário, ou se assustou e decidiu não prosseguir com o tratamento. E há ainda as que nem fazem os exames. “A maioria dos achados não é câncer, mas é preciso passar por todo o processo para confirmar”, ressalta Alice.

Contribui para ampliar os obstáculos a não-priorização pelo SUS desta que é a principal causa de morte de mulheres em fase reprodutiva no Brasil. Uma das razões pode ser a sobrecarga de demandas. Afinal, o mesmo sistema que tem de enfrentar uma doença de primeiro mundo, como o câncer de mama, ainda se depara com enfermidades dos países em desenvolvimento, como a dengue.

As agruras de quem tem de viajar para se tratar

Até que os efeitos da Força-Tarefa comecem a beneficiar a população, muitas mulheres que vivem em cidades sem estrutura de atendimento terão de penar no vai-e-vem de ambulâncias. Não bastasse enfrentar as dúvidas e os anseios de uma doença que mexe com o corpo e a sexualidade, ainda têm de ficar longe da família e dos amigos para receber a medicação. As que não conseguem transporte diário ou vivem muito distante da capital precisam também de moradia temporária, ou têm de arcar com os custos de albergues e hotéis, mais refeições e transporte até o hospital.

Cerca de 80% do atendimento do Hospital Santa Rita, de Porto Alegre, é de fora da capital, calcula a assistente social Rita de Cássia Santos de Oliveira. O deslocamento do interior para o centro de tratamento, por lei, deve ser garantido pela Secretaria de Saúde de cada município. “O transporte social é um direito do paciente – quando não é fornecido, enviamos um ofício para a secretaria solicitando, ou acionamos o Ministério Público”, informa Rita. “ Devia estar incluído o custo de alimentação e estadia, mas dizem que a verba não é suficiente”, reclama.

Foi neste vácuo do sistema que surgiram as “ Casas de Deputados”, os famosos “albergues”. Em 2006, o Ministério Público investigou 22 deputados que usavam verba assistencial da Assembleia Legislativa para financiar albergues e casas de passagem que abrigavam pacientes do interior em troca de votos. Algumas casas mantidas por estes deputados continuam funcionando, mas após a denúncia feita no Ministério Público com a ameaça de cassação de seus mandatos por uso político, a divulgação é mais discreta.

Uma tentativa de amenizar esta carência será realizada pelo Hospital Santa Rita, em Porto Alegre. Ainda sem data prevista, deverá ser inaugurado o Centro de Convivência para atender quem vem de longe fazer tratamento e precisa passar o dia no hospital. O centro terá sala de projeção de filmes educativos e recreativos, á rea de leitura, Internet e uma equipe de voluntários para trabalhos manuais. “Deverá atender entre 50 a cem pessoas por dia”, calcula a enfermeira Leila Abreu Jaggi, gerente técnicoadministrativa do hospital. Hoje estas pessoas ficam no pátio do Complexo da Santa Casa, ou circulando. O Centro não vai suprir a necessidade de quem precisa de um lugar para dormir durante o tratamento.

Qualidade dos exames faz a diferença

O exame anual de mamografia é recomendável para mulheres a partir dos 40 anos de idade para detectar alterações na mama. A idade foi definida por um consenso aprovado recentemente – até então era indicado a partir dos 50 anos. Mas o SUS não tem capacidade de oferecer o serviço para todos. Se em algumas cidades não existe o equipamento, há lugares em que os mamógrafos ficam ociosos e falta organização para distribuir os exames.

O Ministério da Saúde pretende implantar em 2009 o Sismama, um programa computadorizado para aumentar o controle sobre as mamografias. Com o Sismama, o responsável pela clínica credenciada pelo SUS, ao fazer uma mamografia, vai preencher um documento eletrônico com os dados da paciente.

Em 2005, a Sociedade Brasileira de Mastologia Regional RS acionou o Ministério Público pedindo a exigência de controle de qualidade de exames de câncer de mama realizados pelo SUS, principalmente da mamografia. Um levantamento feito pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) constatou que 70% dos exames que chegavam à instituição tinham de ser refeitos.

A incansável Dencinha e suas
próteses de passarinho

Próteses feitas de painço (semente que serve de comida para passarinhos) auxiliam na retomada da vida de mulheres no Rio Grande do Sul. Feitas sob medida pelas mãos de Dencinha, envoltas em malha de algodão, estas próteses ajudam quem teve de tirar a mama a recuperar a autoestima. Por mês, são distribuídas, em média, 60 delas – duas por paciente.

Prudencia da Silveira Sá, a Dencinha, tem 88 anos e um sorriso de avó. Há 19 anos sua voz suave conforta as pacientes que buscam ajuda na Liga Feminina de Combate ao Câncer com sede no Hospital Santa Rita. Como voluntária, ela corta cabelos, faz camisetas, coordena o atendimento às crianças e recorta os tecidos para as próteses mamárias, além de oferecer um colo improvisado. “Eu me sinto forte, porque ajudo as pessoas”, explica.

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Foto: Thaís Brandão

Foto: Thaís Brandão

Esta bageense de nascença, espírita por religião, se arrepia ao lembrar das histórias colecionadas ao longo dos anos. Como a da jovem de 23 anos que estava para casar e descobriu um câncer de mama. “A moça se desesperou e veio falar comigo”, conta. “Eu disse: pior se fosse um pé, o seio se pode substituir, tanto que uma simples comida de passarinho vai ajudar”. De presente de casamento, Dencinha deu seis próteses de uma vez, que substituíram o algodão antes usado para preencher o vácuo da mama doente.

Não se sabe se foram as próteses ou o amor e a atenção de Dencinha. O fato é que a moça recuperou a vida. De tão feliz, o marido quis conhecer o anjo da guarda. E Dencinha virou madrinha de um dos filhos do casal, hoje com 14 anos.

Saiba mais
Sintomas
Nódulo ou tumor no seio, acompanhado ou não de dor
Alterações na pele que recobre a mama, como abaulamentos,
retrações ou aspecto semelhante à casca de laranja
Nódulos palpáveis na axila

Fatores de Risco
História familiar (se mãe ou irmã tiveram antes dos 50 anos de
idade)
Idade
Primeira menstruação precoce
Menopausa tardia (após os 50 anos)
Primeira gravidez após os 30 anos
Não ter tido filhos
Ingestão regular de álcool
Exposição a radiações ionizantes com menos de 35 anos de idade

Fonte: Instituto Nacional de Câncer – INCA
http://www.inca.gov.br/conteudo_view.asp?id=1932
Liga faz 55 anos em defesa da saúde e da vida

Criada em 30 de abril de 1954, a Liga Feminina de Combate ao Câncer tem uma sede no Hospital Santa Rita – unidade de câncer da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Os voluntários prestam serviço médico-ambulatorial e realizam também um trabalho assistencial, fornecendo próteses, perucas, passagens de ônibus, roupas, artigos de higiene, alimentação e remédios. Os recursos arrecadados ajudam a atender as demandas e carências dos serviços públicos. Mais informações na internet, através do site:

www.santacasa.tche.br/revista/vermateria.asp?rev=9&mat=40&p=1

Juraci e o exemplo de Ana Maria Braga

Sentada numa sala de quimioterapia, no final de dezembro de 2008, Juraci assistia à televisão. Enquanto o remédio era introduzido na veia, contou como, dois anos antes, viu o seio esquerdo inchar. Buscou atendimento no posto de saúde em Montenegro, onde fez biópsia. Juraci não sabe ler nem escrever, porque o trabalho na roça lhe tomava muito tempo e disposição, mas sabia o que era câncer. “Eu via na televisão Ana Maria Braga (apresentadora) dar coragem, dizer que estava bem”, lembrou.

Nos últimos tempos, Juraci se mudou para a casa da filha, para ficar mais perto do transporte a Porto Alegre. Acordava às 3h30min da manhã e caminhava 15 minutos até o local de embarque, viajando uma hora e meia – isso, se conseguisse lugar, porque era preciso reservar o transporte com uma semana de antecedência.

Os filhos ajudaram com dinheiro para comida. “A parte mais difícil foi a cirurgia”, compara.

No vai-e-vem, a luta de três mulheres pela vida

Maria Helena Viana da Silva, 51 anos, é de São Jerônimo (a 57 km de Porto Alegre). Juraci Teresa Costa, 60 anos, é de Montenegro (81 km de PoA). Osnilza Pereira, 66 anos, é do interior de Viamão (Grande Porto Alegre, a cerca de 25 km da capital). As três fazem tratamento para câncer de mama em hospitais de referência do SUS. Na humildade de quem reaprendeu o valor da saúde, não se queixam de madrugar ou caminhar quilômetros para o transporte gratuito.

Maria Helena e o aprendizado sobre o medo

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Foto: Thaís Brandão

Foto: Thaís Brandão

Apesar de ter trabalhado como técnica de enfermagem, o medo de Maria Helena (foto) ao apalpar o nódulo na mama esquerda não foi menor. “A gente para de ter medo quando outras pessoas que já fizeram tratamento te dão força e coragem”, ensina. Com 12 dias de quimioterapia, realizada entre maio e novembro de 2008, Maria Helena perdeu cabelo. Mas o pior foi ficar longe da família ao sair de São Jerônimo para se tratar em Porto Alegre. “Eu ia e voltava a cada 20 dias. Quando me operei, recebi apenas duas visitas, porque era difícil o pessoal vir do interior”, lembrou.

Para fazer radioterapia, pegava o micro-ônibus antes das 7 da manhã. Às 13h, com sorte, já estava de volta à sua casa. Nos dias em que a aplicação era feita à tarde, porém, ficava horas sentada nos bancos do hospital, esperando pela condução de volta. O câncer mudou suas perspectivas. “A vida muda porque a gente começa a dar valor ao que é realmente importante”, diz. Em 2009, pretende viver um dia por vez, mas viver bem, com os familiares: “Viver bem é não brigar e ajudar quem precisa”.

Osnilza e a fé em Deus

Osnilza (foto) fazia seus exames periodicamente, até que se mudou com o marido para uma chácara no interior de Viamão. Pegar a estrada esburacada era uma tortura. Para marcar consulta no hospital da cidade precisava ficar uma noite de plantão, por isso deixou passar um ano até ir ao médico novamente. No check-up de novembro de 2007, o doutor pediu uma mamografia. Como a agenda do SUS não tinha mais data disponível para aquele ano, o exame só foi feito em maio de 2008.

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Foto: Thaís Brandão

Foto: Thaís Brandão

A mamografia apontou um nódulo suspeito. Era preciso fazer uma ecografia mamária. Osnilza decidiu não esperar até setembro, data disponível para realizar o exame pelo SUS. Com o parco dinheiro da aposentadoria, desembolsou R$ 45 pela ecografia. Em 3 de outubro de 2008, submeteu-se à cirurgia que tirou parte do seio e fez o esvaziamento da axila.

Descansava do tratamento na casa da filha em Porto Alegre. “Só vou para a minha casa quando estou mais disposta, porque a viagem é muito cansativa”, diz. “Eu teria que pegar o ônibus para Viamão e lá, outro, o que dá mais uns 20 minutos. As estradas são terríveis. Quando a gente volta parece que levou uma surra”.

Não quer imaginar o que teria acontecido se tivesse esperado até setembro para fazer a ecografia. Conclui: “Confiar somente nos atendimentos do governo não chega. Como sou evangélica, coloco Deus em primeiro lugar e penso que todos têm que fazer isso, senão, fica difícil”.

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