Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 133 | Ano 14 | Mai 2009
ENTREVISTA | EMIR SADER

A América Latina é uma toupeira

O cientista político e filósofo brasileiro usa em sua recente obra a figura da toupeira para descrever a América Latina de hoje, segundo ele, o elo mais fraco da cadeia neoliberal. “O continente americano
Por Jacira Cabral da Silveira

Extra Classe – Em seu livro A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana o senhor afirma que a América Latina irrompe o século 21 diante de um novo dilema. Qual?
Emir Sader
– O de construir alternativas superadoras do neoliberalismo, em um marco geral conservador no mundo e com herança de transformações econômicas, sociais, políticas e ideológicas regressivas profundas levadas a cabo por governos neoliberais. Mas qual a natureza do período que vivemos? De que maneira se combinam fatores tão negativos, em escala global, como a passagem de um mundo bipolar a um mundo unipolar, e de um modelo hegemônico regulador a um modelo neoliberal e as forças antineoliberais, concentradas na América Latina? São essas as condições que o livro analisa, pretendendo ajudar a compreender o Brasil de hoje, a América Latina de hoje, o mundo de hoje, na perspectiva da sua transformação em um mundo mais humano, solidário, democrático nos planos social, econômico, cultural e político.

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Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

EC – Por que a figura da toupeira?
Sader
– Porque é o bichinho que o Marx e outros pensadores e escritores usaram para falar de um processo oculto, mas sempre persistente, de amadurecimento de contradições, que de repente apareceà superfície, sempre surpreendendo, seja pelo momento, seja pela forma que ocorre. Como os processos revolucionários. Da expressão “velha toupeira”, tirei o título do livro, para designar a América Latina de hoje. No livro ele serve para designar a esquerda latinoamericana, que tem um novo século surpreendente. A América Latina passou de “paraísoneoliberal” a “elo mais fraco da cadeia neoliberal”, de uma década a outra. Justamente por ter sido o berço do neoliberalismo e a região onde ele mais se alastrou, vivemos uma ressaca do neoliberalismo, em que convive a maior quantidade de governos progressistas na história do continente.

EC – As esquerdas latino-americanas levam ao poder lideranças como Hugo Chaves, na Venezuela, Néstor Kirchner, na Argentina e Lula, no Brasil, entre outros. O que isso representa e por que agora?
Sader
– Porque a América Latina foi o paraíso – ou o inferno – neoliberal, viveu e vive um processo de porre, de ressaca neoliberal e elegeu a tantos governos que, de formas distintas, expressam a rejeição do neoliberalismo, transformando a região no elo mais fraco da cadeia neoliberal.

EC – O Brasil vem assumindo que posição neste contexto da política latino-americana?
Sader
– O de participante desse processo de construção de alternativas, ainda com um governo contraditório, que manteve elementos herdados – como a política financeira, a independência de fato do Banco Central, a política do agronegócio –, mas com rupturas – como a política exterior, as políticas sociais, o fortalecimento do Estado, do trabalho formal.

EC – Na sua avaliação, que papel ocupa o Brasil tanto na realidade regional (entre países vizinhos) e no âmbito internacional?
Sader
– O papel de um país de grandes dimensões, mas com um grau de desigualdade que ainda é o maior da região – que por sua vezé a mais desigual o mundo. Que tem contribuído para os processos de integração regional, mas que precisa sair do modelo neoliberal para contribuir e participar mais. O Brasil nunca melhorou na redução da desigualdade em tempos de democracia, ditadura, expansão da economia ou recessão. O governo Lula é o primeiro em que o ponteiro da desigualdade melhorou, ainda pouco mas melhorou. O fato de a chamada classe C ser maioria no país não significa quer estamos em um país de classe média, mas que setores significativos do país passaram a ter mobilidade social ascendente. Nunca se fez absolutamente nada significativo para melhorar a situação do povo brasileiro.

EC – Como o senhor avalia a consciência política do brasileiro?
Sader
– Como uma consciência que hoje, na média, produz um consenso passivo ao governo Lula, isto é, sem entusiasmo, mas reconhecendo as transformações sociais positivas que o governo leva a cabo. Com pouco interesse pela política, seja pelo enfraquecimento dos partidos, seja pelo pouco entusiasmo que suscita a política tradicional. E, atualmente, sem incluir o imperialismo estadunidense, a direita não consegue pensar a América Latina. Como não consegue pensar o nosso continente, tenta descaracterizá-lo: não haveria uma América Latina, como se as distâncias entre o Equador e o Haiti, o México e a Argentina, a Guatemala e o Brasil fossem maiores das que existem entre a Bélgica e a Itália, Portugal e a Alemanha, a Espanha e a Grécia.

EC – É comum encontrarmos chilenos, uruguaios e outros vizinhos que apresentam uma cultura mais vasta do que a dos brasileiros. Por que isso ocorre?
Sader
– Porque eles tiveram uma história com significados mais fortes, nacionais e populares, desde as revoluções de independência, que expulsaram os colonizadores espanhóis e decretaram o fim da escravidão há dois séculos, em processos integrados em termos latino-americanos, passando por experiências políticas de massa marcantes, que o Brasil não teve, a começar porque tivemos um grande pacto de elite no lugar de uma revolução de independência, quando nem sequer se terminou com a escravidão, o que fizemos por último em todo o continente.

EC – Está para ocorrer em 2010 a Conae (Conferência Nacional de Educação), em Brasília. Esse será um encontro que reunirá representantes desde a escola infantil à universidade. Como o senhor tem avaliado as ações do governo Lula no setor da Educação? O que podemos esperar de encontros como a Conae num país como o Brasil e sua história de Educação?
Sader
– Como avanços positivos em geral. Tomara que o encontro assine e ponha em prática um compromisso, comprometendo o governo nisso, de terminar com o analfabetismo no Brasil, como fizeram Cuba, Venezuela e a Bolívia.

EC – Muitos têm seus livros em suas mesas de cabeceira, que autores ocupam atualmente sua mesa de cabeceira? O que vem buscando entender?
Sader
– Venho buscando entender o que acontece hoje na América Latina e no Brasil, o que são os processos de transformação profunda da realidade atualmente. Publicar um livro não é apenas definir um tema, desenvolver as análises, encontrar a melhor forma de expor as ideias, encontrar um editor etc. É também batalhar pelo que se escreve, por aquilo em que acreditamos, pelas ideias e propostas contidas no livro. É parte integrante do livro fazê-lo chegar aos que se interessam pelos problemas abordados, buscar resenhas, participar de lançamentos, de debates. Em suma, é superar o bloqueio do silêncio com que se tenta afogar o pensamento crítico e as ideias que buscam “outro mundo possível”.

EC – O senhor também tem se ocupado com a questão Israel-Palestina. Na sua opinião, que condições seriam necessárias para uma resolução da questão Palestina que pudesse pacificar a região? Qual o caráter explosivo do conflito?
Sader
– O primeiro dos fatores que explicam a natureza do conflito e a dificuldade de sua resolução está no caráter de aliado estratégico que Israel tem em relação aos Estados Unidos – a única superpotência. O peso do lobby judaico nos EUA garante que esse vínculo estratégico se mantenha ao longo das mudanças de governo. A secretária de Estado, Hillary Clinton, mesmo na perspectiva de um governo israelense dirigido por um representante de um partido que não reconhece o direito ao Estado palestino, reafirmou que Israel terá sempre o apoio dos EUA, qualquer que seja seu governo. Por outro lado, os palestinos foram grandes vítimas do fim do mundo bipolar, com a desaparecimento da URSS, aliado que se contrapunha à ação norte-americana de apoio a Israel. Isto contribuiu para aprofundar sua orfandade política internacional. Ao contrário de Israel, não contam com nenhum apoio significativo interno nos EUA. Muito pelo contrário, especialmente depois dos atentados de 11 de setembro, passaram a ser diretamente criminalizados.

EC – O senhor menciona as “guerras infinitas” de Bush quando analisa a intervenção norte-americana nos países em conflito, o governo Obama seguirá este modelo?
Sader
– Os EUA continuam a ser o único país que toma iniciativas nos conflitos internacionais. (A exceção é a América Latina que, por meio da Unasul e do Conselho Sul-americano de Defesa, tem desenvolvido intenso trabalho de intermediação para a resolução pacífica dos conflitos regionais.) O novo governo dos EUA pode representar tentativas de negociação de acordos de paz, porém suas limitações já estão claras: o surgimento de um governo abertamente direitista em Israel, liderado por um partido que nem sequer reconhece o direito à existência do Estado palestino; a reafirmação do apoio dos EUA a qualquer governo que tenha Israel; a negativa de reconhecimento do Hamas como interlocutor político. A isso se soma o antecedente dos acordos de Oslo, cujos objetivos não incluíam o Estado palestino, o que impede uma visão otimista sobre os acordos de paz atualmente. A certeza é que o tema do Estado palestino voltou ao centro das preocupações mundiais, que as forças palestinas se fortalecem internamente e na solidariedade internacional e que o governo Obama terá que colocar o tema na sua agenda prioritária. O ataque a Gaza fecha um período de relativo isolamento do tema palestino e reabre nova fase na luta pelo reconhecimento do direito dos palestinos de disporem de um Estado soberano.

Obras Publicadas
A Nova Toupeira, os Caminhos da Esquerda Latino-americana – Ed. Boitempo
– São Paulo – 2009
Século XX – Uma biografia não-autorizada – Ed. Fundação Perseu Abramo – 2000.
O Anjo Torto (Esquerda e Direita no Brasil) – Ed. Brasiliense – São Paulo – 1995
Estado e Política em Marx – Ed. Cortez – São Paulo
A transição no Brasil: da ditadura à democracia? – Ed. Atual
Cuba, Chile e Nicarágua: o socialismo na América Latina – Ed. Atual
Que Brasil é este? – Ed. Atual
O poder, cadê o poder? – Ed. Boitempo – São Paulo
A Revolução Cubana – Ed. Scritta
Democracia e Ditadura no Chile – Ed. Brasiliense – São Paulo
Governar para todos – Ed. Scritta
Da independência à redemocratização – Ed. Brasiliense – São Paulo
Fidel Castro (seleção e introdução) – Ed. Atica – São Paulo – 1986
Fogo no Pavilhão – Ed. Brasiliense – São Paulo – 1987
Movimentos sociais na transição democrática (org.) – Cortez Editora – São Paulo – 1987
Constituinte e democracia no Brasil hoje (org.) – Ed. Brasiliense – São Paulo – 1985
E agora, PT? (org.) – Ed. Brasiliense – São Paulo – 1987
O socialismo humanista do Che (org. e introdução) – Ed. Vozes – Petrópolis –1990
Gramsci: poder, política e partido – (org. e introdução) – Ed. Brasiliense – São Paulo – 1990
Without Fear of Being Happy – Ed. Verso – Londres – 1991
Chile (1818-1990) – Da independência à redemocratização – Ed. Brasiliense – São Paulo – 1991
Por que Cuba? (org.) – Ed. Revan – Rio de Janeiro – 1992
Idéias para uma alternativa de esquerda à crise brasileira (org). Ed. Relume – Dumará – Rio de Janeiro – 1993
Pós-neoliberalismo – As políticas sociais no Brasil – Ed. Paz e Terra – São Paulo – 1995
O mundo depois da queda (org.) – Ed. Paz e Terra – São Paulo – 1995
Karl Marx – Bibliografia (org.) – Programa de Pós-graduação do Departamento de Sociologia – FFLCH – USP – São Paulo – 1995
Vozes do Século (org.) – Ed. Paz e Terra – São Paulo – 1997
Cartas a Che Guevara – O mundo trinta anos depois – Ed. Paz e Terra – São Paulo – 1997
Nelson Mandela (org) – Ed. Revan – 1998
A opção brasileira – (co-autor) – Ed. Contraponto – Rio de Janeiro – 1998
Sem perder a ternura – O livro de pensamentos de Che Guevara – organizador – Ed. Record – 1999
Contraversões – com Frei Betto – Ed. Boitempo – São Paulo – 1999

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