Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 140 | Ano 14 | Dez 2009
ESPECIAL

A Ulbra e os seus políticos

No período que precedeu a crise, a Ulbra diversificou investimentos em suas relações políticas
Por Naira Hofmeister

Durante dois meses de 2008, a gráfica da Ulbra deu prioridade à impressão do material de campanha do então candidato do PT à prefeitura de Canoas, Jairo Jorge, que foi pró-reitor de Desenvolvimento Institucional e Comunitário da Universidade entre dezembro de 2006 e junho de 2008. Antes disso, ele chegou a ser ministro interino da Educação, de onde saiu oito meses antes de ingressar na Universidade. “Eu não estava impedido”, defende.

Um ex-empregado, que não quer se identificar, conta que uma Circular Interna (CI) assinada pelo ex-reitor Ruben Becker foi expedida para convencê-los de que o serviço estava dentro da normalidade. “Mesmo assim, pediam que ninguém comentasse o assunto fora da gráfica”, lembra o jovem. Pastor do alto escalão da Ulbra relata que houve desconforto diante da ordem de Becker e diversas tentativas de desencorajá-lo. “Disseram que não havia mais papel. Jairo Jorge mandou uma carga e não tivemos como negar”, revela.

No setor ninguém nega que o serviço tenha sido prestado

Foto:René Cabrales

No setor ninguém nega que o serviço tenha sido prestado

Foto:René Cabrales

O prefeito de Canoas nega (leia a entrevista nesta reportagem). “Chegaram até a oferecer, mas nunca rodamos”, disse. Dentro da Universidade, as versões, apesar de desencontradas, confirmam que o material, pelo menos, chegou até as impressoras. Dirigentes da Ulbra dizem que os fardos foram destruídos porque o CNPJ da Comunidade Evangélica Luterana São Paulo (Celsp) estava no lugar onde deveria constar o registro da campanha do candidato.

O relato de um dos chefes do setor é diferente, apesar de dar conta do mesmo problema. “Recebemos as artes, mas sequer rodamos porque não trazia o CNPJ”. A versão do ex-empregado da Ulbra vai adiante: ele afirma que o registro de pessoa jurídica de fato não constava no material. “Depois de impresso, colávamos um adesivo com um número de um CNPJ. E não era o da campanha”, desconfia. Outros dois colegas dele que trabalham em setores da editora confirmam que o material foi impresso e entregue ao destinatário para distribuição no período eleitoral. “Vinha um cara chamado Fábio buscar”, completam.

Prefeito recebia remuneração dobrada
No período em que atuou como pró-reitor, Jairo Jorge tinha um salário de R$ 12 mil mensais. Também recebia por meio de sua empresa, Animus Educare, cujas notas fiscais somam R$ 465 mil. “O contrato era verbal, mas os produtos são todos materiais”, observa o prefeito.Segundo sua explicação, todas as notas fornecidas entre março e junho de 2007 referem-se às três pesquisas que sua empresa realizou em nome do Instituto DataUlbra, ainda que esse objeto só esteja expresso em três delas,totalizando R$ 155 mil, valor aproximado alegado para o trabalho.

Entre julho de 2007 e junho de 2008, as notas apresentadas mensalmente expressam valores de R$ 25 mil cada (à exceção de outubro, de R$ 10 mil) e só trazem a descrição “consultoria”. Jairo Jorge diz que o dinheiro foi utilizado para produzir e levar ao ar o programa Domínio Público, no qual o ex-pró-reitor entrevistava personalidades sobre diferentes temas de política e cidadania.

O programa foi interrompido quando ele deixou a pró-Reitoria em junho de 2008. A emissora voltou a transmiti-lo em 2009. “Não é a mesma coisa. Agora tenho um contrato e pago o horário de veiculação”, revela. O custo do programa fica entre R$ 6 mil e R$ 10 mil. “Depende. Se forem cinco sextas-feiras, pago um pouquinho a mais”, completa Jairo Jorge. Ele brinca que financia a ideia com o “Jairocínio”. “Meu objetivo não é o lucro. Estou ganhando porque eu não deixo de fazer jornalismo”, explica.

Mulher de Leandro Becker tem cargo de confiança
Quando assumiu a prefeitura de Canoas em janeiro de 2009, Jairo Jorge deu cargos de confiança (CCs) a ex-funcionários da Ulbra. Entre eles está a esposa de Leandro Becker, ex-vice-reitor. Luciana está lotada no gabinete do prefeito, assim como a antiga secretária do filho do ex-reitor, Maria Luisa Capilheira, e o filho da ex-pró-reitora de Ensino a Distância Sirlei Dias Gomes, Evandro Dias Gomes. “Trabalhei durante quase dois anos lá, pude conhecer as pessoas e havia muita gente competente”, justifica Jairo Jorge. A própria Sirlei foi chamada para ser presidente da Comissão Organizadora dos festejos de 70 anos de emancipação política de Canoas. “É um trabalho voluntário”, pontua o prefeito.

Ronchetti e Chico Fraga eram apoiadores
Durante os 40 anos em que esteve à frente da Ulbra, a gestão municipal que mais agradou Ruben Becker foi a de Marcos Ronchetti (PSDB), entre 2001 e 2008. “Foi a única prefeitura que nos deu apoio”, revelou em seu depoimento na Justiça. O tucano é réu na Operação Solidária da Polícia Federal.

A filha do ex-prefeito, Marcela Andressa Ronchetti, ganhou bolsa de 50% de desconto no curso de Medicina. Era uma cota filantrópica. A “referência para concessão” do benefício foi o ex-secretário de governo, Chico Fraga.“As pessoas que estavam aqui na prefeitura tinham relações com a Ulbra. Muitas relações, vamos ser honestos!”, indica o atual prefeito Jairo Jorge. É possível que tenha partido de Chico Fraga o pedido para que o Executivo de Canoas repassasse à Ulbra mais de R$ 10 milhões em cheques a título de “adiantamento” por serviços hospitalares ao município, algo totalmente fora dos padrões.

Cerca de R$ 6 milhões não circularam nas contas da Universidade. “As quantias foram sacadas em dinheiro na boca do caixa por Ruben Becker, conforme assinaturas nos versos dos cheques”, espantou-se o juiz Guilherme Pinho Machado quando recebeu o material das mãos do atual secretário de Fazenda de Canoas, Marco Antônio Bósio. Ele está convencido que se trata de um crime. “Se isso não é suficiente para colocar alguém na cadeia, então não sei o que é”, atacou.

Padilha recebeu R$ 300 mil sem contrato
O sistema financeiro interno da Ulbra aponta que duas empresas do deputado federal Eliseu Padilha (PMDB) – Rubi e Fonte – receberam R$ 4 milhões entre 2004 e 2008. Não há comprovação da maioria dos serviços contratados e um dos contratos sequer foi encontrado. “Os pagamentos não se justificam”, conclui a auditoria da Universidade. Quase R$ 300 mil foram pagos em um período no qual não havia contrato formal. São notas de 2007, ano que ficou descoberto pelos dois únicos documentos encontrados pelos auditores. Em um deles, a data da assinatura é anterior à criação da empresa. “O contrato não pode ter sido firmado na data aposta no documento”, refere um dos relatórios da auditoria. Padilha não quis falar com a reportagem do Extra Classe.

LOBBY – Se há contratos sem comprovação de serviços prestados, há também atividades que eram mantidas sem necessidade de formalização. “Independente de contrato, Padilha foi duas vezes comigo a Brasília e ao Rio de Janeiro falar com contatos gerenciados por ele”, garantiu Becker em seu depoimento.O juiz Guilherme Pinho Machado estranhou o fato que “de as parcelas terem sido recebidas em datas (2006) que envolvem a campanha do agente público para deputado federal”. E lembra que Padilha “foi peça atuante nas reuniões entre membros do Legislativo e Executivo, com a participação do ex-reitor Ruben Becker e sua equipe que marcaram a tentativa de solução do débito da instituição, nas vésperas da exoneração do antigo reitor”.

Uma conversa gravada pela Polícia Federal entre o ex-pró-reitor de Administração Pedro Menegat e o advogado responsável pela defesa da Celsp perante o CNAS, Luiz Vicente Dutra, narra uma estratégia política de um assessor parlamentar de Padilha para garantir a renovação da filantropia. “Eu sabia que Padilha defendia Ulbra e não era só nesse processo”, afirma Dutra.

Conselho abrigava oito partidos
Entre as obrigações expressas nos contratos com Eliseu Padilha, a única que foi comprovadamente cumprida foi a criação de um Curso de Cidadania Política e Gestão Pública, cujas aulas eram ministradas a distância. Além gravar com figuras como o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, o deputado nomeou um Conselho Político para pensar os rumos das disciplinas. Era integrado por representantes das principais siglas (lista ao lado) que receberam R$ 2 mil de remuneração. “O valor foi pago uma única vez. Só foi feita uma reunião e depois o conselho foi desativado”, confirma o prefeito de Canoas Jairo Jorge, que integrava a comissão. Bolsas depois contabilizadas nas cotas de filantropia eram distribuídas para detentores de cargo público. Os critérios não estão claros até hoje. “Alguns recebiam e muitos não recebiam. Nunca ninguém veio a minha porta para pedir”, observa o ex-reitor Ruben Becker. Integravam o conselho: Alceu Collares (PDT), Sergio Zambiasi (PTB), Beto Albuquerque (PSB), Nelson Proença (PPS), Germando Bonow (DEM), Nelson Marchezan Jr (PSDB), Celso Bernardi (PP), Cesar Busatto (hoje PMDB, na época PPS).

Jairo Jorge: “Ninguém está fazendo favor”

Foto:René Cabrales

Foto:René Cabrales

ENTREVISTA –  Jairo Jorge: “Ninguém está fazendo favor”
O prefeito de Canoas e ex-pró-reitor de Desenvolvimento Institucional e Comunitário da Ulbra revela detalhes de sua passagem pela instituição.

EC – Havia contrato entre sua empresa e a Ulbra?
Jairo Jorge – O contrato era verbal, mas os produtos são todos materiais.

EC – As notas de consultoria se referem exclusivamente à TV?
Jairo – Às duas coisas. Primeiro, às três pesquisas e a partir disso, o programa. Normalmente, são as empresas que optam pelo termo consultoria.

EC – Só há três notas de pesquisa, que somam R$ 30 mil.
Jairo – É um complemento. Todo o trabalho de concepção foi incluído nas outras. O custo de cada pesquisa foi de R$ 52 mil. Começaram em fevereiro e foram até junho. Somadas as três, dá R$ 156 mil. A partir de julho começam os valores do programa.

EC – Quanto recebia para montar o programa?
Jairo – Mais ou menos R$ 1 mil por programa. No mês, uns R$ 24 mil, 25 mil. Como era diário, ao todo foram uns 300 programas. Com esse valor, pagava os custos de produção, divulgação e os profissionais.

EC – Atualmente o senhor paga entre R$ 6 mil e R$ 10 mil por mês?
Jairo – É, depende do número de programas. Se forem cinco sextas-feiras, pago um pouquinho mais. Mas ninguém está fazendo favor para ninguém.

EC – Parte do material de sua campanha foi impresso na gráfica da Ulbra?
Jairo – Eles chegaram até a oferecer um preço mais acessível. Isso não seria ilegal, né? Mas acabou não rodando.

EC – O ex-reitor Ruben Becker autorizou através de uma CI.
Jairo – Acho que não. Não sei não. Nunca ouviu falar nisso, é a primeira vez que alguém me conta.

EC – É possível que alguns materiais tenham saído com o CNPJ da Celsp?
Jairo – Pode ter sido alguém querendo confusão. Tivemos muito material apócrifo na campanha. Isso é possível, mas estranho, pois a Justiça Eleitoral fiscaliza muito.

EC – A ex-pró-reitora de EaD da Ulbra Sirlei Dias Gomes tem uma função na prefeitura?
Jairo – Ela é presidente da Comissão Organizadora dos 70 anos da posse do primeiro prefeito de Canoas. É um trabalho voluntário e a convidei junto com outras pessoas.

EC – Há diversos ex-funcionários da Ulbra na sua lista de CCs.
Jairo – Trabalhei durante quase dois anos lá, pude conhecer as pessoas e havia muita gente competente. Mas ter trabalhado na Ulbra não é pré-requisito.

EC – Alguém ligado à família Becker?
Jairo – Sim. Luciana é filha do ex-prefeito (Carlos) Giacomazzi, que é um homem que respeito muito. É casada com o ex-vice-eitor, Leandro Becker. É muito competente..

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