Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 140 | Ano 14 | Dez 2009
ENTREVISTA | CARL HONORÉ

Os filhos do excesso

Por Gilson Camargo*

Crianças sob pressão

Foto: Randy Quan/ Divulgação

Foto: Randy Quan/ Divulgação

Depois do best seller Devagar, que em 2004 foi traduzido para mais de 30 países e disseminou pelo mundo a Slow Movement, filosofia de resistência à compulsão moderna pela pressa, o jornalista escocês criado no Canadá, Carl Honoré, 42 anos, está lançando no Brasil Sob Pressão (Editora Record, 368 páginas), que polemiza o resgate da infância a partir da cultura dos hiperpais. Formado em História e Italiano pela Universidade de Edimburgo, Carl Honoré atuou em programas de intercâmbio e ONGs no Ceará, foi colaborador de publicações como The Globe and Mail, National Post, The Guardian e The Economist. Desde 1991, escreve para jornais da Europa e América Latina, tendo passado três anos como correspondente em Buenos Aires. “Estamos matando a simples alegria de ser criança, transformando a infância em uma corrida muito distante de um mundo mágico”, afirma o autor nesta entrevista concedida por email de sua casa, em Londres.

*Com tradução do inglês por Grazieli Gotardo.

Extra Classe – O senhor afirma que o enfoque da infância na sociedade contemporânea é um fracasso. Por quê?
Carl Honoré
 – Considerando tempo, dinheiro e energia que investimos em nossas crianças, deveríamos ter a mais feliz, saudável e habilidosa geração que o mundo já viu. Mas não é isso que está acontecendo. A começar com a saúde. Presos dentro de casa ou transportados nos bancos de trás dos carros, as crianças estão crescendo cada vez mais rápido. As esportistas são as que mais sofrem e estão desgastadas com o excesso de treinamento desde a primeira infância. As lesões no ligamento cruzado anterior dos joelhos, características de atletas profissionais, são abundantes na escola secundária e cada vez mais acometem crianças atletas na faixa dos dez anos de idade. E para onde vai o corpo, segue a mente. Depressão e ansiedade infantil – e o abuso de drogas, automutilação e suicídio que muitas vezes vêm com eles – agora não são mais comuns somente na periferia, mas nos grandes centros e bairros nobres onde a classe média aumenta a pressão sobre seus filhos. Atualmente, um número recorde de crianças está usando medicamentos como Ritalina (marca mais conhecida do metilfenidrato, a “droga do bom comportamento”, que estimula o sistema nervoso central no combate ao Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade – TDAH) todos os dias para sobreviver. Quando uma sociedade chega a ponto de medicar seus filhos nesta escala é um sinal de que algo está seriamente errado. Isso não é culpa das crianças – e sim da sociedade em que elas estão inseridas.

EC – E como as crianças e jovens estão reagindo?
Carl Honoré
 – Crianças excessivamente controladas podem ficar perdidas quando precisam tomar decisões sozinhas. Os serviços de aconselhamento das universidades reportam que os estudantes estão cada vez mais fragmentados. Professores dizem que alunos de 19 anos costumam pegar o telefone celular no meio de entrevistas e dizer: “por que você não resolve isso com a minha mãe?” O cordão umbilical ainda está intacto após a graduação. Para recrutar estudantes universitários, empresas como a Merrill Lynch estão enviando “kits para pais” ou promovendo dias de boas-vindas para que o pai ou a mãe possam conhecer os escritórios dos filhos. Os pais estão até mesmo participando de entrevistas de trabalho para ajudar seus filhos a negociar salário e pacotes de férias. Apesar disso, algo precioso e difícil de mensurar está sendo perdido aqui. Estamos matando a simples alegria de ser criança – o que Willian Blake chamava de “ver o mundo num grão de areia eternamente na palma de sua mão”. Estamos transformando a infância em uma corrida muito distante de um mundo mágico.

EC – De que forma os pais usam os filhos para satisfazer suas próprias expectativas ou compensar frustrações?
Carl Honoré
 – Os pais sempre tiveram orgulho das realizações de seus filhos e sempre usam os filhos para compensar a sua própria frustração. Mas hoje isso é mais extremo do que nunca. Muitos pais colocam adesivos em seus carros com slogans como “Meu filho é um estudante de honra da Escola X”. Um cartoon recente no Jornal New Yorker satirizou essa tendência de tratar os nossos filhos como projetos de vaidade gerenciados desde o nascimento. Um jovem casal está orgulhosamente ao lado do berço de seu bebê recém-nascido e a mãe suspira: “ah, olha, ele é um advogado”. Estamos vivendo para os nossos filhos mais do que qualquer outra geração na história. Investimos emocionalmente em seu sucesso, olhamos para eles para nos sentir orgulhosos, felizes, para compensar nossas falhas. Estamos tão ligados em suas vidas que até mesmo falamos de nossas crianças na terceira pessoa do plural: “nós temos muita lição de casa”, “nós jogamos futebol no domingo”, “estamos concorrendo para Harvard”. Como pais, precisamos garantir que nossas próprias neuroses e frustrações não estejam guiando nossos filhos. Uma maneira de fazer isso é sempre perguntar a si mesmo como um pai: estou fazendo isso porque é o melhor para meu filho ou será que tenho outro motivo oculto?

EC – Quais as consequências de se criar um filho como quem gerencia um projeto?
Carl Honoré
 – Crianças que estão sob pressão para serem perfeitos podem acabar menos criativas. Elas não têm o tempo ou o espaço para explorar o mundo em seus próprios termos, para aprender a correr riscos e cometer erros. Elas não aprendem a pensar por si mesmas, apenas fazem o que é dito. Também não aprendem a olhar para dentro de si para descobrir quem são, porque estão muito ocupados tentando ser o que nós queremos que sejam. Elas também podem sofrer de mais estresse e exaustão. E não aprendem a usar o tempo, ou como preencher o tempo por conta própria – então se entediam mais facilmente. Crianças que tiveram todos os momentos de suas vidas gerenciados, organizados, controlados e programado pelos adultos, dificilmente conseguirão andar com seus próprios pés. Em outras palavras, eles nunca crescem. É por isso que os estudantes universitários estão sofrendo problemas de saúde mental em números recordes.

EC – Na sua opinião, por que as novas gerações de adultos têm mais dificuldades em impor limites aos seus filhos e, ao mesmo tempo, tentam gerenciar a infância para a competitividade?
Carl Honoré
 – A disciplina corre contra esta geração. Temos uma geração pós-60 do ‘viva e deixe viver’. A cultura Peter Pan glorifica a juventude e não os incentiva a crescer. Estamos tão próximos emocionalmente de nossos filhos – muitos pais os descrevem como seus “amigos” – o que torna mais difícil dizer “não”. Penso também que nos sentimos culpados por toda a pressão que colocamos em nossas crianças para competir e ser ‘o melhor’ – e isso significa que nós preferimos não dizer “não” a eles em outros aspectos da vida.

Crianças sob pressão

Foto: Randy Quan/ Divulgação

Foto: Randy Quan/ Divulgação

EC – Qual foi a sua motivação para escrever Sob Pressão?
Carl Honoré
 – Tudo começou em uma noite “pai-professor”. O desempenho do meu filho de sete anos na escola era bom, mas a professora de arte dele realmente queria atingir um ponto mais alto. “Ele se destaca na classe”, disse ela emocionada. “Seu filho é um jovem artista talentoso”. E lá estava ela, a palavra que deixa o coração de qualquer um acelerado: Superdotado. Naquela noite, passei a madrugada na internet à procura de cursos de arte para ajudar meu filho. Visões de que ele estaria ao lado de Picasso povoaram minha mente até a manhã seguinte. “Eu não quero um tutor, eu só quero desenhar”, disse o menino no café da manhã. “Por que os adultos sempre têm de assumir tudo?” Isso bateu como um cinto no meu traseiro. Meu filho adora desenhar. Ele pode passar horas debruçado sobre um pedaço de papel, inventando formas de vida alienígenas, projetando histórias em quadrinhos ou desenhando David Beckham jogando futebol. Ele desenha bem e isso o faz feliz. Mas alguma coisa não estava bem. Parte de mim queria aproveitar essa felicidade, para aprimorar e polir seu talento, para transformar sua arte em uma conquista. Meu filho tinha razão: eu estava tentando assumir. E esse foi o momento em que eu soube que tinha perdido o rumo como pai e que precisava mudar.

EC – O senhor afirma que o livro não é um manual para pais, mas aponta um caminho a ser seguido. Que caminho é esse?
Carl Honoré
 – Nós queremos a mesma coisa: que nossos filhos sejam felizes e saudáveis e alcancem seu pleno potencial. E isso é possível se relaxarmos um pouco, se conseguirmos o equilíbrio entre fazer muito e nada fazer para nossos filhos. Ignore o pânico e a pressão dos colegas. Seu filho vai ficar bem. Confie nos seus instintos. Encontre sua própria forma de ser pai ou mãe. Ouça e observe seu filho. Uma criança não é um projeto, produto, troféu ou um pedaço de argila que você pode moldar como uma obra de arte. Uma criança é uma pessoa que vai prosperar se você permitir que ela seja protagonista de sua própria vida. Os pais desta geração perderam confiança. Isso nos torna presas fáceis para empresas vendendo ferramentas educativas desnecessárias (capacetes para proteger crianças de dois anos, que estão aprendendo a andar, de quedas e ferimentos, alguém se interessa?). E a pressão de pais vulneráveis. Escrevi Sob Pressão para recuperar a minha própria confiança e ajudar outros pais a fazerem o mesmo. Pais confiantes são capazes de resistir ao alarmismo e à pressão para encontrar sua própria maneira de educar seus filhos. Não existe uma fórmula mágica para criar filhos. Cada criança e cada família são únicas. O segredo é encontrar a forma, o estilo que funciona melhor para você e seus filhos e não fazer exatamente o que todo mundo está fazendo.

Crianças sob pressão

Foto: Randy Quan/ Divulgação

Foto: Randy Quan/ Divulgação

EC – Existe algum indicador de que é possível agir diferente?
Carl Honoré
 – Eu definitivamente vejo a mudança chegando. Na verdade, este é exatamente o tema de Sob Pressão: a mudança positiva que está ocorrendo em todo o mundo. As escolas estão reduzindo a obsessão pelos exames e trabalhos acadêmicos e descobrindo que quando os alunos têm mais tempo para relaxar, refletir e tomar conta de sua própria aprendizagem, eles aprendem melhor. Não muito tempo atrás, Cargilfield, uma escola privada, na Escócia, proibiu a lição de casa para alunos de três a 13 anos. Em um ano, as notas nas provas de Matemática e Ciências aumentaram quase 20%. Para dar um descanso para as crianças mais atarefadas, cidades de todo o mundo estão criando um dia especial em que todos os trabalhos de casa e atividades extracurriculares são canceladas. Muitas famílias estão tão aliviadas de, pelo menos por uma tarde, não precisar sair correndo para acompanhar as atividades extraclasse de seus filhos, que estão revendo seus planos durante o resto do ano. Universidades de elite também estão agindo de forma semelhante. O Instituto de Tecnologia de Massachusetts recentemente renovou seu formulário de candidatura, reduzindo a ênfase sobre o número de atividades extracurriculares e permitindo que o candidato fale mais sobre o que ele realmente gosta. A nossa propensão de envolver as crianças numa bolha para mantê-los seguros está sendo revista. Em uma nova pré-escola, na Escócia, crianças de três anos passam o dia em uma floresta sob duras condições meteorológicas, em campo aberto, com incêndios e fungos venenosos. Claro, elas correm riscos, mas retornam mais felizes, mais confiantes e menos propensas a doenças e alergias. Veja o sucesso mundial de O Perigoso Livro para Garotos, um manual cheio de dicas sobre como desfrutar de todos os tipos de passatempos perigosos, de corridas de kart a estilingues e catapultas.

EC – De que forma a mídia influencia essa cultura – criar filhos como quem gerencia um projeto – e qual a responsabilidade da escola e dos educadores em uma mudança de comportamento?
Carl Honoré
 – A mídia retrata as crianças como acessórios de moda. Você vê celebridades como David Beckham ou Brad Pitt exibindo seus filhos para os paparazzi. Atrizes fazem fila para mostrar suas barrigas e mais tarde seus bebês recém-nascidos nas revistas de fofoca. E, claro, as imagens são todas perfeitas, todo mundo parece feliz, saudável, rico e bem sucedido. Isto coloca uma grande pressão sobre os pais normais para fazer seus próprios filhos tão perfeitos. Impõe-se um padrão impossível, que todo mundo acha que tem que alcançar. A mídia também adora o pânico e o medo e exagera o quão perigoso o mundo é para nossas crianças. As escolas e os professores desempenham um papel muito importante nesse sentido. Eles podem explicar aos pais a necessidade de descanso e tempo livre, que cada criança é diferente e única. Acredito que os professores estão tomando a liderança no enfrentamento da cultura de pressionar as crianças – porque são eles quem mais enxergam as consequências.

EC – De que forma Sob Pressão se insere na Slow Movement?
Carl Honoré
 – A filosofia Slow não significa fazer tudo no ritmo de um caracol. Significa fazer tudo na velocidade certa. Isso implica qualidade sobre a quantidade; reais e significativas conexões humanas, estar presente e no momento presente. A proposta da filosofia Slow é dar às pessoas a visão e a coragem para mudar a forma de como fazer tudo: trabalho, esporte, saúde, comida, sexo, design… e, claro, a educação. Para mim, a educação paciente é a que traz equilíbrio para a casa. As crianças precisam se esforçar, mas isso não significa que a infância seja uma disputa. Pais pacientes dão aos seus filhos mais tempo e espaço para explorar o mundo com seus próprios limites. Eles mantêm o calendário familiar sob controle de modo que todos têm tempo para descansar, refletir e sair juntos. Aceitam que dar o melhor de tudo pode não ser sempre a melhor política, porque nega uma lição de vida muito mais útil de como fazer o melhor com aquilo que temos. Educação paciente significa permitir que os nossos filhos trabalhem quem eles são e não o que nós queremos que eles sejam. Isso significa deixar as coisas acontecerem em vez de forçá-las. Significa aceitar que as mais ricas experiências de aprendizagem não podem ser resumidas em um currículo. Pais pacientes entendem que a educação não deve ser um cruzamento entre um esporte competitivo e um produto em desenvolvimento. Não se trata de um projeto, é uma viagem de descoberta. Educação paciente é dar muito amor e atenção às crianças, sem impor quaisquer condições.

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