Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 142 | Ano 15 | Abr 2010
FRAGA

Folhagens

Colunista: Fraga

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Tem gente, dizem, que tem dedo verde: planta cáctus, brota bromélia. Mas as pessoas não são iguais, menos ainda as de ficção. Ninguém suspeita da vidinha particular dos personagens de tudo quanto é livro. O leitor se ocupa tanto com o enredo, preso pela narrativa, se envolve com as criaturas a ponto de vê-las somente como o autor quer. Aí, coisas obscuras da vida dos protagonistas ficam ocultas.

Alguém já pensou no que fazem os personagens quando não estão seguindo o script? Como vivem nos interregnos do roteiro? Afinal, entre uma cena e outra, às vezes a história salta dias, semanas, até anos. E pra que servem essas elipses temporais?

Suspeito que, como nós, os personagens tenham vida própria, a que se reservam enquanto não reassumem os trechos a eles destinados nas páginas.

Entre as hipóteses, desconfio que pratiquem jardinagem, paisagismo. Claro, com tantas folhas, centenas a cada volume, milhares ali disponíveis nas carreiras das estantes. E o que os personagens fariam com folhas? Cultivar, ora! Pode ser um dos hobbyes que os alivia dos dramas e peripécias que têm de cumprir linha por linha.

Assim, lá nas suas residências de verdade (não as que constam dos cenários descritos) passam as horas livres plantando folhas e folhas, canteiros ao redor da construção. Cavocam a terra fresca e enfiam mudas de folhas exóticas, pois das folhas de novelas, romances e contos eles estão cansados.

Eu os imagino satisfeitos com seus jardins, relaxando das aventuras que são obrigados a protagonizar, a contemplar folhagens viçosas: aqui um pé de livro-caixa com pautas rosa e azul, ramos de haver e dever; ali vários arbustos de enciclopédia, profusão de verbetes em foto-síntese; lá adiante, atraentes pela aspereza, folhinhas miúdas da literatura de cordel, de brilho vigoroso.

E a rua toda assim cultivada, sucessão de plantas coloridas, como a cerca viva de folhas de revista, até suplementos de jornais vicejam, tingem a paisagem de alguma realidade.

Certas casas revelam a sisudez do morador: as folhagens vingaram a partir de folhas de agendas, códigos penais, até bíblias. Gramados sóbrios, tufos discretos modelando o quintal. E outras exibem, sem pudor, folhagens de auto-ajuda!

Mas o bairro todo, enfim, parece um harmonioso espaço de Burle Marx: folhagens poéticas ao poente, ramagens de crônicas delicadas, trepadeiras de folhas de livros infantis.

Quando leio, todo intervalo me leva a esse devaneio.

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