Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 143 | Ano 15 | Mai 2010
ENTREVISTA | MARIE ANGE BORDAS

Furando a bolha da arte

Artista gaúcha promove projetos participativos multidisciplinares com crianças e jovens refugiados ao redor do mundo
Por Jacira Cabral da Silveira

Marie Ange Bordas, artista plástica, jornalista e fotógrafa gaúcha, lançará no segundo semestre deste ano o primeiro livro da série Histórias da Cazumbinha realizado em parceria com a escritora Meire Cazumbá e as crianças do quilombo do Rio das Rãs, no sertão baiano, pela Companhia das Letrinhas. Depois disso, no início de 2011, ela já está programando, entre outros projetos, uma residência artística no Norte da Colômbia para produzir uma obra com crianças da etnia emberá e a colaboração com jovens fotógrafos etíopes para produzir um livro infantil em amárico, língua oficial da Etiópia. Tais deslocamentos fazem parte da vida de Marie desde muito cedo, assim como a produção a partir da multidisciplinaridade, tanto de mídias quanto de funções. Ainda jovem em Porto Alegre produziu eventos da Secretaria Municipal da Cultura e participou das primeiras experiências de descentralização da cultura e o envolvimento com a fotografia e o cinema.

entrevista_furando_a_bolha_da_arte

Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

Em São Paulo trabalhou em canais de televisão e revistas, mantendo sempre o vínculo com a produção cultural, em projetos no Museu da Imagem e do Som e no evento de arte pública Arte/Cidade. Mas foi em Nova York, onde viveu durante cinco anos, que começou a investir de fato na construção de um trabalho artístico, interagindo com outros artistas, dramaturgos e dançarinos. Mais tarde, a opção de abordar temas sociais através da arte foi o caminho encontrado para juntar seu “faro” jornalístico investigativo à demanda poética e estética. “Acredito que já passamos da fase do jornalismo ou do documental como denúncia, que devemos não só informar sobre questões, mas também interagir com elas”. Direto de São Paulo, em meio à inauguração de uma exposição, da produção do livro e de uma gripe perturbadora, Marie Ange abriu sua bagagem de andarilha e contou sobre projetos e lugares.

Extra Classe – Como é o trabalho que realizas junto às comunidades que passam por conflitos e deslocamentos?
Marie Ange Bordas – Deslocamentos é um projeto participativo que aborda a experiência dos refugiados por meio de oficinas artísticas e realização de exposições dentro e fora de suas comunidades. Ele nasceu da percepção de o quanto minha privilegiada mobilidade redefiniu minha maneira de ser e agir no mundo e do desejo de aproximar minha experiência àquela de pessoas que, diferente de mim, foram forçadas a abandonar seus lares.

Escolhendo imagens na oficina audiovisual no Campo de Refugiados de Kakuma, Quênia

Foto: Marie Ange Bordas

Escolhendo imagens na oficina
audiovisual no Campo de Refugiados
de Kakuma, Quênia

Foto: Marie Ange Bordas

EC – Qual foi o primeiro trabalho?
Marie Ange – Entre 2001 e 2004 eu partilhei o diaa- dia de refugiados vivendo em Johannesburg (África do Sul), em um albergue para refugiados na periferia de Paris (França) e no Campo de Refugiados de Kakuma (Quênia). Nestas comunidades onde vivi, realizei oficinas de criação multimídia (fotografiavídeo e som), espaços de integração e de troca, que funcionavam como plataformas para lançar e desenvolver ideias e cartografar subjetivamente estas memórias em trânsito. Um work in progress que buscava inspirar processos criativos individuais e coletivos e fornecer ferramentas de representação para além do discurso emoldurado das agências humanitárias e dos estereótipos da grande mídia. Cada oficina resultou em uma exposição para a comunidade local, constituída por instalações, vídeos, paisagens sonoras e fotografias. Em 2005, uma exposição reunindo os materiais produzidos nas três comunidades foi inaugurada no Brasil e desde então tem itinerado por diversos países.

EC – O projeto Deslocamentos desdobrou-se em outros lugares?
Marie Ange – Em 2005 levei o projeto para o Sri Lanka, país afetado por 20 anos de guerra civil e conflito étnico-religioso que deslocou mais de 350 mil pessoas. Baseada na Costa Leste, realizei a oficina de alfabetização visual e mídia Vivendo Juntos, reunindo jovens tamis, hindus, cristãos e muçulmanos. Nesta oficina criamos um jornal, uma campanha de pôsteres de rua e exposição fotográfica sobre o tema da convivência pacífica entre comunidades. O trabalho com estes jovens e a interação com suas comunidades levou-me a propor a Oficina Mensagens ao Mar, para atender crianças atingidas pelo tsunami. A oficina utilizou a fotografia e o desenho como ferramenta de diálogo entre crianças e adultos, um espaço para as crianças vivendo em campos provisórios exporem suas necessidades e desejos.

No albergue de refugiados de Massy (França), quartos e corredores foram transformados para acolher a arte produzida pelos participantes de oficina criativa

Foto: Marie Ange Bordas

No albergue de refugiados de Massy (França), quartos e corredores
foram transformados para acolher a arte produzida pelos participantes
de oficina criativa

Foto: Marie Ange Bordas

EC – O que te levou a fazer esse tipo de trabalho?
Marie Ange – Foi uma convergência de interesses, insights e descontentamentos… Primeiro, a questão do deslocamento me tocou pessoalmente depois de seis anos fora do Brasil (em 2001 eu morava em Nova York) e uma existência em movimento entre países e culturas desde bastante cedo (além de uma família “multicultural”). A percepção de o quanto minha identidade, meu ser e estar no mundo estavam sendo definidos pelos meus deslocamentos e o quanto este engendrava negociações complexas com cada sociedade – língua, cultura, cotidianos – da qual fiz parte. Segundo, meu descontentamento com o momento da arte contemporânea atual, principalmente no cenário/mercado americano, onde pouco do que eu via me tocava emocional ou intelectualmente. Terceiro, meu interesse pelos refugiados (e pela África) é antigo, desde os domingos de Fantástico nos anos 80… quando ainda pequena algo me incomodava naquela melodramaticidade que falava de hordas de pessoas, mas nunca retratava indivíduos quando noticiava os dramas no continente africano. Em 96, quando saído Brasil levei comigo um recorte de uma notícia na Folha de SP sobre crianças mutiladas na guerra em Serra Leoa, este recorte esteve em várias das minhas paredes por quase quatro anos… um dia cruzei um grupo de homens com braçøs mutilados no Brooklyn (NY) e no exato momento que os vi soube que eram de Serra Leoa e que a África e os refugiados entravam na minha vida. Depois de noites sem dormir finalmente os contatei e foi ai que tudo convergiu!

EC – Você pode explicar melhor seu descontentamento com relação ao atual momento da arte contemporânea, em especial ao que viu nos Estados Unidos?
Marie Ange – É que eu sentia o circuito dominante como hermético demais, desfocado das realidades que me interessavam e vivendo dentro de uma bolha própria. A sensação, às vezes, depois de horas de galerias era a de que, independente do meu nível de informação ou de formação, eu nunca chegaria a lugar algum. Infelizmente, não um sentimento depaysant, desnorteador e desafiador, simplesmente uma sensação de vazio. Existe uma expressão em inglês que para mim descreve bem este cenário: preaching to the converted – poucos escolhidos exibem para pouco supostos entendidos, que chegam preparados para achar algo. Pessoalmente, depois de quatro anos trabalhando em atelier, senti falta das minhas raízes participativas, do trabalho em equipe, mas, sobretudo, de um trabalho onde convergessem minhas inquietações pessoais, ideológicas e sociais, minha experiência do criar e do trabalho com comunidades.

EC – O que você quer dizer com: “O desterro afeta nossa corporalidade”?
Marie Ange – É simples, percebi durante meus próprios descolamentos as mudanças do meu modo de estar e mover-me no mundo. Ao adaptar-me a outras culturas adotei modos de interação física com os outros que não me eram inerentes. Por exemplo, a afetuosidade brasileira (o abraço, beijos de cumprimento) nem sempre era compreendida nos países anglo-saxões, no Sri Lanka e em alguns países africanos algumas partes do corpo não devem ser tocadas. Em outro registro, encontrei pessoas desterradas forçosamente que pareciam criar para si uma linguagem corporal de autoproteção, quase uma tentativa de invisibilizar-se (tornarem-se invisíveis).

Instalação Floresta Nua na exposição Deslocamentos, inaugurada no Fórum Social Mundial 2005, em Porto Alegre

Foto: Marie Ange Bordas

Instalação Floresta Nua na exposição Deslocamentos, inaugurada no
Fórum Social Mundial 2005, em Porto Alegre

Foto: Marie Ange Bordas

EC – O que é esse método de fazer interagir diferentes mídias?
Marie Ange – Não chamaria de método, mas de uma proposta de utilizar de maneira multidisciplinar as diferentes ferramentas de mídia, vídeo, som, fotografia e impressos na construção de discursos e práticas artísticas e educativas. Para mim, desde cedo foi uma maneira de responder a linearidade do bidimensional que predominou na história da arte e que ainda acomete algumas instituições de educação e arte. Ao criar ambientes expositivos multimídia, procuro inspirar uma percepção poética do espaço, despertar outras sensorialidades e instigar uma experiência contemplATIVA.

EC – Atualmente estás desenvolvendo o projeto Laboratório de Saberes Caiçaras, podes falar sobre ele?
Marie Ange – Este projeto é fruto de um intercâmbio de ideias com o Ponto de Cultura, Centro de Cultura Caiçara da Barra da Ribeira (litoral Sul de São Paulo), onde discutimos diferentes possibilidades de integrar arte e literatura no processo de resgate cultural e de como inserir estes saberes tradicionais dentro das escolas. O projeto foi agraciado com o Prêmio Interações Estéticas da Funarte, que me possibilitou a estadia de quatro meses na comunidade. O livro está em fase de produção e será provavelmente publicado no final do ano. A proposta do Laboratório é criar um espaço na comunidade onde as crianças são as protagonistas do resgate e valorização da cultura caiçara de forma lúdica e participativa. Optamos pela criação de um livro infantil que retrata os saberes e fazeres destas crianças numa dinâmica de laboratório/um espaço de convívio para a comunidade de Iguape, onde promovemos encontros intergeneracionais para troca de experiências, contação de histórias e transmissão de saberes locais. A partir destes encontros, as crianças coletaram e reinterpretaram contos, lendas e histórias atuais, produzindo fotografias e desenhos para ilustrá-los. É importante ressaltar que este resgate de saberes e tradição que aspiramos, implica uma abordagem da identidade cultural expressa no cotidiano e na experiência de cada um, através da valorização das práticas, costumes e relações do dia-a-dia das próprias crianças. Não pretendemos impingir uma tradição imposta desde fora pelos mais velhos, exaltando apenas fatos, costumes e lendas passados, mas sim valorizar os saberes construídos no seu próprio cotidiano, tais como nomes de animais, plantas e lugares, a relação com o meio ambiente, a identificação de comidas e de brincadeiras, mas também saberes de um repertório de interesses próprio a uma juventude em contato com a cultura urbana.

"Lar", imagem realizada pela artista a partir de fotografias do campo de refugiados de Kakuma, Quênia

Foto: Marie Ange Bordas

“Lar”, imagem realizada pela artista a partir de fotografias do campo de refugiados de Kakuma, Quênia

Foto: Marie Ange Bordas

EC – Esse não é o primeiro livro que escreves com a participação de crianças, quais e como foram as experiências anteriores?
Marie Ange – A primeira experiência foi com jovens e crianças vivendo no Campo de Refugiados de Kakuma (Quênia), onde criamos a fotonovela On the Move sobre crianças que nasceram na liberdade cerceada do campo. O desafio era criar uma ficção a partir da realidade vivida, instigar nos jovens o desejo de articular um discurso próprio, distinto do discurso das agências humanitárias internacionais predominante na educação local. A segunda foi em uma oficina de integração e cidadania que reuniu crianças de uma chamada classe especial de quinta série, numa escola no sul de Londres, e jovens refugiados na produção da fotonovela ilustrada O primeiro dia. De volta ao Brasil, tenho trabalhado em uma série de livros infantis com comunidades tradicionais, utilizando este processo colaborativo, onde as crianças e os adultos da comunidade participam tanto na concepção do conteúdo textual quanto na criação das ilustrações. O primeiro livro da série Histórias da Cazumbinha será lançado em setembro, pela Companhia das Letrinhas.

Pequenos fotógrafos da Oficina Mensagens ao Mar no Sri Lanka

Foto: Marie Ange Bordas

Pequenos fotógrafos da Oficina
Mensagens ao Mar no Sri Lanka

Foto: Marie Ange Bordas

EC – Você tem preferência pelo trabalho com crianças?
Marie Ange – Com a “missão” de pesquisar e criar histórias e retratar em fotos e desenhos sua realidade, as crianças tornam-se catalisadoras de um processo de revitalização da cultura/identidade local de forma orgânica e natural, contribuindo também para a construção de uma memória coletiva contemporânea. Acredito na criação visual (fotografia/ desenho) como uma ferramenta poderosa de construção/reconstrução de identidades individuais e comunitárias. No plano individual, ela provê uma janela para percepção de seu entorno e uma maneira de expressar-se criativamente. No plano coletivo ela possibilita que comunidades tenham o controle de sua imagem e da representação de sua cultura. O ato de observar, treinar o olhar para realmente perceber seu entorno, para após documentá-lo (literal ou abstratamente), abre um novo canal para compreensão de sua realidade, um canal que pode promover novas interações sociais e conduzir ao fortalecimento de laços dentro da própria comunidade.

EC – Como é viver da arte?
Marie Ange – Boa pergunta! (risos). Eu não posso dizer que vivo de arte, por sinal, são poucos os artistas no mundo que podem viver da criação de obras de arte. Isto dito é preciso ter em mente que a noção de artista em que acredito é do artista como um articulador, um agente provocador, que cria diferentes formas de comunicar, educar e interagir, um artista preocupado com um processo e não com um produto, que propõe atos criativos e intervenções concretas onde até mesmo os materiais artísticos podem ser substituídos por relações sócio-políticas. Pessoalmente pude desenvolver muitos dos meus projetos a partir de residências artísticas em museus e centros culturais, sendo a mais recente uma residência de artista na Universidade de East London (Inglaterra) onde “desafiei a instituição” propondo um olhar criativo sobre a o projeto curricular.

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS