Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 145 | Ano 15 | Jul 2010
FRAGA

Antes do teclado

Colunista: Fraga

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

O primata acordou inspirado. Era o dia de inventar a escrita.

Desceu da árvore decidido a não mais viver nos galhos: queria reescrever a vida, redecorar o habitat, e o melhor era melhorar a expressão. Afinal, o futuro exigiria argumentos sofisticados.

Ao pôr o pé no chão, intuiu: era um pequeno passo para a macacada mas um salto gigantesco para a… ah, isso viria depois. Apanhou um graveto, como uma caneta nova num balcão. Disparou para a areia, escrever seria a sua praia.

Mas o dia não ia ser fácil.

Pra começar, nenhum monólito por perto. Assim do nada, de onde tiraria inspiração? Na orla, se extasiou diante da tarefa de criar a comunicação. Sabia que além da família na árvore, tinha bilhões e bilhões de descendentes esperando pela primeira linha. Imagine, uma humanidade ansiosa espiando por sobre o ombro!

Desviou dos caranguejos e riscou a areia. Funcionava! Riscou várias vezes e se admirou: escolhera um pedaço de pau que nem precisava recarregar. Mas, tentou ler e não leu: o escrito não fazia sentido.

Quem sabe era a areia, fofa? Foi pra parte úmida e macia: funcionava! Fez várias receitas de comida, cartas de amor, logo cobriu a orla de textos. À tarde, até tratados havia. Queria um poema, mas estava exaurido de criatividade. Encerrou com uma crônica sobre aquele dia.

Resolveu contemplar a magnífica obra, quem sabe revisar alguns ensaios científicos. Estava assim, mão no queixo, quando uma onda maior alcançou suas palavras, que sumiram para todo o sempre. E a maré, o primeiro apagador da história, apagou o maior esforço concentrado de um único ancestral. “Isso vai atrasar tudo”, cogitou ele antes de Descartes.

Conclusão: a superfície está errada. Saiu da praia e fez um levantamento dos recursos na região: barro, pedra, o couro daquele bicho morto pode ser um palimpsesto e, ei, aquele junco, se esmagado, vira papiro! E se dá nisso, grandes árvores darão rolos maiores, vibrou ele enquanto atropelava a cronologia. O homo erectus ia gostar do material escolar!

O macaco voltou à beira da praia e rabiscou: “Um dia difícil”. A onda veio e levou. Escreveu de novo, a onda lavou. A tarde caía e o macaco e a onda continuaram o jogo. O macaco só parou porque queria a inventar o fogo antes que escurecesse.

Mas estava exausto de tanto evoluir. Voltou pra ignorância da árvore, disposto a esperar pela ajuda do homo sapiens. Já tinha criado a linguagem, o lápis, o papel. Que mais queriam? Palmtop?

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