Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 146 | Ano 15 | Ago 2010
ESPECIAL

Orgulho e preconceito

Depois de 500 anos de extermínio e desrespeito aos seus direitos, os povos indígenas ainda sofrem com o descaso da sociedade e dos governos
Por Cleber Dioni Tentardini

 

O vice-cacique Tarcísio Gomes, guarani, mostra as instalações precárias na Aldeia da Estiva, em Viamão

Foto: Igor Sperotto

O vice-cacique Tarcísio Gomes, guarani, mostra as instalações precárias na Aldeia da Estiva, em Viamão

Foto: Igor Sperotto

Em 500 anos de história, o homem branco protagonizou a extinção de 90% dos nativos brasileiros. Passado todo esse tempo, os indígenas ainda sofrem todos os tipos de violação dos seus direitos, como mostra uma pesquisa divulgada recentemente pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), vinculado à CNBB.

Dos 5 a 10 milhões de indígenas que habitavam o território brasileiro, restaram pouco mais de 540 mil, representando 0,2% da população, subdivididos em 200 etnias. O relatório do Cimi, produzido em 2009, mas só agora divulgado, mostra que esses povos ainda sofrem humilhações e preconceitos, praticados pela sociedade civil e por agentes públicos.

As violências mais comuns estão vinculadas aos conflitos ligados a disputas fundiárias. Os índios são presos, torturados, assassinados, têm seus acampamentos queimados, animais mortos e suas florestas desmatadas. Os inimigos são muitos: polícia, capangas, proprietários de terras, grileiros, ladrões de madeira, caçadores, entre outros.

O relatório aponta omissão do poder público nas áreas da Segurança, Educação e Saúde. Os resultados dessa omissão: mortes por desnutrição e epidemias.

Sobressai o número de homicídios no Mato Grosso do Sul, com 33 dos 60 casos registrados em 2009. A antropóloga Lucia Rangel, da PUC/SP, coordenadora da pesquisa, observa que a violência tem sido cada vez mais constante na vida cotidiana dos índios. “Ela não pode ser banalizada, nem encarada como normalidade”, adverte. Para o bispo Erwin Kräutler, presidente do Cimi, “os projetos desenvolvimentistas estão sendo construídos sobre os cadáveres dos indígenas”.

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Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

Pressão e opressão
No Rio Grande do Sul vivem cerca de 30 mil índios da etnia kaingang, 2 mil da guarani e 40 da charrua. O relatório do Cimi aponta casos de omissão e demora na regularização das terras, opressão policial, três assassinatos, terceirização e precarização do sistema de Saúde. “A situação chegou ao extremo quando a Funasa rompeu com a ONG que prestava serviços de saúde, deixando 20 mil indígenas sem atendimento de urgência”, relata o Conselho.

A inconformidade fez com que, pela primeira vez, guaranis ocupassem a sede regional da Funai, em Passo Fundo, como forma de pressão – algo incomum para esses índios coletores, de atitudes pacíficas, ao contrário dos kaingangs, de perfil caçador e guerreiro.

Um exemplo da morosidade é o processo demarcatório da Terra Indígena Rio dos Índios, no Norte do estado, reconhecida em 2004 como sendo da comunidade kaingang. Desde então, a Funai não deu encaminhamento à próxima etapa, que seria a indenização e saída dos não indígenas. Outro caso que gerou violenta repressão policial foi provocado pela construção da Hidrelétrica Monjolinho, onde os kaingangs da terra indígena Votouro, também na fronteira norte com Santa Catarina, protestaram contra o alagamento da sua terra.

As maiores e mais populosas áreas indígenas em solo gaúcho estão no Norte e Noroeste, em municípios como Nonoai e Iraí. Na terra indígena da Guarita, onde há 13 aldeias – 11 kaingangs e duas guaranis – que ocupam parte dos municípios de Tenente Portela e Redentora, estima-se que vivam 7 mil pessoas em 23 mil hectares.

OCUPAÇÃO – Na última semana de julho, cerca de 300 índios de 11 etnias ocuparam o canteiro de obras da usina hidrelétrica Dardanelos, no Mato Grosso, e mantiveram trabalhadores reféns por dois dias. Os índios exigiam que a construtora estabelecesse prazos para a compensação ambiental e uma indenização pela destruição de um sítio arqueológico indígena.

Cacique critica desassistência

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O cacique kaingang Ari Ribeiro manifesta descrédito geral com as instituições. Desconfia da imprensa, porque pouco ou nada publica sobre as questões indígenas, e quando o faz é para criticar a distribuição de terras. Desconfia do modelo político no país, porque considera excludente e sujeito a todo tipo de corrupção. Tem fala mansa, mas solta o verbo: “As políticas voltadas aos indígenas priorizam os interesses dos governantes, a Funai está totalmente desestruturada, a Funasa está passando por um dos momentos mais difíceis, projetos são superfaturados, os municípios não dão assistência alguma, falta saneamento”, critica o líder da aldeia da Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, onde vivem 180 pessoas de 34 famílias, em 6 hectares.

Aos 45 anos, pai de três filhos, Kãjer (seu nome natural) veio de Nonoai para ficar mais próximo da cidade, estudou até o Ensino Médio e hoje divide seu tempo entre a venda de artesanato na rua José Bonifácio e o trabalho como conselheiro distrital de Saúde.

Ele critica a demora na demarcação de terras: “nossa principal questão sempre foi e vai ser a terra, porque com ela temos saúde, educação, autonomia. Só que os processos trancam por outros interesses. Na terra indígena de Borboleta, na região Alto do Jacuí, por exemplo, há 20 anos que fazem estudos lá e até agora nada de reconhecimento. No Morro do Osso, o poder econômico ainda tenta ganhar a luta contra os kaingangs que vivem aqui, em Porto Alegre, onde há 28 sítios arqueológicos indígenas comprovados”.

Ari recebeu a liderança de Felipe da Silva, 61 anos, o mais velho entre os 18 artesãos kaingangs da rua da Praia, perto da Praça da Alfândega. Também veio de Nonoai, onde plantava feijão há 15 anos. Ele percebeu que 90 dias era muito tempo de espera para ganhar algum dinheiro, então resolveu trabalhar com artesanato, envolveu toda a família e há 12 anos vende no Centro. “Aqui dá para ganhar um dinheirinho todo o dia, porque a Funai não faz nada pela gente”, defende.

Ciência aliada à tradição

Zico foi o primeiro guarani a se formar enfermeiro

Foto: Igor Sperotto

Zico foi o primeiro guarani a se formar enfermeiro

Foto: Igor Sperotto

Claudemir Vaz e Zico da Silva têm mais em comum do que a origem indígena e os 27 anos de idade. Ambos cursaram faculdade no IPA e hoje trabalham na Funasa, supervisionando o trabalho de assistência à saúde nas 106 aldeias e 23 acampamentos no estado. As equipes somam 111 agentes indígenas de Saúde e 45 agentes indígenas de Saneamento, dois enfermeiros e 16 técnicos de Enfermagem.

Zico, Wera em guarani, é o primeiro da sua etnia a se formar enfermeiro no RS. Ele mora no acampamento da Estiva, em Viamão, com a mulher Graciela, 30 anos, artesã argentina, e com as filhas gêmeas de sete anos, onde dividem 7 hectares com outras 164 pessoas de 33 famílias.

Ele explica que nenhum procedimento de saúde é feito sem o conhecimento do médico tradicional, o pagé. “Ele tem a religiosidade e o contato com a natureza, e nós oferecemos o conhecimento da ciência, um não anula o outro”, ressalta.

Claudemir se formou terapeuta ocupacional, e como muitos kaingangs, optou por morar fora da aldeia. Reside no bairro Rio Branco, na capital. Seus pais permanecem na Lomba do Pinheiro, onde ele acredita que os indicadores de Saúde já apresentam melhorias devido à presença de indígenas nas equipes de Saúde.

Assim como eles, outros índios estão frequentando cursos universitários a fim de melhorar a vida nas comunidades e garantir a seus descendentes o direito de desfrutar dos recursos naturais, pelo menos, dos que ainda estão ao alcance das comunidades.

Legislação e culturas desconhecidas

Para a coordenadora do Conselho Estadual dos Povos Indígenas (Cepi), Sonia Santos, falta aos gestores públicos entendimento da legislação e dos costumes e culturas indígenas. “Nós não temos grandes programas voltados aos índios porque há falta de diálogo. Aí fica um embate sobre as competências, sobre o que é realmente necessário realizar. A maioria dos avanços que percebemos é resultante de esforços pessoais”, garante.

Mesmo ela, que coordenou por 12 anos a Educação Escolar Indígena no estado, acha que conhece pouco as comunidades. “Uma coisa que aprendi é que não se comparam aldeias, mesmo sendo da mesma etnia, porque os índios têm suas especificidades”, ensina.

Embora a Constituição Estadual do RS seja uma das que mais contemple a questão indígena, falta colocá-la em prática, segundo Sonia. “A Academia tem uma produção intelectual boa, mas tem que levar esse acúmulo de conhecimento para ajudar a formular políticas públicas. Temos que evoluir muito no saneamento básico e na educação também, há escolas bilíngues somente até a 4ª série nas aldeias, por isso poucos avançam até o Ensino Médio e chegam às faculdades”, explica.
Fundação desestruturada

A Fundação Nacional do Índio no Rio Grande do Sul é bombardeada por todos os lados. O coordenador técnico da Funai em Porto Alegre, João Maurício Farias, diz que o órgão está sendo “reestruturado”. Mas o que se observa é que a Funai tem se ocupado basicamente a destravar processos de demarcação de terras e de prestar alguma assistência social. O escritório se mantém com um orçamento anual de R$ 300 mil, e alguns recursos que são direcionados a outras áreas como apoio a cestas básicas e construção de moradias. Ele diz que há vários grupos de trabalho (GTs) concluindo estudos. São antropólogos, arqueólogos e outros profissionais contratados temporariamente para avaliar os pedidos de reconhecimento de áreas indígenas. Ainda este ano está prevista a publicação de edital para analisar mais três áreas na Região Metropolitana de Porto Alegre.

E ainda tem que cuidar das demandas diárias, como o guarani que quer dinheiro para ir a Torres visitar um parente no hospital, e o outro que precisa autorização para vender um cd de músicas gravadas com crianças.

“Acho que a gente precisa melhorar bastante, mas estamos no caminho certo, com a gestão compartilhada com os indígenas através dos conselhos regionais de gestão participativa. Também estamos estudando parcerias com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e com a Secretaria da Agricultura”, afirma.

A quem compete a Saúde

Saneamento ainda é precário

Foto: Igor Sperotto

Saneamento ainda
é precário

Foto: Igor Sperotto

A Funasa é responsável pela atenção básica em saúde e saneamento nas áreas indígenas, mas é permanentemente cobrada para atender casos de urgência nas aldeias, serviço que compete aos estados e prefeituras, que recebem dinheiro para esse fim do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, vinculado ao SUS.

No estado, a Funasa possui 36 equipes de Saúde que prestam atendimento em 45 postos instalados dentro das aldeias. São supervisionadas pela pedagoga Inajara Rodrigues, que acumula 20 anos de experiência junto aos indígenas, e pela médica Emilia Ueda.

Segundo Inajara, existem no Brasil 60,7 portadores de doenças para cada grupo de mil habitantes, o que já é considerado intolerável pela Organização Mundial de Saúde. Porém, entre a população indígena esse número sobe para 112,7. Entre as doenças mais comuns, destaca Ueda, estão as respiratórias e diarreicas, a hipertensão, a obesidade e o diabetes.

Ainda que a Fundação tenha registrado em 2009 queda da mortalidade infantil entre os indígenas do Rio Grande do Sul, de 99 (2003) para 26 em cada mil nascidos vivos, a saúde, sobretudo a desnutrição infantil, aliada à falta de terras adequadas constituem seus maiores problemas.

De acordo com a engenheira sanitarista do órgão federal, Márcia Almeida, o PAC indígena investiu desde 2007 no estado R$ 4,1 milhões em obras de saneamento – instalação de redes de abastecimento de água potável e de banheiros. Foram contempladas 46 aldeias e 6.530 pessoas. Esses números incluem ações ainda não executadas este ano.

 

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