Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 148 | Ano 15 | Out 2010
SAÚDE
ESPECIAL

Por uma memória saudável

Por Grazieli Gotardo

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Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

Aos 73 anos de idade, o médico argentino, naturalizado brasileiro, Ivan Antonio Izquierdo (foto), dispensa apresentações no mundo científico do estudo da memória. Atualmente, é professor titular de medicina na PUCRS e coordenador do Centro de Memória da Universidade. Atuante na área da formação, persistência e extinção de memória, recém chegou de um Congresso médico na Alemanha, de onde trouxe novidades sobre os estudos para o tratamento de Alzheimer. Ele conversou com o Extra Classe sobre saúde mental.

 

Extra Classe – O que é ter saúde mental?

Ivan Antonio Izquierdo – Imagino que cada um defina isso à sua maneira. Em termos gerais, podemos dizer que saúde mental é ter a mente em equilíbrio consigo, com as demais pessoas que nos rodeiam e com a realidade em geral. Por exemplo, perceber as coisas como são: quando olho para uma estante percebo livros e não rinocerontes. Se visse rinocerontes entraria na doença mental e seria uma alucinação. Entender o que as pessoas pensam e o que dizem parece elementar, mas nem todos têm essa capacidade.
EC – Por que algumas memórias se tornam persistentes e outras não?

Izquierdo – Algumas pessoas estudam um conteúdo para um exame e logo depois esquecem para sempre o que estudaram. Outras estudaram o mesmo conteúdo com os mesmos professores e materiais levam este conteúdo para toda a vida. Este é um mecanismo que se desencadeia depois de a memória ter sido consolidada. Existe um segundo mecanismo, posterior a este, pelo qual o hipocampo, local do cérebro onde se formam a maioria das memórias, secreta uma substância chamada BDNF (Brain-derived neurotrophic factor), que é um fator de crescimento do neurônio. Doze horas depois de terem sido feitas, essas substâncias produzem o crescimento de sinapses e fazem com que a memória adquirida poucas horas antes fique mais fortalecida. Isso é engatilhado por outro mecanismo de fora do hipocampo, medido pela dopamina, em uma região do cérebro médio que manda liberar dopamina no hipocampo para que este secrete BDNF. Esse mecanismo, que funciona em humanos, faz com que pessoas com mais de 40 anos registrem uma informação na memória, mas ela não persiste, em especial sobre fatos não muito importantes, por exemplo, coisas que vimos na televisão há alguns dias. Pessoas de até 40 anos lembram, com detalhes, um filme que viram há sete, por exemplo. Depois dos 40, a pessoa passa a lembrar daquilo visto no máximo dois dias antes. Mas não é uma patologia, é um fenômeno normal que acontece após essa idade e talvez seja até benéfico.
EC – É possível esquecer de algo por completo?

Izquierdo – Todas as memórias são associativas. A gente faz isso todos os dias. Quando aprendemos um caminho e este muda, tendemos a ir para aquele primeiro, mas depois reaprendemos. A isso denomina-se extinção. Ela é usada terapeuticamente para tratar o estresse pós-traumático, que é aquele que nos faz relembrar constantemente um fato doloroso, traumático, terrível. A forma de acabar com isso para que o indivíduo não evoque isso constantemente e possa dormir, por exemplo, sem pensar nisso, é o psiquiatra expor o indivíduo a cenas daquilo que ele quer esquecer, deixando claro que são cenas, fotos, realidade que a pessoa já passou, foi terrível, mas agora não vai viver esta realidade outra vez. Ou seja, agora associa a cena com a falta do problema. E a gente reaprende, então assim se trata e se cura o estresse pós-traumático, é o único tratamento que existe. Não significa que a pessoa esqueça do ocorrido, mas não o traz à tona constantemente. Estamos estudando isso há nove anos e a cada dia encontramos coisas novas.
EC – O mal de Alzheimer é a doença mais estudada hoje?

Izquierdo – Deveria, mas é uma doença muito difícil de estudar, por que não tínhamos modelos de animais adequados. Estive agora na Alemanha em um congresso em que foi tratado disso e foram apresentados vários modelos novos de animais para estudo. Mas primeiro precisamos conhecer a doença para depois estudá-la. E agora estamos começando a conhecer a doença mais de perto. Creio que nos próximos dez anos vamos encontrar algo para tratar o Alzheimer, pois muitos grupos estão trabalhando. Hoje não temos um tratamento real, temos paliativos. Os remédios atuam sobre os neurônios, mas no Alzheimer, assim como em todas as doenças degenerativas, a pessoa vai perdendo neurônios, então o remédio tem cada vez menos onde agir.
EC – O quanto se conhece sobre as potencialidades do cérebro humano e como ele é visto pelos cientistas?

Izquierdo – Não sabemos quanto é o 100%. O cérebro representa o albergue do pensamento humano, da história, de todo o conhecimento. Claro que ele tem o papel de uma transcendência maior do que ser um simples órgão. Porém, para pesquisá-lo e procurar remédios para seus males, temos de vê-lo apenas como um órgão. Por exemplo, se você vai levar seu carro ao mecânico, ele é simplesmente uma máquina. Mas um carro pode ser muito mais, pode ser a realização de vida de uma pessoa. Ou então, um amor, porque a pessoa ama aquele carro. Tem uma série de significados. Toda a realidade é assim, o termo na verdade é metarrealidade, o objeto é mais do que ele em si.
EC – O senhor fala sobre “a arte de esquecer”. Por que é importante para o ser humano esse mecanismo de esquecimento natural?

Izquierdo – Primeiro porque muitas memórias são ruins, a gente não quer trazê-las à tona. Algumas não são perigosas, mas simplesmente chatas, desagradáveis, vale a pena esquecer, outras não, mas também não é bom evocá- las constantemente, pois ficaríamos doidos. Ainda é preciso dar lugar a novas memórias, pois memória ocupa lugar, sim. O número de neurônios é enorme, milhões, mas todos os que participam em determinados tipos de memória utilizam sistemas bioquímicos complexos para formá-las e fazê-las persistentes, mas essas enzimas não estão em número infinito. Se eu aprendo a ler em inglês, por exemplo, os neurônios que aprendem a ler numa língua estrangeira estão exigidos ao máximo. Agora, as enzimas, os neurotransmissores, tem que dar uma parada para que possam se reconstituir aos níveis normais. Então, muitas das enzimas ou proteínas que se usam na formação de uma memória ou persistência se recuperam depois.

“Todas as memórias são associativas. A gente faz isso todos os dias. Quando aprendemos um caminho e este muda, tendemos a ir para aquele primeiro, mas depois reaprendemos”

Foto: Igor Sperotto

“Todas as memórias são associativas. A gente faz isso todos os dias. Quando aprendemos um caminho e este muda, tendemos a ir para aquele primeiro, mas depois reaprendemos”

Foto: Igor Sperotto

EC – O que mais tem prejudicado a saúde mental das pessoas atualmente?

Izquierdo – Sem dúvida, as drogas, principalmente o álcool, porque a porcentagem de pessoas que usa drogas é imensa e vive oculta.
EC – Mas também tem a automedicação.

Izquierdo – Certamente, a Ritalina, por exemplo, utilizada para déficit de atenção, com ou sem hiperatividade, tem um índice altíssimo de utilização que pode chegar a 5% da população, segundo informações que trouxe agora da Alemanha. E funciona muito bem quando utilizada sob orientação médica, devido aos poucos efeitos colaterais. Mas impressiona o uso “recreativo” dela no Brasil. Já fiz pesquisas sobre a Ritalina e não tive a menor dificuldade de encontrar pessoas que a utilizam por conta própria.
EC – Como deveriam ser as políticas públicas de saúde no Brasil em relação à saúde mental?

Izquierdo – Não domino o assunto por completo, mas na minha percepção não existe uma política pública nesse sentido. Existiu um movimento muito bonito na teoria, mas péssimo na prática, que foi a supressão do internamento psiquiátrico, e daí vemos pessoas nas ruas com graves problemas mentais, sem tratamento. Saúde mental deveria ser uma política prioritária porque temos uma significativa quantidade de pessoas com distúrbios.

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