Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 149 | Ano 15 | Nov 2010
AMBIENTE

Verde que te quero… “verde?”

O festejado plástico "verde" reduz emissão de dióxido de carbono nos estados produtores de cana-de-açúcar, mas aumenta a emissão de poluentes na Região Metropolitana de Porto Alegre
Por Roberto Villar Belmonte
Braskem: produção do plástico 'verde' aumenta as emissões de poluentes

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Braskem: produção do plástico ‘verde’ aumenta as
emissões de poluentes

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A nova planta de eteno “verde” da Braskem, inaugurada no dia 24 de setembro pelo Presidente da República, foi instalada no Polo Petroquímico de Triunfo com um financiamento de R$ 555,6 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e licenciada em tempo recorde pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). O órgão ambiental do Rio Grande do Sul não exigiu a apresentação de Estudo e de Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima), pois considerou o local propício à atividade. A decisão, que acelerou o processo de licenciamento, impediu a discussão pública sobre o empreendimento.

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Foto: Braskem/Divulgação

Foto: Braskem/Divulgação

Apesar de utilizar uma matéria-prima renovável, a cana-de-açúcar, a produção do plástico “verde” aumenta as emissões de poluentes do Polo de Triunfo na Região Metropolitana de Porto Alegre (RS). “Com relação às emissões atmosféricas da planta de eteno “verde” temos a informar que a mesma foi licenciada com incremento de 0,44% de Óxidos de Enxofre (SOx), 1,5% de Óxidos de Nitrogênio (NOx) e 1,9% de Dióxido de Carbono (CO2) nas emissões globais da Unidade de Petroquímicos Básicos da Braskem, mas ainda não temos dados de monitoramento para avaliar se os valores estão dentro desses patamares”, informou ao jornal Extra Classe André Milanez, técnico da Fepam responsável pelo licenciamento da indústria.

A unidade de produção de eteno “verde”, que entrou em operação no dia 3 de setembro e foi inaugurada pelo Presidente da República 21 dias depois, ainda está em fase de ajustes, relata André Milanez, com adequação de equipamentos e especificação de produto. “O efluente líquido está apresentando alguma alteração na carga, em função do aumento da vazão. Tendo em vista que esse efluente é tratado e plenamente absorvido no Sistema Integrado de Tratamento de Efluentes Líquidos (Sitel/Corsan), não há alteração na qualidade do efluente encaminhado para o ambiente”, garantiu o técnico da Fepam.

Através de sua assessoria de imprensa, a Braskem informou ao jornal Extra Classe que o funcionamento da nova planta de eteno “verde”, bem como as emissões, ocorreram conforme o esperado no primeiro mês de funcionamento. O volume de etanol utilizado foi de 38 milhões de litros, o que equivale à cerca de 80% da sua capacidade. O produto está vindo de usinas de São Paulo, Paraná e Goiás. A Cosan foi o principal fornecedor, mas outras empresas, como a CPA, também forneceram um volume importante. Cerca de 70% do total é transportado por via ferroviária e 30% por navio.

O plástico, apesar de não ser biodegradável, foi batizado de “verde” por apresentar um balanço ambiental favorável, pois retira, segundo a indústria, até 2,5 toneladas de carbono da atmosfera para cada tonelada produzida de polietileno desde a origem da matéria-prima. “Pode-se dizer que o plástico verde da Braskem é feito de CO2, capturado da atmosfera na fotossíntese da cana-de-açúcar. É ainda o mais competitivo entre todos os plásticos de origem renovável, e isso tem sido amplamente reconhecido pelo mercado, que registrou demanda para três vezes a capacidade da planta”, afirmou o presidente da empresa, Bernardo Gradin, durante a inauguração oficial do empreendimento, realizada no dia 24 de setembro com a presença do Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva.

O processo de polimerização, que converte eteno em resina, utiliza unidades já existentes da Braskem no Polo de Triunfo. O produto final tem exatamente as mesmas propriedades e características do polietileno tradicional, feito com nafta, podendo ser processado da mesma forma, sem necessidade de adaptações nos equipamentos. A Braskem já avalia a possibilidade de implantar uma nova unidade de eteno “verde” diante do interesse demonstrado pelo mercado. “Os investimentos em biopolímeros confirmam a confiança da Braskem no crescimento do país e no potencial de que ele dispõe para liderar o desenvolvimento de produtos de origem renovável a partir do seu diferencial competitivo”, afirmou o presidente da empresa, Bernardo Gradin.

NOVA FÁBRICA – No final de outubro, a Braskem anunciou a conclusão da etapa conceitual do projeto de construção de uma planta de propeno verde. O investimento previsto é de US$ 100 milhões para produzir, a partir do segundo semestre de 2003, 30 mil toneladas por ano do biopolímero, usado na fabricação de polipropileno. O Polo de Triunfo é um dos possíveis locais da nova planta.

Ecologista espera há mais de 2 anos resposta do governo

No dia 15 de maio de 2008, a Copesul (hoje Braskem) obteve a Licença Prévia da Fepam para a “Unidade de Produção de Eteno Verde, a partir da conversão de etanol por desidratação catalítica, para uma área total construída de 51 mil m2”. Dois anos e dois meses depois, a empresa, controlada pelo Grupo Odebrecht e pela Petrobras, obteve, no dia 12 de julho de 2010, a Licença de Operação para iniciar a produção do plástico “verde”.

Por se tratar da maior planta de eteno “verde” do mundo, a ausência de EIA/Rima foi questionada no Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema) por representantes do movimento ecológico gaúcho. Através de ofício apresentado na 34ª Reunião Extraordinária do Consema, realizada no dia 13 de junho de 2008, a bióloga Lisiane Becker, da organização não-governamental Mira-Serra, questionou o licenciado individual por empresa que vem sendo feito para o Polo Petroquímico de Triunfo há mais de uma década.

Em consulta à página virtual da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, constatamos que a Braskem (ainda sob nome Copesul) obteve a Licença Prévia, sem EIA/Rima, aprovada em 15 dias após entrada do processo na Fepam para a unidade de eteno dito verde. (…). Acreditamos ser imprescindível que o órgão ambiental apresente esclarecimento sobre o seu procedimento e resultados de avaliação dos impactos ambientais e antrópicos globais dos vários licenciamentos concedidos e em avaliação no Polo Petroquímico de Triunfo, em reunião do Consema, antes da emissão de quaisquer outras licenças no local.

“Até hoje estamos esperando uma resposta oficial. O licenciamento por empresa sem EIA/Rima que vem ocorrendo em Triunfo (RS) nos preocupa”, informou ao jornal Extra Classe Lisiane Becker, uma das representantes do movimento ecológico gaúcho no Consema, conselho responsável, pelo menos no papel, pela aprovação e acompanhamento da implementação da Política Estadual do Meio Ambiente.

Parte da cana produzida ainda utiliza a queima

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Foto: Roberto Villar/divulgação

Foto: Roberto Villar/divulgação

Dos 4,8 milhões de hectares plantados com canade- açúcar no estado de São Paulo, cerca de 1,8 milhão ainda são colhidos com queima de palha, segundo dados da Secretaria Estadual de Meio Ambiente. A prática, que aumenta a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera, será totalmente proibida em quatro anos.

Estima-se que para produzir o etanol consumido pela Braskem sejam necessários 65 mil hectares de canaviais. Diante do aumenta da demanda pelo biocombustível no estado, 14 instituições participam do projeto “Desenvolvimento da cultura de cana-de-açúcar para o Rio Grande do Sul, com foco na produção de álcool”, coordenado pela Embrapa Clima Temperado. Os pesquisadores buscam variedades com tolerância ao frio, à estiagem e que permitam a colheita mecanizada, sem a queima dos canaviais. Os resultados preliminares do projeto, iniciado em 2007, são positivos. Os trabalhos devem ser concluídos em 2011, quando deverão ser indicadas as variedades mais adequadas.

Muitos anos ainda serão necessários para o estado ter o bônus gerado pela produção de cana-de-açúcar e de etanol. Até lá os gaúchos, principalmente os moradores da Região Metropolitana de Porto Alegre (RS), terão que conviver apenas com o ônus da poluição gerada pela nova planta de eteno “verde”.

Vazamento de 50 mil litros de etanol na entrada da Braskem

No dia 19 de agosto, duas semanas antes da nova unidade de eteno “verde” entrar em operação, um acidente ferroviário resultou no vazamento de 50 mil litros de etanol na entrada da Braskem em Triunfo (RS), causando danos localizados à vegetação. A assessoria de imprensa da Fepam informou à reportagem do jornal Extra Classe que a empresa responsável – a América Latina Logística Malha Sul S/A – recebeu multa no valor de R$ 73.502,00. O órgão ambiental, que divulgou a ocorrência no site www.fepam.rs.gov.br, também exigiu a reconstituição e a reposição da vegetação atingida.

Compromisso com a sustentabilidade

A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) assumiu em junho de 2010 o compromisso de tornar o país líder em química verde, que, segundo estimativa divulgada pela entidade, terá em 2020 uma participação de pelo menos 10% no conjunto da oferta de produtos petroquímicos. Para isso, espera-se nos próximos dez anos um aumento de 30% na área plantada com cana-de-açúcar, passando de 7 para 9 milhões de hectares.

Com a partida da nova planta de eteno, a Braskem passa a consumir 570 milhões de litros de etanol por ano no Polo de Triunfo, 462 milhões para produzir as 204 mil toneladas de plástico “verde” e 150 milhões de litros na planta de ETBE (Etil-Tércio-Butil-Eter, usado como aditivo na gasolina), dobrando o consumo do biocombustível no Rio Grande do Sul, que até o ano passado girava ao redor dos 600 milhões de litros, praticamente todo volume trazido de outros estados produtores, principalmente São Paulo.

O etanol utilizado pela Braskem será fornecido mediante contratos já firmados com alguns dos principais produtores nacionais. A relação com esses fornecedores, informa a empresa, será regida por um Código de Conduta específico que prevê critérios de sustentabilidade, como cumprimento das diretrizes ambientais, especialmente as relacionadas no Protocolo Ambiental do Estado de São Paulo, da legislação trabalhista e da regulamentação que trata da redução de emissão de gases de efeito estufa mediante o fim das queimadas antes da colheita, prática ainda presente em boa parte do Brasil.

 

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