Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 150 | Ano 15 | Dez 2010
WEISSHEIMER
MARCO WEISSHEIMER

O poder pode ser transparente?

Colunista: Weissheimer

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O site WikiLeaks (www.wikileaks.org) é o mais recente assunto global. A globalização globalizou vários aspectos da vida humana; a informação é um deles. Ou, talvez seja melhor dizer, a informação sobre a informação, a interpretação sobre a informação. A própria natureza do trabalho desenvolvido pelo WikiLeaks contribui para expor o caráter fortemente interpretativo e interessado daquilo que é veiculado diariamente pelos meios de comunicação como informação objetiva. O que é o WikiLeaks, afinal?

Trata-se de uma organização transnacional sem fins lucrativos, fundada pelo australiano Julian Assange (detalhe ilustração), de 39 anos, que publica em seu site textos de fontes anônimas, fotos e informações classificadas como confidenciais por governos ou empresas. O site foi lançado em dezembro de 2006 e, em novembro de 2007, já continha 1,2 milhão de documentos.

O WikiLeaks já recebeu vários prêmios para novas mídias, incluindo o New Media Award, da revista The Economist. Em junho de 2009, Julian Assange ganhou o Media Award 2009 da Anistia Internacional pela publicação de Kenya: The Cry of Blood – Extra Judicial Killings and Disappearances, em 2008, um relatório da Comissão Nacional Queniana de Direitos Humanos sobre a política de extermínio no Quênia. Em maio de 2010, WikiLeaks foi apontado como o número 1 entre os “websites que podem mudar completamente o formato atual das notícias”.

De fato, isso já vem acontecendo, incomodando muito alguns detentores de segredos e de informações classificadas como confidenciais, em especial o governo dos Estados Unidos. Em abril de 2010, o site publicou um vídeo feito em julho de 2007, que mostrava civis iraquianos sendo mortos durante um ataque aéreo com helicópteros das forças de ocupação dos EUA. Em julho, publicou o Diário da Guerra do Afeganistão, uma compilação de mais de 76,9 mil documentos secretos do governo norte-americano. Em outubro, foi a vez do site publicar um pacote com quase 400 mil documentos secretos sobre a Guerra do Iraque. E agora, em novembro, trouxe a público telegramas secretos de embaixadas e do governo estadunidense.

Se depender da vontade do governo dos EUA, o WikiLeaks será fechado e seu diretor preso. Washington e seus aliados na Europa já estão trabalhando para isso. A Interpol emitiu, dia 30 de novembro, um mandado de busca para a prisão de Julian Assange. O alerta vermelho publicado no site da agência internacional de polícia atende a um pedido da Justiça da Suécia, que processa Assange por “crimes sexuais”. O jornalista e cyberativista nega as acusações e vem lutando para não ser preso. O cerco contra ele está apertando. Alertas vermelhos como o emitido pela Interpol no final de novembro permitem que mandados de prisão expedidos por um país possam desencadear buscas em outros, com o objetivo de facilitar a captura e ajudar na possível extradição de suspeitos.

“Nos últimos anos a transparência ganhou muito espaço na fala de políticos, empresários e governantes. Portais da transparência pululam por toda parte, prometendo à população acesso à vida diária de governos e corporações”

O incômodo provocado pelo WikiLeaks é muito forte. Não é à toa. Ele coloca em questão um dos pilares frágeis das democracias contemporâneas, a saber, o controle da informação e a falta de transparência de governos e grandes corporações em relação ao público. Os relatos embaraçosos sobre conversas e contatosconfidenciais entre embaixadores, ministros e chefes de Estado – revelados no final de novembro – reforçam a percepção de que há segredos que não podem ver a luz do dia. Isso não chega a ser exatamente uma novidade, mas nunca havia sido exposto na forma e na escala atual.

Esse novo fenômeno midiático e social coloca, de saída, várias questões importantes: a vida política de uma sociedade pode ser baseada num princípio de transparência total ou há segredos que devem ser mantidos? Se há segredos a serem mantidos, quem decide pela titularidade do segredo? Ou seja, dito de outro modo, quem decide o que é segredo ou não? Ou ainda, formulando de outra maneira: o poder pode ser transparente?

Nos últimos anos, a transparência ganhou muito espaço na fala de políticos, empresários e governantes. Portais da transparência pululam por toda parte, prometendo à população acesso à vida diária de governos e corporações. Os vazamentos de dados confidenciais publicados pelo WikiLeaks mostram que o poder ainda não está preparado para isso, se é que estará algum dia. E essa dificuldade pode exigir uma redefinição acerca da exigência da transparência que se exige de instituições públicas e privadas e também nas relações privadas. Em tempos de proliferação de redes sociais, todo mundo está disposto realmente a abrir sua vida para um WikiLeaks?

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