Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 151 | Ano 17 | Mar 2011
MOVIMENTO

Um lugar para chamar de nosso

Uma experiência de assentamento urbano no centro da capital gaúcha em que os moradores administram suas diferenças em prol dos objetivos comuns
Por Clóvis Victória
Maísa Estery: detergente e sabão para compartilhar com os moradores

Foto: Igor Sperotto

Maísa Estery: detergente e sabão para compartilhar com os moradores

Foto: Igor Sperotto

Em uma calorenta tarde de fevereiro, a educadora social Maísa Estery, 22 anos, torna ainda mais quente seu dia à beira de um fogão. Vigia uma panela industrial com 14 litros de água fervente ao preparar uma receita de alvejante caseiro: soda cáustica, um pouco de sabão em pó para dar cheiro e água. Mais tarde iniciaria a lida com gordura animal recolhida em restaurantes do centro de Porto Alegre e com restos de fritura de óleo vegetal para fazer sabão e distribuir pelos 42 apartamentos do assentamento urbano em que mora.

Não é fácil enfrentar o calor refletido sobre o concreto do centro da cidade, nem aguentar o barulho de carros, o alarido dos milhares que passam o dia inteiro na frente de casa, aquela violência latente pronta a explodir em perseguições policiais ou por causa de brigas na rua. É preciso lidar ainda com os vizinhos muito diferentes entre si, mobilizar, dividir tarefas, trabalhar pela comunidade, como Maísa. É um condomínio, mas não um condomínio qualquer. Nas escadarias da avenida Borges de Medeiros, o centro nervoso da capital dos gaúchos, um grupo de moradores tenta tocar em frente uma experiência única de moradia compartilhada intitulada Comunidade Autônoma Utopia e Luta.

Desde 2005, a luta não cessou nas fileiras daqueles que buscam um lugar decente para morar. Começou em fins de janeiro daquele ano, um pouco antes do Fórum Social Mundial. Um grupo organizado pelo Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) ocupou o prédio abandonado do INSS no número 727 da Borges e demarcou o território. Haveriam de lutar para estruturar não apenas um lugar, mas para servir de exemplo a um processo que pode antecipar uma forma muito avançada de dividir um território.

Juntos, conseguiram um financiamento solidário com a Caixa Econômica Federal, levantaram empréstimo de R$ 870 mil para uma reforma estrutural nos sete andares do prédio e deixaram o lugar habitável. Uma lei federal de maio de 2007 oficializou o repasse de prédios abandonados da União para moradores de baixa renda. No caso do Utopia e Luta, são JKs de 25 ou 29 metros quadrados. As prestações variam aproximadamente de R$ 130 a R$ 160, e cerca de 95 moradores tocam suas vidas, que melhoraram de qualidade. Mas a convivência não é pacífica.

Não se trata de dizer que comunidades desta natureza sejam inviáveis por culpa do individualismo humano da modernidade. Há questões políticas. Por exemplo, há dois anos e meio, conta o coordenador político, Eduardo Solari, o grupo de moradores rompeu com o MNLM. Uruguaio de nascimento, músico por profissão, casado com a cantora Nanci Araújo, também moradora do Utopia e Luta, Solari diz que o governo petista e a institucionalização do movimento social solapam aquela que é a principal característica das iniciativas populares. “Movimento social tem que ser crítico. Se não for crítico, se acomoda”, diz.

A frase lapida a experiência do grupo de moradores do assentamento. São tempos de expansão, de busca por um sentido cooperativo mais firme e de enfrentar o maior dilema. Há aqueles moradores que gostariam de apenas morar. Nada de montar guarda das 2 às 6 da manhã no saguão de entrada, conforme a escala de dois apartamentos por noite. Nem pensar em mutirão de limpeza a cada 15 dias e muito menos em projetos de economia solidária para incremento de renda.

Talvez, o perfil dos moradores explique um pouco da dificuldade ou do êxito comunitário. São, em geral, jovens entre 20 e 35 anos, estudantes, com um perfil dividido entre artistas – músicos, professor de dança, atores – e operários, pedreiros, aposentados. Há também militantes políticos partidários, mas o que predomina são famílias pobres, sobretudo de mulheres, assalariadas. Quer dizer, lutadores.

Uma parceria com a Petrobras, prevista para iniciar em abril, deve ampliar a estrutura na direção de um assentamento como manda a utopia. Além da horta já existente no terraço, com plantação de temperos, plantas medicinais em banheiras aproveitadas das antigas salas do prédio do INSS, a ideia é instalar uma horta hidropônica com estufa, um telecentro com dez computadores, uma padaria industrial. “O mais fácil seria ganhar a casa e seguir tocando a vida. É uma luta entre se acomodar ou servirmos de exemplo para outros”, teoriza o coordenador de finanças, o enfermeiro Marcelo Machado.

É mais ou menos o dilema que vive a educadora social do início desta reportagem. Maísa diz que só mora com o companheiro em um dos apartamentos porque se trata de um projeto comunitário. Não considera seu o imóvel, embora esteja em seu nome. Natural de Carazinho, acha o centro barulhento, perigoso, mas é o lugar também que possibilita assistir a filmes de graça, ir à Casa de Cultura Mário Quintana ou pegar apenas um ônibus direto para o trabalho ou para a faculdade de Teologia. “Incomoda a gente ter que pensar coletivamente e não só se beneficiar individualmente. Quando estou fazendo segurança noturna com meu companheiro, penso que de manhã tenho que trabalhar e estudar depois de uma noite sem dormir. Faço o exercício de pensar o porquê disso ainda mais quando sei que o morador escalado para antes de mim não apareceu. Não é fácil sustentar essa opção”.

Caminhadas e noivas

Ele está aposentado, mas não parou de trabalhar. José Alberto Amaral Mello, aos 57 anos, é chofer particular, conhece toda a cidade, e costuma caminhar 10 quilômetros todo o sábado. Seu apartamento é um dos poucos com sacada no segundo andar, de onde costuma enxergar noivas aos sábados à tarde sendo fotografadas na ponte da rua Duque de Caxias, uns 100 metros à direita de seu ponto de vista. A organização de seu quarto e sala é impecável. “Tenho onde morar. É meu”, resume.

Um lugar para morar

Duas portas adiante, a irmã de Jorge Alberto também tem seu lar próprio. Seu salário de diarista, de aproximadamente R$ 600, permite que viva uma vida frugal, mas digna. As contas de luz, condomínio e prestação do apartamento levam metade da renda de Terezinha de Mello Marques, 50 anos. Antes de morar no Utopia e Luta, Terezinha pagava aluguel de quarto e sala na periferia de Viamão ou Porto Alegre. “Só ter conseguido um lugar para morar já é muito”, diz.

Gente que faz

Ela ri bastante, está faceira. Ainda mais que a neta de três anos sesteia na cama de casal que divide com o marido, pedreiro de profissão. A felicidade de Ana Margarida Pinto Silveira, 47 anos, só não é completa porque ficou mais longe dos netos. Quando estava no Campo da Tuca, bairro Partenon, Ana Margarida, que também é costureira e diarista, não tinha do que se queixar. O único lamento na nova casa é a falta de comprometimento de alguns moradores no que diz respeito à divisão de tarefas: “O pessoal é meio mal-agradecido. Tem que se ajudar. O lugar é a gente que faz”.

Com qualidade de vida

Espaço comunitário para uso de computadores

Foto: Igor Sperotto

Espaço comunitário para uso de computadores

Foto: Igor Sperotto

Ela vivia com a família do marido em uma casa de duas peças nos fundos do pátio de sua sogra no Morro da Polícia, em Porto Alegre. Desde que se mudou para o quinto andar do Utopia e Luta, há um ano e meio, sua vida mudou para melhor. Daiane Sell, 26 anos, é professora de dança, quase não precisa pegar ônibus para trabalhar e está contente ao lado do filho de três anos e da filha de oito. “Tenho qualidade de moradia e de vida. Na maior parte das vezes, vou trabalhar a pé”, conta Daiane.

 

À espera de um lugar

Aline ainda não tem garantias sobre seu direito de morar

Foto: Igor Sperotto

Aline ainda não tem garantias sobre seu direito de morar

Foto: Igor Sperotto

Ela está instalada num apartamento do quinto andar do condomínio Utopia e Luta, mas é como ainda não tivesse um lugar para morar. A indefinição da situação da dona de casa Aline Diana Soares, 28 anos, é do tamanho da luta que travou na vida para conquistar seus 29 metros quadrados de casa própria. Órfã de pai e mãe, até outubro passado, Aline morava com o filho Jackson, cinco anos, portador de paralisia cerebral e com a filha, Saritha, de oito, numa casa precária na zona Sul de Porto Alegre.

Por ser a cuidadora do filho com necessidades especiais, Aline recebe pensão mensal de um salário mínimo (R$ 545 a partir de março) do governo federal. O apartamento não é seu por ser objeto de disputa judicial. A antiga moradora não teria sequer tomado posse. Diz a coordenação do condomínio que o apartamento ficou fechado por dois anos e, há alguns meses, alguns estranhos apareceram. De pronto, os coordenadores suspeitaram de grilagem, ou seja, venda do apartamento.

Uma ação de despejo, assinada pelo juiz Flávio Mendes Rabelo da 16ª Vara Cível da Justiça Estadual de Porto Alegre, deu ganho de causa à proprietária original em 2 de dezembro passado. Aline não espera pelo pior e enumera sua melhora de vida. Depois de se mudar para o centro, começou tratamento fisioterápico do filho, arranjou médico e escola para ele e sua filha está em um projeto social de reforço escolar para iniciar os estudos na escola do Pão dos Pobres. “Minha vida e dos meus filhos melhorou muito. Eu morava na beira de uma sanga na zona Sul de Porto Alegre. Minha casa era invadida por cobras, ratos, era impossível morar lá. Espero poder ficar aqui”, diz.

Experiência única

Prédio no centro de Porto Alegre pertencia ao INSS

Foto: Igor Sperotto

Prédio no centro de Porto Alegre pertencia ao INSS

Foto: Igor Sperotto

Já houve outras ocupações de prédios públicos em Porto Alegre, uma delas no Fórum Social Mundial, no início dos anos 2000, num prédio público duas quadras abaixo do Utopia e Luta, na Borges de Medeiros. Mas o modelo de autogestão pelos próprios moradores só vingou na escadaria. Antigo prédio que se supõe tenha sido utilizado para tratamento fisioterápico de pacientes do INSS, havia 16 anos que o prédio ocupado pelos atuais moradores estava vazio. Depois da ocupação em janeiro de 2005, os moradores esperaram três anos até que as reformas ficaram prontas – eram duas salas amplas por andar, convertidas em seis apartamentos. Em 31 de maio de 2007, foi aprovada a Lei Federal 11.461, a qual permite o repasse de imóveis abandonados da União para entidades estabelecerem projetos de moradia para moradores com renda entre zero e três salários mínimos.

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