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Nº 152 | Ano 17 | Abr 2011
SAÚDE

Multimistura: nutritiva e polêmica

A mistura famosa nos anos 70 e 80, por sua fórmula barata e eficiente para salvar milhares de crianças e adultos da desnutrição, praticamente virou tabu entre alguns nutricionistas e técnicos no século 21

 

Especial

Foto: Everaldo Vinício da Silva / divulgação

Foto: Everaldo Vinício da Silva / divulgação

A multimistura, composta por 70% de farelos de arroz ou trigo, 15% de pó de folhas de mandioca e 15% de pó de sementes (gergelim ou abóbora), já foi o carro-chefe da Pastoral da Criança, braço social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Hoje, provoca divisões na entidade. Durante anos, a médica sanitarista Zilda Arns, fundadora da Pastoral, percorreu o mundo difundindo as vantagens de uma mistura nutritiva e de pouco custo, capaz de recuperar os casos mais desesperadores de desnutrição. Desde o final dos anos 90, a entidade, agora presidida por seu filho, o médico Nelson Arns Neumann, passou a não incentivar mais a ingestão da mistura na alimentação. Também o Ministério da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria e o Conselho Federal de Nutricionistas passaram a alertar sobre os riscos de problemas higiênico-sanitários e toxicidade.

Hoje, se alguém perguntar a um nutricionista se usa a multimistura, a resposta é: o Conselho não recomenda, ainda que o Ministério Público Federal de São Paulo tenha determinado ao Conselho revogar a punição disciplinar a quem receitá-la.

A mudança de posição coincide com a ampliação no Brasil do mercado de multinacionais como a Nestlé, que fabrica alimentos para crianças. Em 2003, mesmo ano em que a Conferência Nacional de Saúde aprovou a produção e distribuição da multimistura pelas unidades básicas de saúde, o presidente da Nestlé, Ivan Zurita, divulgou que era a primeira multinacional a aderir ao programa Fome Zero, do governo Lula, com investimentos de R$ 80 milhões. Em 2005, a Pastoral recebeu da Nestlé R$ 210.812,25 e seguiu recebendo doações até 2010, quando a empresa decidiu implementar programas específicos. Patrocina, por exemplo, congressos de Pediatria e Nutrição. Em 2011, a Nestlé anunciou investimentos de até R$ 500 milhões para a ampliação de fábricas, tecnologia e inovações no país, onde, segundo o presidente, a empresa mais cresce no mundo.

O produto Mucilon da Nestlé, equivalente industrializado da multimistura, é anunciado como rico em vitaminas A e C e sais minerais, como ferro e zinco de melhor absorção e indicado para bebês a partir dos seis meses de vida. Uma lata de Mucilon 400 gramas custa em torno de R$ 8. Um pacote de multimistura de mesmo peso custa a partir de R$ 3.

A professora de nutrição e mestre em Saúde Pública Caroline Caus Dalabona, da coordenação nacional da Pastoral da Criança, rebate acusações de que o fim do incentivo à multimistura teria relação com o financiamento recebido de empresas de alimentos. “É possível que argumentos como esse venham de “viúvas do assistencialismo” que costumavam ganhar votos distribuindo cestas básicas e multimistura.”, insinua.

Ela explica que a Pastoral prioriza agora ações nas comunidades sobre alimentos saudáveis e hortas caseiras, para uma nutrição equilibrada e o controle da obesidade, aproveitando melhor produtos variados, regionais. Salienta que os índices de desnutrição estão sob controle no país, persistindo em alguns pontos apenas. Antes se usava a multimistura porque havia mais desnutrição, e os resultados eram bons porque as mães aprendiam a cuidar dos bebês e a levá-los ao posto de saúde. A nutróloga Clara Brandão, criadora da multimistura, discorda: “O maior problema hoje é a fome oculta causada pela falta de minerais e vitaminas, que a multimistura vem a suprir”.

Outros membros da entidade continuam a recomendá-la, só que discretamente. A coordenadora da Pastoral da Criança de Porto Alegre e Região Metropolitana, Vera Magalhães, diz que a multimistura está “em estudo”. “Estamos cautelosos”, avisa, para acrescentar: “As lideranças que faziam e distribuíam, continuam, porque trouxe benefícios à saúde”. Na página da CNBB na Internet, o bispo da Diocese de Toledo, no Paraná, Dom Francisco Carlos Bach, pede que as prefeituras incluam a multimistura produzida pela Pastoral na merenda escolar como um complemento nutricional.

Os prós e contras

Uma das críticas à multimistura é quanto à falta de higiene que poderia trazer danos à saúde, já que a folha de mandioca crua contém ácido cianídrico. Mas se for picotada e levada para secar, antes de virar pó, esse procedimento faz volatizar o ácido, explica a nutricionista Themis Dovera, professora da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Estudos realizados na Universidade de São Paulo indicam ainda que a folha de mandioca, geralmente descartada, contém ferro, zinco e selênio, um poderoso antioxidante.

Outra dúvida era sobre a presença do fitato, que se liga ao zinco, ferro e cálcio no intestino. Antes se achava que ele era inteiramente absorvido, impedindo o aproveitamento destes nutrientes. Pesquisa feita no Japão mostrou que o fitato se desmancha e libera de seu núcleo o IP6 (inosital hexafosfato). “O IP6 tem ação anticâncer, controla o colesterol, previne cáries. Tem mais propriedades benéficas que prejudiciais, por isso dá para usar com tranquilidade o farelo”, diz.

Mistura une Brasil e Haiti

Mistura une Brasil e Haiti

Foto: Arquivo pessoal / divulgação

Foto: Arquivo pessoal / divulgação

De volta ao Haiti, em março deste ano, Myrlande Norélia, nutricionista recém-formada no Centro Universitário Metodista Sul – IPA, em Porto Alegre, tem um desafio: aplicar na prática os ensinamentos de soberania alimentar. Myrlande se interessou pela multimistura quando leu um artigo da nutróloga Clara Brandão. Acompanhou um treinamento feito por Clara em Goiás. Descobriu matos comestíveis e como aproveitar os alimentos locais.

“Como o Haiti é um país pobre, sem saneamento básico, e a desnutrição atinge crianças e adultos, pensei que a multimistura seria um bom aporte”, explica Myrlande. A comida ali é cara; a carne é rara. Em compensação, tem gergelim, trigo, abóbora e mandioca. Myrlande tem se empenhado em conversar com as enfermeiras para descobrir plantas da região que servem para alimentação.

O pioneirismo de Clara Brandão

Clara ensina a aproveitar todos os nutrientes dos alimentos

Foto: Projeto Ambiental Gaia Village / Divulgação

Clara ensina a aproveitar todos os nutrientes dos alimentos

Foto: Projeto Ambiental Gaia Village / Divulgação

A multimistura foi descoberta pela pediatra e nutróloga Clara Terko Takaki Brandão quando se mudou para o Pará, na década de 70. A nutróloga constatou um grau alto de desnutrição das crianças no local, com diarreia, hipovitaminose A e anemia. Com o apoio de voluntários, montou 13 creches, mas a verba para alimentação era pequena. Um dia, visitou uma plantação de pimenta-do-reino e notou que havia um pó junto da pimenteira. O agricultor explicou que era farelo de arroz, que não era usado na alimentação, mas ajudava a planta a crescer.

Ao pesquisar na tabela de alimentos, Clara percebeu que havia ali uma potencial fonte de minerais. Começou a usar nas refeições da creche e os casos de diarreia diminuíram. Foi adicionando outros farelos e folhas, ricos em nutrientes, até formar uma mistura. A recuperação das crianças chamou a atenção da Pastoral da Criança, que ajudou a espalhar pelo Brasil. “Por que, em 36 anos de aderência ao programa, a Academia ainda não conseguiu uma prova incontestável que a multimistura não funciona?”, questiona, rebatendo as críticas.

Clara propaga a soberania alimentar – direito das comunidades a alimentos nutritivos, acessíveis em cada região, produzidos de forma sustentável, em que os próprios moradores definem seus sistemas produtivos. É uma pesquisadora das plantas, nutrientes, culturas e tradições alimentares.

“Hoje, em qualquer lugar, as lideranças comunitárias estão usando a multimistura – é a vantagem de se ensinar a fazer”, diz Clara. Mas ressalta: ela não substitui alimentos, complementa.

Só em casos muito extremos

A nutricionista Regina da Silva Miranda, gerente técnica-adjunta do Escritório Central da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater/RS-Ascar), diz que, por princípio, seria incoerente se a entidade que presta assistência técnica para o fortalecimento da agricultura familiar “estimulasse o uso de um pó”. Defende que a alimentação é um direito e se realiza com alimentos – não dá para uma parte da população comer adequadamente e outra se nutrir com um pó distribuído pela igreja ou pelo posto de saúde. “Acaba se criando uma concepção de classe em relação à suplementação, o que é uma incongruência quando se tem um solo tão fértil. Nosso objetivo é aproximar as duas pontas: quem precisa se alimentar e quem precisa produzir”, conclui.

“O Rio Grande do Sul tem capacidade para produzir alimentos em quantidade e qualidade suficientes para abastecer a população – precisa é melhorar a distribuição de renda e disponibilizar alimentos diversificados, de preferência sem agrotóxicos”, acredita. A nutricionista só recomenda a multimistura como suplementação alimentar em situações extremas de pobreza, guerras, desastres ou em regiões de conflito. O Coordenador da Política de Alimentação e Nutrição da Secretaria de Saúde do Estado, Paulo Francisco Heinkin, concorda: “O que beneficia uma pessoa é alimentação equilibrada, direito garantido pela Constituição”.

Quem usa, não se arrepende

A nutricionista e professora de Enfermagem Themis Dovera explica que o uso diário da multimistura (entre 10 e 15 gramas ou uma colher de sopa), acrescentada às refeições, ajuda a prevenir doenças coronarianas, cálculo renal e diabetes, atua como calmante natural e reduz as cáries. Na merenda escolar, melhora o humor e a concentração, afirma Themis, que implantou a multimistura para combater a desnutrição infantil no Tocantins, em 1998. Atualmente, amplia os seus benefícios à alimentação de pessoas em situação de rua de Porto Alegre em um projeto da Ufrgs. Uma vez por mês reúne um grupo deles para um almoço em um parque, e acrescenta a multimistura na comida.

No pequeno município de Mato Leitão, a cerca de 140 km de Porto Alegre, os estudantes da Escola Santo Antônio de Pádua se acostumaram com o gostinho na merenda. A escola é uma das beneficiadas pelo projeto apoiado pela Emater, que há uma década fornece gratuitamente a multimistura para os estudantes. Agricultoras e agentes de saúde voluntárias se reúnem duas a três vezes por ano para fazer a produção. Fornecem também para grupos de Terceira Idade e doentes com câncer. O restante é vendido para reinvestir no programa. “O projeto começou porque havia desnutrição. Agora, funciona como suplemento alimentar”, descreve Everaldo Vinício da Silva, especialista rural da Emater.

Em Caxias do Sul, Suzana Casagranda dos Santos atua há mais de 20 anos como agente da Pastoral para diminuir o número de crianças desnutridas. “O maior problema é na hora do desmame”, constata. Para esses casos, recomenda a multimistura. Viveu a experiência com o próprio filho, que dos três aos seis meses de vida tinha infecções respiratórias frequentes e febre. Usou o farelo e muita folha verde escura. “Em 15 dias deu resultado”, garante. Viu adultos também se recuperarem. Em Alto Paraíso, Goiás, a nutricionista e educadora popular Claudia Lulkin trabalha para incorporar a multimistura como política do município. “Como as pessoas comem arroz branco, acrescentar o farelo de arroz à refeição diária não muda o sabor, mas a qualidade nutricional. E a folha de mandioca – que aqui todo mundo planta – é rica em ferro, vitamina A, cálcio e fósforo”, explica.

Em Alagoas, a orientação da pediatra Ivone Torres Azevedo de acrescentar multimistura às refeições, associada ao consumo de frutas e vegetais, vale tanto para pacientes do consultório particular como para os da favela. “Em 30 dias sinto a gratidão das famílias”, revela. Exames feitos antes e depois de adicionar o farelo na comida indicam a reversão de anemia. Ivone já recuperou desnutridos em Maceió e nas cidades sertanejas Água Branca e Delmiro Gouveia. “A multimistura melhora a qualidade de vida e o metabolismo”, resume.

Especial

Foto: Everaldo Vinício da Silva / divulgação

Foto: Everaldo Vinício da Silva / divulgação

Cada vez que o grupo se reúne na casa de Lúcia Bogorny (ao centro), em Mato Leitão, para fazer a multimistura, a alegria é grande. Esta agricultora aposentada de 73 anos de idade já trabalhou muito no campo cultivando milho, aipim, batatinha. Hoje é voluntária, junto com agentes de saúde, na produção da multimistura, porque sabe que há pessoas que precisam de um complemento nutricional. Ela própria e o marido utilizam para melhorar a ingestão de cálcio e os problemas intestinais. Com o apoio da Emater, as mulheres produzem entre 40 e 50 quilos, que é armazenado em um freezer especial, até ser doado a escolas, idosos e enfermos. “Mudou a vida de muita gente”, diz Lúcia.

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