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20/04/2011
SAÚDE - ESPECIAL
ESPECIAL

Multimisturas podem ajudar a combater a fome e o desperdício

Tentativa de incorporar a Farinata à merenda escolar em São Paulo remete à Multimistura, criada há quatro décadas, e reacende o debate sobre alimentação saudável e combate à fome
Por Clarinha Glock
Merenda escolar em Itanhaém, no litoral paulista: alimentos saudáveis da cultura indígena, da pesca e da agricultura familiar

Foto: Divulgação

Merenda escolar em Itanhaém, no litoral paulista, integra alimentos saudáveis da cultura indígena, da pesca artesanal e da agricultura familiar

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A polêmica provocada pelo anúncio de que a Farinata seria incorporada como complemento das merendas nas escolas em São Paulo fez voltar à mídia as discussões sobre o que é uma alimentação saudável e como combater a fome e o desperdício de comida. Esse debate coincide com um momento de retrocessos, em que há aumento do desemprego, da violência e da perda de direitos conquistados. Como resultado, o Brasil poderá voltar para o Mapa da Fome das Nações Unidas, alertam os economistas. Pelos mesmos motivos, a ONG Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e pela Vida decidiu relançar a campanha Natal sem Fome, que havia sido suspensa há 10 anos, para arrecadar alimentos. É nesse contexto que se deve analisar projetos como da Farinata ou da Multimistura, lançada 40 anos antes.

No mundo capitalista de extremos de desigualdade, onde os verbos ter e comprar são cotidianamente exercitados, em que alguns têm muito e outros sobrevivem com muito pouco, agregar suplementos de farelos e farinhas naturais à alimentação seria mesmo um absurdo, como dizem seus críticos? A dúvida ressurgiu no lançamento da Farinata, apresentada pelo prefeito de São Paulo, João Doria, em outubro de 2017, como parte do programa “Alimento para Todos”. O que se soube pelos meios de comunicação: a Farinata seria um composto de restos de alimentos quase por vencer. Sem detalhes técnicos, e associada mais ao marketing pessoal de Doria do que à saúde pública, a Farinata virou motivo de chacota e de desdém, sobretudo nas redes sociais.

Tanto o Conselho Regional como o Conselho Nacional de Nutricionistas são veementemente contra a Farinata e outros suplementos de alimentação, porque “vão na contramão dos princípios de alimentação adequada e de direitos humanos”, afirma Glaube Rigel, presidente do Conselho Regional de Nutricionistas do Rio Grande do Sul, 2ª Região. “Somos a favor de uma alimentação adequada, em que as pessoas possam fazer as suas escolhas”, argumenta Glaube. “Quando bem orientadas, elas vão fazer as escolhas corretas e não vão precisar de suplementos. Então, vamos fazer comida de verdade! Vamos procurar as feiras orgânicas! O Banco de Alimentos, por exemplo, fornece de forma gratuita alimentos às famílias que estão em risco. A gente tem que pensar em programas que vão avançar na questão da cidadania, e não oferecer soluções que as tornem ainda menos dignas e mais marginalizadas”, defende.

A produtora familiar Patrícia Ricomini, de Itanhanhém, no litoral paulista, produz farinha da banana verde, berinjela e maracujá e gerencia pela web a venda dos produtos nas feiras

Foto: Divulgação

A produtora familiar Patrícia Ricomini, de Itanhaém, no litoral paulista, produz farinha da banana verde, berinjela e maracujá e gerencia pela web a venda dos produtos nas feiras

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Sobre a composição do que é exatamente a Farinata ainda há dúvidas, segundo Glaube, já que o Conselho Regional de Nutricionistas de São Paulo e o Conselho Federal de Nutricionistas solicitaram informações, mas, até o dia 6 de novembro a ficha técnica não havia sido disponibilizada. “Parece que essa empresa que virá a produzir não está totalmente estabelecida. Ela foi inaugurada em 2013 e não tem ainda capacidade de produção, mas fez pequenas amostras para testar o produto”, observa a nutricionista.

Na contramão das críticas, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, da Arquidiocese de São Paulo, que apoiou publicamente a iniciativa de Doria, declarou ao semanário O São Paulo, da Arquidiocese: “A Farinata, produto alimentício semelhante à farinha, é obtida da transformação de vários alimentos ainda bons, através de um processo próprio para lhes proporcionar ainda uma ulterior durabilidade. Da Farinata podem ser produzidos vários produtos prontos para o consumo, como pão, macarrão, bolo, pizza, etc.

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Não se trata de ‘rejeitos’ de alimentos, nem de alimentação de qualidade questionável”, esclarece.

Para o Cardeal, que afirmou acompanhar desde 2012 a elaboração da proposta da Farinata, a resistência se deve porque ela possibilita a solução de três questões “que apelam à consciência e preocupam muito a Igreja”. Ele cita: 1) O escândalo da fome no mundo e no Brasil também; 2) O também escândalo do enorme desperdício de alimentos bons para o consumo. O Brasil é um campeão no desperdício de alimentos; 3) O pesado dano ambiental causado pelo desperdício e mau aproveitamento dos alimentos.

Pastorais seguem usando Multimistura

A nutricionista e enfermeira Themis Dovera, professora de Enfermagem da Ufrgs: pesquisas associam Multimistura e Saúde Pública

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A nutricionista e enfermeira Themis Dovera, professora de Enfermagem da Ufrgs: pesquisas associam Multimistura e Saúde Pública

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A Multimistura foi descoberta na década de 70 pela nutróloga e pediatra Clara Brandão (leia reportagem aqui). É composta por 70% de farelos de arroz ou trigo, 15% de pó de folhas de mandioca e 15% de pó de sementes (gergelim ou abóbora). E continua a ser usada no Brasil – apesar de pareceres contrários do Ministério da Saúde, da Sociedade Brasileira de Pediatria e do Conselho Federal de Nutricionistas, que identificaram problemas como a falta de higiene da folha de mandioca e a liberação do fitato. E apesar, também, da pressão econômica de multinacionais interessadas em colocar seus produtos com composição semelhante à venda no mercado, por um preço maior.

A falta de higiene pode ser evitada, e a absorção do fitato de forma benéfica ao organismo já foi comprovada por pesquisas, avalia a nutricionista e enfermeira Themis Dovera, professora de Enfermagem da Ufrgs. “Indico sempre e uso nas minhas refeições como ingrediente anti-inflamatorio”, enfatiza.

Ao contrário da Farinata, sobre a qual se tem pouca informação e cuja repercussão negativa fez o prefeito de São Paulo recuar na incorporação nas merendas, há vários estudos sobre a Multimistura. Themis realizou uma breve pesquisa no início de novembro e encontrou 580 pesquisas publicadas e indexadas em revistas conceituadas no Brasil, associando Multimistura e Saúde Pública.

Um dos estudos indica que o farelo de arroz, componente da Multimistura, tem uma grande quantidade de Gamma Oryzanol. “O Oryzanol é um suplemento extraído do óleo, sobretudo do farelo de arroz, mas também dos farelos de milho e de cevada. Começou a ser utilizado no Japão na década de 1960 para o tratamento da ansiedade. Hoje é usado por atletas para estimular o crescimento dos músculos, bem como por pessoas que querem diminuir o colesterol e por mulheres que procuram alívio para os sintomas da menopausa”, observa Themis.

Equipe da Pastoral da Saúde de Novo Hamburgo, liderada pela Irmã Valéria (D), atende mais de 10 mil pessoas em situação de risco alimentar com a Multimistura

Foto: Leonardo Savaris

Equipe da Pastoral da Saúde de Novo Hamburgo, liderada pela Irmã Valéria (D), atende mais de 10 mil pessoas em situação de risco alimentar com a Multimistura e outros produtos

Foto: Leonardo Savaris

“Multimistura é ótimo para pobres e para ricos – sim, para ricos também”, diz a Irmã Valéria Lessinger, com base na prática de 16 anos da Pastoral da Saúde de Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, no RS, e na experiência de seus 80 anos de idade que vai comemorar em dezembro de 2017. Ela acrescenta: “Para os ricos também, porque eles também querem ter saúde”. Irmã Valéria não tem tempo para polêmicas. Sua paróquia atende mais de 10 mil pessoas por ano, muitas delas da periferia, incluindo idosos e acamados. “Eles dizem que a Multimistura ajuda a controlar a diabetes e melhora o intestino”, atesta. “Muitos gostam de adicionar à banana amassada, ou no café, não necessariamente no prato de comida”, diz.

Voluntária da equipe da Diocese de Caxias do Sul há mais de 20 anos, Suzana Casagranda dos Santos declarou em 2011 ao Extra Classe que indicava a Multimistura para as mães que buscavam ajuda da Pastoral da Criança, principalmente para complemento na hora do desmame, e que ela mesma havia comprovado os benefícios com seu filho. Seis anos depois, atualmente ela é agente multiplicadora da ação Alimentação e Hortas Caseiras. Usa a Multimistura desde 1987 como complemento na própria alimentação e está convencida das vantagens para a saúde, mas, em função dos pareceres contrários, explica que a Pastoral evita falar em multimistura de farelos. “Falamos de multimistura de alimentos”, ressalta.

Em Garopaba, Santa Catarina, Zilma dos Santos Abreu, coordenadora da Pastoral da Criança, afirma que a Multimistura dá resultados, e não tem uma receita única. “A gente pergunta: para que está usando? Se é para anemia, usa mais esse pó…” E não só para adultos. “Tinha gente que usava para sair da depressão”, lembra. “Quando o produto nasce da comunidade e alimenta o valor e a importância de curar, e é um produto que qualquer de nós tem capacidade de produzir, esse produto não precisa de propaganda, ele é incorporado ao hábito alimentar”, conclui Themis.

Fome oculta atinge pobres e ricos

A nutróloga e pediatra Clara Brandão, criadora da Multimistura, costuma dizer que o problema do Brasil não é a fome de comida – qualquer comida –, mas sim a fome oculta: deficiência de minerais e proteínas que atinge mais de metade da população no mundo, independentemente de condição econômica. Esses minerais e proteínas estão presentes em alimentos que podem ser produzidos em nível local, respeitando a sazonalidade e as características culturais de cada região.

Além disso, Clara defende que é possível evitar o desperdício. “Cerca de 30% do que é produzido hoje acaba indo para o lixo. Isso daria para alimentar todo mundo”, calcula. Ela salienta: não se trata de substituir alimentos naturais pela Multimistura, mas de aproveitar ao máximo todos os nutrientes do alimento para incorporar nas refeições diárias e suprir a demanda da fome oculta. E enfatiza que o importante é garantir que essas ações sejam incorporadas como políticas públicas permanentes, independente da mudança de governos e partidos.

Milho, peixe e farinhas podem ser sinônimos de segurança alimentar

O produtor Marcos Gonçalves, presidente da Associação de Produtores Rurais de Itanhanhém, que reúne jovens que voltaram para a comunidade para trabalhar com os pais e estudam suplementos de farinha para complementar a merenda escolar

Foto: Divulgação

O produtor Marcos Gonçalves, presidente da Associação de Produtores Rurais de Itanhaém, que reúne jovens que voltaram para a comunidade para trabalhar com os pais e estudam suplementos de farinha para complementar a merenda escolar

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No litoral de São Paulo, um grupo de indígenas recuperou a tradição do milho e os rituais em que usavam esse alimento para a nomeação das almas das crianças. Com a ajuda da Funai e do Banco de Alimentos ligado à Prefeitura de Itanhaém, em São Paulo, investiram em outros produtos de sua cultura, ganharam o selo de identificação de produtores da agricultura familiar (SIPAF), e hoje participam do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) do Governo Federal. Na mesma região, pescadores começaram a introduzir o pescado fresco em forma de carne mecanicamente processada do peixe (CMS) nas merendas de duas escolas que participam de um projeto-piloto. Estão aguardando financiamento para estabelecerem uma unidade beneficiadora e ampliarem o trabalho para todas as escolas. Essas e outras experiências foram premiadas por contemplarem o  reconhecimento da cultura e das riquezas da terra, princípios que norteiam a segurança alimentar e nutricional.

Há quase 10 anos, o Programa de Aquisição da Agricultura Familiar vem obtendo êxito ao fomentar a diversificação da produção rural neste município paulista, mudando o paradigma da monocultura de banana, antes produto de exportação na região. Além da visibilidade social e da melhora na qualidade de vida do agricultor, as iniciativas promoveram o retorno dos jovens da comunidade, cujo êxodo era reflexo da falta de incentivo e de acesso ao escoamento da produção. Enquanto os pais vendem seus produtos nas Feiras Populares, os jovens se uniram em uma associação e pensam em novas estratégias. Uma delas é o experimento com farinhas supernutritivas, como a farinha de banana verde, que já foi incorporada à merenda escolar com o objetivo de diminuir a obesidade infantil, e as farinhas de maracujá e berinjela.

“O Banco virou um ponto de encontro de ideias”, explica Luciana de Melo Costa, cirurgiã-dentista que se descobriu semeadora de sonhos e incentivadora de empreendimentos no Banco de Alimentos, depois de trabalhar como captadora de recursos em uma ONG. Luciana explica que o segredo é o trabalho planejado. O Banco existe desde 2007 e tem apoio do Ministério de Desenvolvimento Social. Não é só um depositário e distribuidor de alimentos. É o ponto de partida para incluir populações locais em projetos que vão além da alimentação, porque implicam mudar a vida das pessoas. Também forneceu insumos para a Multimistura, na época em que a Pastoral estava atuante na região e, como a Pastoral, investiu no trabalho em rede. “Cada ação pontual – quando se combate o desperdício, quando se traz produtos esquecidos no tempo, quando se resgata a cultura de um local no plantio e um hábito alimentar – tudo isso é segurança alimentar nutricional”, resume.

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