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Nº 153 | Ano 17 | Mai 2011
L. F. VERÍSSIMO
VERÍSSIMO

For chayote

Veríssimo

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Há tempos, o Millôr se divertiu especulando sobre como seria a versão para o inglês de alguns ditos nacionais, como “a vaca foi para o brejo”. Fez até um livro, cujo título era justamente The Cow Went to the Swamp. Não me lembro se ele incluiu a expressão “pra chuchu” – como em “o Eike tem dinheiro pra chuchu” – na lista. Qual seria a sua tradução? Fui procurar chuchu no meu português-inglês e dei com “chayote”. Chayote?!

Pode ser, mas a palavra não existe em dicionários só de inglês, pelo menos nos que eu tenho à mão. Consultas a pessoas que poderiam me ajudar não ajudaram muito. As respostas iam de “o chuchu só existe no Brasil” a “chuchu é tão sem graça, que ninguém mais no mundo se incomodou em lhe dar um nome, só nós, por piedade”. Apareceu “chou-chou”, do francês antilhano, mas sem especificar se era o nome do legume ou de alguma safadeza. Na falta de alternativas, portanto: “Eike has money for chayote”.

De onde vem a expressão “pra chuchu” significando “muito”, afinal? O significado da vaca atolada no brejo é pelo menos deduzível, se não é perfeitamente claro. “Pra daná” e “pra burro”, também querendo dizer “muito”, com um pouco de boa vontade, fazem sentido. Mas “pra chuchu”? Nem todo mundo concorda que o chuchu não tem gosto de nada e parece um sólido fazendo força para não se transformar em água, sua verdadeira vocação.

Há quem faça o elogio do suflê de chuchu e rapsódias em defesa do ensopadinho de chuchu com camarão. Mas suflê de qualquer coisa acaba sendo bom e a única virtude discernível do chuchu no ensopado é a caridade, pois ele só está ali para fazer companhia aos camarões.

Curiosamente, se chuchu é um símbolo do insosso e do imprestável, seu diminutivo, “chuchuzinho” – “little chayote” –, é um termo amoroso, para descrever uma mulher apetitosa. Vá entender.

Fobias

Por falar em curiosidade. Quando o deputado Jair Bolsonaro, tempos atrás, lamentou publicamente que a ditadura não tivesse matado o então presidente Fernando Henrique Cardoso quando teve a oportunidade, a reação não foi a metade da causada pelas suas recentes declarações racistas e homofóbicas. Fobias por fobias, a FHCfobia extrema pareceu só um destempero, enquanto as manifestadas agora chocaram todo mundo. Mas o Bolsonaro é o mesmo, com o mesmo cargo. Talvez, antes, só não se tivesse prestado atenção.

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