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Nº 161 | Ano 17 | Mar 2012
ENTREVISTA | DIANE RAVITCH

Reavaliando os testes

Diane Ravitch

Foto: Acervo Pessoal

Foto: Acervo Pessoal

Diane Ravitch é professora pesquisadora de História da Educação na Universidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos. Seu nome, no entanto, é bem mais conhecido no meio político educacional norte-americano. Ela foi secretária- adjunta de Educação e conselheira do secretário de Educação (Lamar Alexander) na administração do ex-presidente George W. Bush, entre 1991 e1993, além de coordenadora do National Assessment Governing Board, instituto responsável pelos testes federais, na Administração de Bill Clinton, de 1997 a 2004. Foi Diane quem ajudou a implementar os programas educacionais de governo No Child Left Behind e Accountability, que tinham como proposta usar práticas corporativas, baseadas em metas, testes padronizados, responsabilização do professor pelo desempenho do aluno e fechamento de escolas mal-avaliadas, para melhorar a educação nos EUA. Porém, 20 anos depois, Diane mudou de ideia. De uma das principais defensoras da reforma educacional americana, passou à crítica. Publicou em 2010 o livro The Death and Life of the Great American School System (a morte e a vida do grande sistema escolar americano), ainda sem versão em português, em que diz que o sistema em vigor nos EUA está formando apenas alunos treinados para fazer uma avaliação. Desde o lançamento do livro, Diane vem sendo aclamada por professores e tem concedido inúmeras entrevistas para explicar sua mudança de opinião. De Nova Iorque, a professora conversou com o Extra Classe. Nesta entrevista, faz uma avaliação do que julga que está certo e errado na educação norte-americana e nos sistemas de avaliação.

Extra Classe – Por que a senhora mudou de ideia sobre a reforma educacional americana?

Diane Ravitch – Por volta de 2006 percebi que o programa No Child Left Behind estava falhando. Que o programa não estava funcionado e que não era a única opção. Eu estava sendo levada por pesquisas e números conservadores que patrocinavam as Escolas Charter, que deveriam ser melhores que as escolas públicas regulares, mas todas as escolas patrocinadas pelos empresários estavam em situação de emergência acadêmica, o que significava que estavam piores.

EC – Quais são (ou foram) os pontos fracos dos programas de governo para melhorar a educação nos EUA?

Diane – Eles concentram demais os objetivos da educação nos resultados e distorções dos testes, o que faz com que as escolas reduzam o tempo para o ensino de Artes, Educação Física, História etc. Além disso, os testes em excesso incentivam as fraudes.

EC – Por que o sistema de testes para avaliação dos parâmetros escolares não funciona? Qual o papel das avaliações na educação?

Diane – As avaliações devem ser usadas para diagnosticar problemas e para ajudar os alunos e professores. Eles não devem ser utilizados como incentivo ou como termômetro para grandes desafios que podem gerar prêmios ou demissões.

EC – Como a senhora avalia o governo Obama em relação às políticas para educação?

Diane – Não está melhor que na época do NCLB, na verdade, está pior. O NCLB responsabiliza as escolas pela pontuação. Obama mantém a política de responsabilização dos professores. Se os índices não sobem, por qualquer razão, o professor é julgado como ineficaz e demitido.

EC – Qual a melhor forma de avaliar alunos e professores? Por quê? 

Diane – 
A avaliação dos professores deve ser feita por educadores experientes e não por resultados de testes. Os testes medem o desempenho dos estudantes e não a qualidade dos professores. As pesquisas que comprovam isso são claras. Mas pesquisa e política não são a mesma coisa.

 

‘‘Os testes medem o desempenho dos estudantes e não a qualidade dos professores. As pesquisas que comprovam isso são claras. Mas pesquisa e política não são a mesma coisa ’’

Foto: Acervo Pessoal

‘‘Os testes medem o desempenho dos estudantes e não a qualidade dos professores. As pesquisas que comprovam isso são claras. Mas pesquisa e política não são a mesma coisa ’’

Foto: Acervo Pessoal

EC – O modelo americano de educação tem servido de exemplo para outros países, inclusive no Brasil. Quais os riscos dessa transferência de modelo para culturas diferentes?

Diane – 
Sim, os Estados Unidos estão agora sujeitos a duas tendências que ameaçam o futuro da educação pública: a privatização e a desprofissionalização. A administração Obama encoraja ambos, apoiando as Escolas Charter com a gestão privada e um grupo chamado “Teach for America”, cujos membros se tornam professores com apenas cinco semanas de treinamento.

EC – Em nosso país existe uma tendência em aumentar o tempo dos alunos na escola e também a quantidade de matérias oferecidas. Como senhora vê isso?

Diane – Ampliar o tempo do aluno na escola não é necessariamente uma melhoria. O que importa é como esse tempo será usado. Os alunos precisam explorar artes, atividades físicas, usar ativamente a imaginação e o poder criativo.

 

EC – No Brasil os alunos entram na Universidade por meio de testes prestados ao fim do Ensino Médio. Seria esta a melhor forma de seleção?

Diane – Não há nada de errado com os testes, se os alunos estiverem preparados para a faculdade. O governo deve fornecer diferentes maneiras para os jovens seguirem os estudos após o Ensino Médio para aumentar seus conhecimentos e habilidades, inclusive para a formação técnica.

EC – Qual a diferença na gestão de uma instituição de ensino e de um negócio de outro setor? 

Diane – Um negócio visa lucro ou vai à falência. A educação tem a ver com o desenvolvimento de pessoas, do potencial de pensar, agir e viver bem.

EC – Qual a sua opinião sobre a convivência dos setores públicos e privados de ensino? 

Diane – Não vejo problemas, desde que setor privado não busque financiamento público e nem tente privatizar o setor público.

EC – Qual sua opinião sobre a mercantilização do Ensino Superior, que hoje é visto como um negócio por grandes grupos econômicos?

Diane – Vejo como uma ideia muito ruim. Negócios devem satisfazer os investidores. A Educação Superior deve ter fins não econômicos, que só podem ser alcançados através da liberdade de ensinar e liberdade de aprender, inclusive com a liberdade de criticar negócios e corporações.

EC – Quais são as bases para uma educação sólida e de qualidade? Por quê? 

Diane – Crença no valor de cada pessoa. Desejo de fazer a diferença. Desejo de transmitir conhecimentos, habilidades e amor pelo aprendizado.

EC – Qual a relação entre o sistema educacional de um país e o seu futuro?

Diane – A educação é parte crucial da capacidade de uma nação de desenvolver e crescer, não só economicamente, mas socialmente, culturalmente e intelectualmente.

EC – No Brasil poucos alunos optam por ser professores e poderá haver falta deles no futuro. O mesmo ocorre nos EUA? 

Diane – Os professores estão muito desmoralizados nos Estados Unidos nos últimos dez anos e continuaram com a administração Obama. A profissão docente está sendo atacada em muitos estados, onde os líderes estão aprovando legislações punitivas para responsabilizar os professores caso a pontuação dos testes nas escolas não seja boa. Alguns estados estão proibindo a negociação coletiva entre os sindicatos para enfraquecê-los, eliminando direitos e cortando benefícios. Muitos professores experientes estão desistindo da carreira. É preciso muito comprometimento para ser um professor nos dias de hoje.

EC – Como a senhora avalia o volume de trabalho dos professores em tempos de internet?

Diane – A carga de trabalho continua muito elevada devido às diversas necessidades dos alunos. Alguns estados estão impondo aulas on-line na esperança de reduzir o número de professores.

EC – Quais as suas expectativas com as eleições nos EUA deste ano? O que deveria ser feito para que a educação americana corrija o rumo?

Diane – Nenhum candidato oferece muita esperança nesta eleição. Talvez daqui a quatro anos seja diferente. Até lá, muitas escolas públicas serão privatizadas e será difícil remontar a educação pública nos EUA. Mas até lá, o setor público vai saber que o setor privado (as Escolas Charter, nos EUA) não podem criar melhores escolas e que a causa dos baixos resultados dos testes é a pobreza, e não mau desempenho dos professores.

‘‘O NCLB responsabiliza as escolas pela pontuação. Obama mantém a política de responsabilização dos professores. Se os índices não sobem por qualquer razão, o professor é julgado como ineficaz e demitido’’

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‘‘O NCLB responsabiliza as escolas pela pontuação. Obama mantém a política de responsabilização dos professores. Se os índices não sobem por qualquer razão, o professor é julgado como ineficaz e demitido’’

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As Escolas Charter nos EUA
A experiência das Escolas Charter nos Estados Unidos começou em 1991 com o objetivo de melhorar a educação no país. São escolas públicas (porque recebem verbas e os alunos não pagam mensalidades), mas com gestão independente e privada, geralmente feitas por ONGs, e que devem apresentar projeto pedagógico. Elas têm liberdade na elaboração de currículo e contratação de professores, mas são fiscalizadas pelos testes do governo em relação ao desempenho dos alunos. Ao longo dos anos, no entanto, os testes de avaliação do governo americano começaram a mostrar que os alunos destas escolas não estavam aprendendo mais do que os das escolas públicas tradicionais.

O desempenho deles começou a cair especialmente em leitura e matemática, como demonstraram os resultados do National Assessment of Education Progress (Naep), realizado em 2003. Atualmente, existem mais de 5 mil Escolas Charter nos EUA, especialmente nas grandes cidades. Segundo Diane, as últimas avaliações do governo demonstram grande disparidade na qualidade de ensino entre elas, sendo que algumas, para aumentar a pontuação nos testes, excluem alunos com notas baixas ou dificuldades de aprendizagem.

Saiba mais: informações, artigos, entrevistas e bibliografia em www.dianeravitch.com (inglês).

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