Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 162 | Ano 17 | Abr 2012
ENTREVISTA | MARIA LUCIA M. CARVALHO VASCONCELOS

Professor em extinção

Por César Fraga

Maria Lucia M. Carvalho Vasconcelos

Foto: Divulgação AssCom Mackenzie

Foto: Divulgação AssCom Mackenzie

Maria Lucia M. Carvalho Vasconcelos é pedagoga formada pela USP, doutora em Administração pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e doutora em Educação pela USP. Foi professora da Educação Básica, Graduação e Pós- -Graduação. É professora Titular do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde além de reitora, exerceu as funções de orientadora educacional, diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Educação e coordenadora-geral de Pós-Graduação. É conselheira titular do Conselho Municipal de Educação de São Paulo − 2010-2014 e do Conselho Estadual de Educação de São Paulo − 2009-2012. Foi secretária de Estado da Educação de São Paulo (2006/2007). Autora e organizadora de vários livros, entre eles: Autoridade docente no ensino superior: discussão e encaminhamentos(Editora Xamã/Intertexto), Conceitos de Educação em Paulo Freire, 5a. ed. (Editora Vozes), Formação do Professor para o Ensino Superior 3a. ed.; (Editora Xamã e Intertexto), Linguagens na sala de aula do ensino superior 2a. ed. (Editora Intertexto e Xamã), Ensinar e aprender no Ensino Superior: por uma epistemologia da curiosidade na formação universitária, 2a. ed. (Editora Cortez/Mackenzie), além de diversos artigos e capítulos de livros. No último dia 6 de março, lançou seu mais recente trabalho Educação Básica: a formação do professor, relação professor-aluno, planejamento, mídia e educação(Editora Contexto), em que alerta para a falta de valorização dos professores e para o risco iminente da falta destes profissionais para o setor.

Extra Classe – Quais são as fragilidades dos cursos de licenciatura que visam a formação de professores?
Maria Lucia Vasconcelos – Eu acho que existem algumas questões que estão relacionadas entre si e que podemos pontuar. A primeira questão é a desvalorização da profissão. O magistério tem sido sistematicamente desvalorizado, o que ocorre em diferentes frentes. Ou seja, a sociedade já não dá ao professor o status profissional que seria o merecido para esta profissão de importância fundamental e que é sempre vista como secundária. Atrelado a isso temos a questão salarial. Você remunera bem aquele profissional que você considera importante. Na medida em que você não dá importância ao professor, não remunera o professor como deveria. Essa é uma questão de posicionamento no que se refere a como se encara a educação neste país.

EC – E o que se vê são professores de todas as redes buscando essa valorização, não apenas os das escolas públicas.
Maria Lucia – Com certeza. Esse problema é geral. Pode-se até estratificar o professor de Ensino Superior como sendo um pouco mais valorizado. Mas ao observarmos isoladamente instituições diferentes, veremos que o quadro se repete. Haverá estabelecimentos que remuneram com mais dignidade, mas já existe sucateamento também dos professores do Ensino Superior com a expansão das últimas décadas. Nas IES públicas existe mais valorização, mas no setor privado este sucateamento é maior.

EC – A senhora acha que isso se deve a uma visão mais empresarial da educação, em que se visa o mercado, em que se prioriza o lucro?
Maria Lucia – Certamente isso também acabou influenciando e tem reflexo. É um círculo vicioso. No momento que desvaloriza a profissão, ela deixa de ser atraente tanto do ponto de vista de reconhecimento como do ponto de vista de salário. O jovem quando vai escolher uma profissão, o que analisa? Se existe reconhecimento social e salário digno. Neste sentido, a profissão de professor foi ficando desinteressante. A partir do momento em que se perde o interesse por esta profissão, as coisas começam a ficar complicadas. Já não se seleciona mais alunos para cursos de graduação e os cursos vão encolhendo. Até a carga horária desses cursos foi diminuída. Tudo é reflexo da pouca importância que se dá a este profissional. Ninguém pensa em reduzir a formação de um médico e nem deve, afinal não se pode nivelar por baixo. Mas na hora de falar de professor qualquer coisa serve. Servem cursos mais aligeirados, servem cursos de três anos, servem cursos à distância. Enfim, para a formação de professor serve qualquer coisa.

” Como tudo, os assuntos vêm e vão e as soluções não acontecem e não se cobra daqueles que são os verdadeiros responsáveis. Acaba que as vítimas, no caso os professores, são tratados como causadores do problema, quando não são. Também são vítimas. Não é o professor o responsável por esse quadro “

EC − Do ponto de vista histórico, onde começa esse sucateamento?
Maria Lucia– Desde sempre, porque a educação nunca foi uma prioridade no Brasil. Qual foi o governo, que historicamente investiu em educação neste país, maciçamente e de forma programada? Nunca se fez isso. Sempre se trabalhou com educação de elite. Até que num belo dia se resolveu fazer a democratização do ensino. Só que não foi uma democratização real. Ocorreu apenas em termos de abertura da escola para todas as classes sociais, mas sem o necessário cuidado para garantia de qualidade. Chamaria de uma democratização, no mínimo, manca. Não adianta eu só colocar mais alunos na escola. Então, historicamente, educação neste país nunca foi prioridade. É muito complicado, porque tudo vale e isso acaba refletindo na sala de aula.

EC – A autoridade docente está em crise. Por quê?
Maria Lucia– Eu entendo da seguinte maneira, nós vamos novamente esbarrar na má formação dos professores e na má qualidade dos cursos de formação. É preciso que o docente, ao ser formado, aprenda desempenhar seu próprio papel, como qualquer outro profissional. Se um curso de formação não trabalha questões em profundidade que garantam ao professor o exercício de sua autoridade, ele não vai ter como de exercê-la. O primeiro degrau para se construir essa autoridade é o domínio efetivo do conteúdo com o qual vai se trabalhar. Mas não é só o conteúdo que vai promover o reconhecimento da autoridade pelo seu aluno. Este professor, além de dominar o conteúdo precisa saber ministrar uma boa aula, ter um bom relacionamento interpessoal. Precisa ter requisitos que constituem seu papel profissional e que o curso de formação deveria estar garantindo para ele. Quando ele entra inseguro, sem saber muito bem o que pode e que deve fazer, sem a segurança de um curso de formação que realmente lhe dê a profissão na mão, ele acaba não exercendo a autoridade como deveria. Some-se a isso esse desrespeito geral pela profissão. O aluno olha para o professor achando que não passa da um funcionário ao seu serviço. Houve um desencanto com relação à profissão. O aluno não vê neste profissional alguém que está ali porque tem uma competência que ele como estudante precisa absorver. E aí você pode passar um olhar por todos os tipos de escola e por todas as classes sociais. Não me venham dizer que o problema de indisciplina é exclusivo da periferia, porque não é. Não é localizado, mas geral. E não deveria ser. Qual é o incentivo que esse professor tem, ao trabalhar em uma turma conflituosa, participando de um embate diário? Este profissional ganha mal, se sente despreparado e vai todos os dias para um embate contínuo. Este professor não tem por que gostar da profissão.

” Para fazer esse tipo de liquidação tem de colocar 100 ou 120 com um professor dando aquela aula expositiva tradicionalíssima, até porque quem tem essa quantidade de alunos na sala não vai conseguir fazer nada diferente disso. Não existe mágica. Qualidade tem um custo “

EC − Outros tempos?
Maria Lucia– E tem outra coisa, que é a mudança do papel do professor. Hoje ele não é mais o detentor do conhecimento. A informação está aí, por todos os lados, muito mais facilmente acessada do que há 40 ou 50 anos atrás. E o professor continua sendo formado em uma escola tradicional que insiste num modelo profissional que não cabe mais nesta realidade. Este professor terá de entender que ele será um organizador das informações que esses alunos vão acessar. Se o aluno pode usar o Google para procurar o que bem entender, o professor tem de usar isso ao seu favor. Mas como fazer isso se ele não for bem-formado? Se a gente ainda está formando professores como se fazia no início do século passado? Está havendo um descompasso geracional.

EC – Nese contexto, como a senhora vê o Plano Nacional de Educação (PNE) da forma como está resultando?
Maria Lucia– Não fiz uma análise cuidadosa do plano para poder fazer uma crítica. Porém, não vejo nenhuma mudança significativa neste quesito, que é a formação de professores. É mais do mesmo.

EC – A senhora que já foi gestora pública, como vê as políticas para o setor em seus diversos âmbitos? Os investimentos em educação permanecem privilegiando mais os aspectos quantitativos em detrimento dos qualitativos? Investimento em estrutura física dá mais voto do que investir nas pessoas?Maria Lucia– Com certeza, a problemática de que falo passa por essas questões. É exatamente isto. Hoje o grande gargalo ainda está na educação infantil. Quem cuida da educação básica está muito mais voltado para isso do que, por exemplo, em significar o Ensino Médio. É o quantitativo ainda que conta. Já estamos tendo falta de professores para algumas disciplinas em qualquer rede. Isso já é um problema. Não se trata apenas do futuro. Mas do agora. Já é difícil encontrar professor de Química, de Geografia. Alguns profissionais são procurados com lupa. Ainda se acha um aqui, outro ali. Mas daqui a pouco não vai ter, mesmo por que as licenciaturas estão minguando. Se você vai nas boas universidades e procura saber quantos alunos estão matriculados nas licenciaturas, o quadro é decepcionante. São poucos, não há mais interesse na profissão. Mas existe um outro tipo de escala. É nessas universidades mais comerciais que as licenciaturas possuem muitos alunos. Mas é aquela coisa, turmas muito numerosas, cursos baratos. Mas aquilo não forma professor. O pessoal está indo lá só para buscar uma titulação de nível superior e nunca vai exercer a profissão, porque não estão sendo formados para isso. Nessas universidades há casos de turmas que excedem cem alunos numa sala de aula. Aliás, eu não acho que seja problema que as IES tenham suas contas acertadas, isso não é crime. Mas não dá para oferecer educação ruim. Como é que você vai fazer uma mensalidade de liquidação se você tiver apenas 30 ou 40 alunos na sala? Para fazer esse tipo de liquidação tem de colocar 100 ou 120 com um professor dando aquela aula expositiva tradicionalíssima, até porque quem tem essa quantidade de alunos na sala não vai conseguir fazer nada diferente disso. Não existe mágica. Qualidade tem um custo.

"Haverá estabelecimentos que remuneram com mais dignidade, mas já existe sucateamento também dos professores do Ensino Superior com a expansão das últimas décadas"

Foto: Divulgação AssCom Mackenzie

“Haverá estabelecimentos que remuneram com mais dignidade, mas já existe sucateamento também dos professores do Ensino Superior com a expansão das últimas décadas”

Foto: Divulgação AssCom Mackenzie

EC − Como está a relação da educação com a mídia? O setor consegue traduzir para o público as verdadeiras questões ou ainda peca pela falta de foco no que é de fato relevante e atém-se à superfície e nas questões meramente factuais?
Maria Lucia – Eu acho que a mídia, de poucos anos para cá, acordou para a importância do tema. Uns oito ou dez anos atrás a educação aparecia esporadicamente na imprensa quando tinha alguma coisa muito pontual ocorrendo. Hoje é diferente. Todos os grandes jornais tratam dos temas ligados à educação de forma recorrente. Mas aí entra outra questão. O que vende jornal? O que é notícia? Geralmente é aquilo que tem problema. Quando as coisas vão bem não são notícia. Com isso acaba também a imprensa noticiando mais o lado negativo. Isso corrobora para desprestigiar aquele que trabalha com educação. No entanto, a imprensa não está inventando esses problemas, os está relatando e é o que tem de fazer. Ao mesmo tempo, este olhar crítico que a mídia exerce com os problemas da educação é necessário, pois não dá para termos uma olhar benevolente, mas de cobrança. Como tudo, os assuntos vêm e vão e as soluções não acontecem e não se cobra daqueles que são os verdadeiros responsáveis. Acaba que as vítimas, no caso os professores, são tratados como causadores do problema, quando não são. Também são vítimas. Não é o professor o responsável por esse quadro.

EC − Qual o papel social do professor hoje e por onde deveria passar a sua valorização?
Maria Lucia – Apesar de tudo isso que estamos falando, o papel dele é de formador das novas gerações. Isso não se perdeu. O que está acontecendo é que muitos de nós não estamos conseguindo trabalhar a contento. Informar e formar. Agora, por onde passa a revalorização? Pela vontade política dos nossos governantes. Quando nós tivermos políticas públicas efetivamente voltadas para a melhoria das condições de trabalho deste professor, nós teremos uma educação de maior qualidade e teremos profissionais mais competentes. Se isso não acontecer, nós teremos de lutar conta a maré.

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