Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 165 | Ano 17 | Jul 2012
COMPORTAMENTO

Demasiado humanos

Animais de estimação reagem com depressão e alergias à crescente humanização imposta por seus donos – tendência que transforma cães e gatos em extensão das pessoas e de suas neuroses
Por Gilson Camargo
Frederico não quer mais passear descalço porque o uso de tênis diminuiu a resistência da sola das suas patas

Foto: Glaci Borges/divulgação

Frederico não quer mais passear descalço porque o uso de tênis diminuiu a resistência da sola das suas patas

Foto: Glaci Borges/divulgação

Frederico já não anda mais descalço depois que os donos resolveram que ele devia usar tênis estilo All Star para proteger suas quatro patas. Mas não é por vaidade que o cão se recusa ao passeio sem estar calçado. A pele que reveste a sola das suas patas e que um dia foi naturalmente grossa, ganhou sensibilidade devido à falta de contato com o solo e a grama. Já Buba, uma cadelinha shih-tzu, ficou muito tempo sem conviver com outros animais. Com pouca atenção dos donos, isolada em casa, desenvolveu um quadro de depressão e baixa imunidade. Passou então a arrancar os pelos da própria cara e a roer as patas até sangrar, por ansiedade, ficou com a pele coberta de alergias e perdeu pelos devido à falta de defesas do organismo.

Flávia Piva é groomer, profissional que cuida da pele e dos pelos de cães e gatos com quadros depressivos

Foto: Igor Sperotto

Flávia Piva é groomer, profissional que cuida da pele e dos pelos de cães e gatos com quadros depressivos

Foto: Igor Sperotto

Envolvida com o trabalho, a empresária Tatiane Rodrigues só percebeu que estava deixando sua cadela sozinha tempo demais no apartamento, quando Russinha, umalhasa de dois anos e meio, começou a se mutilar, arrancando os próprios pelos, devido à depressão. “Sinto culpa por não ter encontrado tempo para ficar com ela”, diz Tatiane, que agora faz uma pausa no meio da tarde para ficar ao lado da cachorrinha na clínica. Com o animal no colo, ela explica que a trata como uma “filha” e não vê problemas nesse tipo de relação. “As pessoas estão carentes e carinho é uma coisa que os pets dão de graça”, justifica.

Para veterinários e outros especialistas, muitos animais de estimação reagem com agressividade ou adoecimento à tentativa dos donos em transformá-los em “filhos” por meio da imposição de hábitos humanizados. “Impor uma rotina de humanização aos animais de estimação é criar expectativas que são impossíveis de se concretizar eisso gera frustração e adoecimento”, explica Flávia Piva, especialista em tratamento de quadros de depressão e alergias provocados em cães e gatos pelo uso de roupas, acessórios, alimentação imprópria e falta de atenção e de convívio com outros animais. O problema é tão grave que determinou o surgimento de espaços de terapia onde os animais são mantidos em contato com terra e outros bichos de estimação e até mesmo uma nova profissão, o groomer – profissional que cuida da pele e do pelo de cães e gatos depressivos, caso de Flávia. “Tudo é permitido numa relação com o bicho de estimação desde que dentro da racionalidade, com naturalidade e respeito aos instintos do animal. A razão é muito simples: eles não são humanos, são de outra espécie”, resume.

DOENÇAS DE GENTE – A veterinária Karin Franzen observa uma contradição no comportamento dos donos que consideram os animais de estimação como filhos, mas não abrem mão de seus afazeres ou da vida social, deixando-os sozinhos tempo demais. “Em casos como esses, quem precisa de tratamento é o dono”, confidencia. De acordo com Roberta Mendes, veterinária e especialista em fisioterapia e acupuntura animal, um dos problemas mais graves da humanização dos animais de estimação é a alimentação inadequada, que provoca obesidade e problemas de coluna. “São doenças tipicamente humanas”, ressalta.

Tevê, espaço gourmet e cachorro verde

Corso: "a humanização dos animais reflete a falência dos laços humanos"

Foto: Igor Sperotto

Corso: “a humanização dos animais reflete a falência dos laços humanos”

Foto: Igor Sperotto

No bilionário mercado de comidas, remédios e acessórios para cães e gatos, o que não faltam são nichos de negócios, mas muitas invenções nem sempre servem para melhorar a saúde dos animais de estimação e invariavelmente miram na humanização. “São tentativas de transformar o bicho numa extensão do dono”, alerta o psicanalista Mário Corso.

Em 2011, um restaurante de luxo criou um espaço para os cães dos clientes, com direito a uma dieta com ingredientes da alta cozinha, como croissant de salmão e biscoitos de banana.

A Unimev, uma cooperativa de veterinários criada em 2006, faturou R$ 1 milhão em 2010 com a venda de um plano de saúde para animais de pequeno porte. A jornalista e veterinária paulistana Sylvia Angélico criou o conceito de “Cachorro Verde” com sua empresa especializada em divulgar os benefícios da alimentação natural para cães e gatos, ressaltando que uma alimentação balanceada ajuda a combater doenças, previne o mau hálito, diminui a queda de pelo, reduz o volume das fezes e melhora a qualidade de vida do animal, já que torna o momento da refeição mais prazeroso. A alimentação à base de ossos, legumes e grãos, segundo a empresária, também ajuda a curar quadros alérgicos.

Nas cidades de San Diego e Nova Iorque, o canal pago Dog TV exibe programação exclusiva para cães domésticos com paisagens relaxantes, gravadas em tons de cinza e sépia visíveis aos animais e áudio em frequência grave para não agredir a sensibilidade auditiva. A invenção, diz a diretora do canal, Beke Lubeach, é um complemento e não uma substituição para as atividades diárias dos cães.

De acordo com o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), há no país uma população de 25 milhões de cães e 7 milhões de gatos e 44% dos domicílios têm algum animal de estimação, sendo a maioria na Classe A (52%). No país, esse segmento movimenta US$ 8 bilhões por ano, o que representa 10% do mercado mundial.

SEPARAÇÃO – O Projeto de Lei 1.058/11 de autoria do deputado dr. Ubiali (PSB/SP) dispõe sobre a guarda dos animais de estimação nos casos de separação litigiosa dos donos. A proposta foi aprovada pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara no final de março e tramita na Comissão de Constituição de Justiça e Cidadania. Deverá ser votado em plenário apenas para cumprir formalidade, pois tem caráter conclusivo. A matéria, no entanto, já tem jurisprudência. Em Caxias do Sul, a 7ª Câmara Cível do TJRS decidiu que um animal de estimação ficasse com a mulher, num caso de separação judicial. “Mantém-se o cachorro com a mulher quando não comprovada a propriedade exclusiva do varão e demonstrado que os cuidados com o animal ficavam a cargo da convivente”, diz o acórdão.

A revolução dos pets

O psicanalista Mário Corso concorda que existe uma crescente humanização dos animais de estimação por parte dos donos e não vê problema quando a relação é saudável, no âmbito do tratamento carinhoso, dos cuidados à integridade do animal e até mesmo a designação do cão ou gato como “filho” ou “membro da família”. O problema são os comportamentos extremos. “Os exageros expressam a fragilidade e a falência dos laços humanos, pois está cada vez mais difícil estabelecer uma relação saudável com o outro”. Na sua opinião, os animais oferecem uma facilidade afetiva, são verdadeiros, não enganam, em contraste com a ambivalência do ser humano. “Essa relação pode ser excelente, uma atitude positiva, um vínculo importante para que a pessoa gaste o seu furor de maternidade ou porque os filhos saíram de casa. Afinal, as estatísticas mostram que pessoas ligadas a animais vivem mais e quem tem animais tem mais facilidade para criar vínculos, mas também é verdade que existe gente que não consegue fazer vínculos nem com animais”, compara. “Nesse caso, é um ganho para a humanidade, pois enquanto estão envolvidas com os bichos de estimação não estão jogando suas neuroses em cima de outras pessoas”, ironiza Corso.

Carinho sem exageros

Roberta Mendes: "humanizar em excesso provoca doenças"

Foto: Arquivo Pessoal/divulgação

Roberta Mendes: “humanizar em excesso provoca doenças”

Foto: Arquivo Pessoal/divulgação

Médica veterinária graduada pela UFPel, especialista em Fisioterapia e Reabilitação Animal (Insituto Bioethicus – SP) e pós-graduanda em Acupuntura pelo Instituto CBES, de Porto Alegre, a médica veterinária Roberta Mendes, de Novo Hamburgo, explica as consequências do tratamento humanizado de animais de estimação. Segundo ela, além de intoxicações e baixa imunidade decorrente do uso de tinturas e acessórios, a alimentação exagerada está provocando doenças típicas de humanos nos animais.

EC – O que é aceitável no tratamento aos animais de estimação?
Roberta Mendes
 – Alguns tratos são necessários, mas há exageros. São aspectos positivos a dedicação à saúde e ao bem-estar animal, o aumento no número de animais vacinados, castrados e a diminuição de animais errantes, o que se reflete de modo positivo na saúde pública. O comércio de roupas de marca, joias, banhos de ofurô são dispensáveis e até apelativos. Quem adquire um animal tem o dever de tratá-lo bem. É aceitável tudo aquilo que seja bom para a saúde e o bem-estar animal, como gastos com boas rações, com vacinas, tratamentos de saúde. Não considero aceitável tratamentos de embelezamento como tintura de pelos, pintura de unhas, uso de sapatinhos etc. A alimentação animal deve ser própria para ele, ou seja, ração! Sempre citamos que um pet até pode ser tratado como um filho, mas deve ser alimentado como um bichinho de estimação. Eles não têm que comer o que a gente come. Esse cuidado prolonga muito a vida e a qualidade de vida de um animal.

EC – Quais são as consequências dos exageros?
Roberta – Cuidados extremos extrapolam a natureza de um animal. O uso de roupas e sapatinhos diariamente, por exemplo, pode acabar deixando o animal mais suscetível a problemas respiratórios, sensibilidade nas patinhas e até mesmo ficar mais propenso à gripe. O uso de tinturas de pelos e pintura de unhas, além de fugir totalmente da natureza do animal pode provocar alergias, intoxicações. A alimentação de maneira indeterminada e exagerada provoca nos animais problemas tipicamente humanos como obesidade, problemas de coluna e articulares, hipertensão, cardiopatias, doenças endócrinas como diabetes, hipotireoidismo e outros.

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