Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 167 | Ano 17 | Set 2012
ESPECIAL | CULTURA DOADORA
ESPECIAL

Corrida contra o tempo e outros obstáculos

Especial| Cultura Doadora

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O voo em busca de um órgão a ser transplantado é sempre tenso. O cirurgião cardiovascular Álvaro Albrecht, 37 anos, do Instituto de Cardiologia, já buscou mais de 50 corações desde que começou a fazer a captação de órgãos, em 2003. A equipe é acionada após a confirmação da morte cerebral do paciente, do consentimento dos familiares com a doação e da localização, pela Central de Transplantes, de um receptor compatível.

Antes de sair, Albrecht confere a previsão do tempo e o destino da viagem. “Se for noite e estiver chovendo, há chance de não ir, porque o aeroporto de pequenas cidades costuma estar fechado. A decisão de dizer não é sempre difícil, porque sabemos que alguém espera por aquele coração”. Chegando ao local, se for um transplante múltiplo, é preciso esperar que cada equipe faça a retirada de seu órgão.

Depois de embalar o coração e colocá-lo na maleta com gelo e líquido, começa a corrida contra o relógio: deslocar-se até o aeroporto, enfrentar o trânsito para o hospital, tudo tem que ser cronometrado. “Se tiver um avião mais rápido e batedores para o transporte em terra, ganho tempo, e qualquer tempo é importante”, calcula. Aviões pequenos, turbulência, falta de iluminação à noite em aeroportos, espera na pista para decolar são obstáculos frequentes. Ainda assim, Albrecht se define como “apaixonado” por esse trabalho, que considera “uma missão”.

SISTEMA NACIONAL –
 Criado em 18 de agosto de 2000, o Sistema Nacional de Transplantes funciona em tempo integral e sua base está situada no aeroporto JK, em Brasília. Um dos mais bem elaborados programas públicos de transplantes de órgãos, conta com 548 estabelecimentos de saúde e 1.376 equipes médicas autorizadas, que abrangem 25 estados. A Central de Transplantes do RS é uma das unidades pioneiras e das mais bem equipadas, com histórico de transplantes de todos os tipos de órgãos, exceto intestino. Isso faz com que pacientes de outros estados recorram ao tratamento em solo gaúcho.

O transporte dos órgãos é um dos estágios mais sensíveis do trabalho das equipes. Em uma área de até 200 quilômetros, o traslado é rodoviário, com veículos da Secretaria Estadual da Saúde ou locados. Após esse limite, as equipes recorrem às companhias aéreas, que mantêm um convênio com o Ministério da Saúde e dão prioridade ao transporte de órgãos para transplantes.

Após a retirada, alguns órgãos devem ser implantados de 4h a 6h no receptor, sob pena de serem perdidos. Pulmão e coração sobrevivem de quatro a cinco horas fora do corpo. Córneas podem ser preservadas por até dez dias e rins têm uma sobrevida de 24 a 30 horas. Por causa da sobrevida, há uma ordem para retirada dos órgãos de um doador. Primeiro são o coração e os pulmões e em segundo lugar o fígado, seguido de pâncreas, rins, córneas, pele e, por fim, ossos. “Essa ordem tem que ser respeitada para que haja pleno aproveitamento”, ressalta a assistente social da Central de Transplantes do RS, Maria Marta Leirias.

Espera por transplante renal é maior

O número de pacientes que aguarda por um transplante de rim é maior na comparação com a lista de espera de doadores de outros órgãos. A lista de espera por rim, que é atualizada semanalmente, continha 1.060 pessoas no final de julho. “O rim é pioneiro em tudo porque, do ponto de vista anatômico, é perfeito. São necessárias três suturas, o ideal para se fazer transplantes. Por isso, está sempre na frente dos outros órgãos. E também porque pode ser doado em vida”, explica Valter Garcia. O transplante de rim, no entanto, só começou a dar certo a partir dos anos 50, com a descoberta da droga azatioprina, que reduz a rejeição.

O médico ressalta ainda que é fácil detectar problemas em simples exames feitos em laboratório, como o de creatinina, que mostra a porcentagem de funcionamento do órgão. Se o rim funciona mal, menos de 10%, o paciente começa a correr risco de vida. O método é, portanto, fácil. Outra particularidade: se o rim ficar muito doente, o paciente vai para diálise. “Ele não morre de insuficiência renal, porque tem a diálise. É um procedimento doloroso, mas o mantém vivo. De coração e pulmão se morre”, ensina Garcia. “Além disso, quem necessita de transplante de rim entra na fila e tem condições de ficar nela por seis meses, em condições de continuar vivo, o que não acontece com outros órgãos”, raciocina.

Igualdade no acesso aos transplantes

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“A diferença entre transplante de órgãos e outras cirurgias acabou por merecer uma legislação específica, que foi evoluindo ao longo do tempo, até chegar na organização do sistema como ele se encontra hoje”, informa o cirurgião Roberto Schlindwein, que foi coordenador da Central de Transplante do RS de 1998 a 2004. Segundo ele, é considerada a legislação mais moderna, em termos de regulação e igualdade de condições no acesso aos transplantes, com financiamento completo pelo SUS.

A Lei 9434/1997, que dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante e tratamento, ressalta, é “a culminância de uma série de situações para tentar organizar o processo”. O médico conta que, ao longo dos anos, a prática cotidiana é que ia determinando as necessidades. Era preciso dar início à organização do sistema.

Ele lembra que, em meados da década de 90, quando ainda não havia regulação e a legislação era muito tênue, foi-se percebendo a necessidade de regular o setor, pois a captação de órgãos se dava em hospitais, de forma não muito organizada. “Era urgente criar normas e a Central precisava se instalar na Secretaria da Saúde, que é uma instituição pública, para se controlar o processo”. A Central de Transplantes/RS passou a existir, de fato, a partir de 1997, com a nova legislação.

LISTA ÚNICA – Em abril de 2004, Schlindwein foi para Brasília coordenar o Sistema Nacional de Transplantes, onde ficou até agosto de 2007. “Conseguimos consolidar um trabalho importante, as listas estaduais passaram a compor uma lista única, a fim de se atender às urgências máximas”. Os sistemas dos estados também se transformaram em um sistema único, gerenciado via web, “algo inédito em todo mundo”, avalia.

Legislação

A Lei 9.434, de 04 de fevereiro de 1997, que dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante, foi posteriormente alterada pela Lei nº. 10.211, de 23 de março de 2001, que substituiu a doação presumida pelo consentimento informado do desejo de doar. Mais sobre as leis em http://dtr2001.saude.gov.br/transplantes/legislacao.htm

Solidariedade e vitória contra o preconceito e a desinformação

Especial | Cultura Doadora

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Insuficiência renal soava como um palavrão para Fátima Marmitt Wadi, quando ela tinha 10 anos de idade, ainda mais quando era obrigada a deixar a família em Santa Rosa e ir a Cruz Alta para sessões de hemodiálise que lhe provocavam náuseas. A mãe, Yone, dera-lhe vida pela segunda vez, doara um rim à menina. O procedimento foi bem-sucedido, mas ninguém lembrou de alertar sobre os efeitos colaterais dos medicamentos contra a rejeição, que provocam inchaço no corpo do paciente. A rejeição veio dos colegas de escola e de outras pessoas que, sem saber, quase provocaram uma tragédia.

Normalmente, um rim transplantado pode funcionar bem de 15 a 18 anos. O de Fátima durou menos. Alvo das piadas cruéis das crianças por estar mais rechonchuda, ela diminuiu por conta própria o remédio, acelerando o processo que a levou ao segundo transplante, aos 19 anos.

A doadora, desta vez, foi a irmã, a professora Naíma, 44 anos (foto acima). “Sabia que tinha de fazer isso pela vida dela. Vivo há 20 anos com um só rim e nunca tive problema”, revela Naíma. A recuperação foi rápida: ela doou o rim em maio e, em junho, já estava trabalhando.

Com o segundo transplante, Fátima fez tudo direitinho: tomou os remédios que a mantiveram saudável e conseguiu formar-se em Veterinária, morar um tempo nos Estados Unidos e abrir sua clínica. Passado o prazo de validade – o rim transplantado durou 20 anos –, precisou de um novo órgão. Ficou dois anos à espera de um doador, utilizando um rim artificial custeado pelo SUS

Em 24 de janeiro deste ano, a família de um jovem de 24 anos com morte cerebral autorizou a doação de seus órgãos. Fátima foi beneficiada. Três transplantes de rim depois, o bom humor e a vontade de viver fazem de Fátima, hoje com 41 anos, uma vitoriosa. “Pretendo continuar estudando e seguir com a vida”, diz.

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