Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 167 | Ano 17 | Set 2012
WEISSHEIMER
MARCO WEISSHEIMER

Estamos vivendo no vermelho

Por Marco Weissheimer

Desde o dia 22 de agosto deste ano, entramos no cartão de crédito ecológico e estamos avançando rapidamente no vermelho. Nos primeiros oito meses do ano, os seres humanos consumiram a totalidade dos recursos que a Terra é capaz de produzir ao longo de um ano. Gastamos tudo e agora, para enfrentar o resto do ano, vamos afundar o pé no crédito ambiental do planeta. No dia 22 de agosto, alcançamos o que a organização Global Footprint Network (GFN), sediada em Genebra, denomina de Global Overshoot Day, ou Dia do Excesso Global. Em 2012, o Global Overshoot Day, que é medido desde 2003, foi alcançado 36 dias antes do que ocorreu em 2011. Desde que o índice é medido, aponta a GFN, os recursos do planeta vêm sendo consumidos cada vez com maior rapidez.

Para definir esse índice, a organização utiliza a medida do hectare global (hag), mediante o qual compara a biocapacidade do planeta com o consumo de cada país. A situação hoje é a seguinte: para manter o padrão de consumo atual precisaríamos de meio planeta suplementar. Entre os anos 60 e hoje, os recursos planetários caíram pela metade, enquanto o consumo disparou. Segundo a Global Footprint Network, os Estados Unidos e o Brasil alcançaram antes dos demais países o dia do excesso, em 26 de março e 6 de julho, respectivamente. Se todo o planeta necessitar dos recursos consumidos pelos Estados Unidos e pelo Brasil, seriam necessários mais 4,16 e 1,9 planetas para satisfazer a demanda.

“Déficit ecológico cresce”
Os principais responsáveis pelo déficit são as emanações de dióxido de carbono, as mudanças climáticas decorrentes delas e a exploração dos recursos naturais. As implicações são dramáticas: diminuição das florestas, perda de espécies, colapso da pesca, aumento dos preços dos alimentos básicos: “as crises ambientais e a crise financeira que estamos enfrentando são os sintomas de uma catástrofe iminente. A humanidade está simplesmente usando mais do que o planeta pode prover”, diz a Global Footprint Network . O informe deste ano aponta que, entre 1970 e 2008, a biodiversidade planetária caiu cerca de 30%. A cada ano desaparecem 0,01% das espécies e o déficit ecológico vem crescendo de maneira exponencial há 50 anos. Diante da inércia dos governos e das entidades internacionais frente a esse quadro de destruição ambiental, o coordenador da GFN, Mathis Wackernagel, acredita que a natureza vai acabar se encarregando de “resolver o problema: “a recuperação só poderá ter êxito se for acompanhada de reduções sistemáticas de nossa demanda de recursos e serviços ao ecossistema . Se isso não ocorrer, o desastre se encarregará de fazê-lo”.

Catastrofismo?

Esses alertas e advertências seguem sendo considerados pela maioria dos governos como expressões de catastrofismo desmedido. Ou, pior ainda, simplesmente ignorados. Mas, nos últimos meses, um fenômeno em particular assustou os cientistas e agências internacionais da área ambiental: o degelo inédito na Groenlândia e no Ártico. Segundo as previsões do Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo dos Estados Unidos, o gelo marinho que recobre o oceano Ártico provavelmente registrará, no final de agosto deste ano, a sua menor extensão na história. Desde 1979, quando se iniciaram as medições do gelo do Ártico por satélite, os cientistas nunca tinham visto uma área branca tão pequena no Polo Norte. Na última década, tem se observado verões com cada vez menos gelo atingindo-se valores muito abaixo da média entre 1979 e 2000. Ainda segundo os cientistas, esta é uma das consequências das alterações ao estado do clima na sequência da intervenção humana no meio ambiente. A população do Rio Grande do Sul vivenciou neste mês de agosto um fenômeno similar, guardadas as devidas proporções. Durante praticamente três semanas, predominaram temperaturas de verão, na casa dos 30 graus. Há quem considere tudo isso apenas um ciclo natural, desvinculado da interferência humana no meio ambiente. No entanto, as coincidências começam a se avolumar cada vez mais. Pelo andar da carruagem, poderemos presenciar, ainda nesta geração, grandes catástrofes ambientais, com perdas humanas e materiais inestimáveis, e ouvir alguém querendo nos tranquilizar: não se preocupem, é apenas um ciclo natural…

Foto: sxc.hu

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