Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 167 | Ano 17 | Set 2012
ESPECIAL | CULTURA DOADORA
ESPECIAL

Por uma Cultura Doadora

O projeto Cultura Doadora, que está sendo lançado pela Fundação Ecarta com apoio do Sinpro/RS, é uma iniciativa voltada para o desenvolvimento de uma postura proativa de doação de órgãos e tecidos no âmbito da comunidade educacional e de toda a sociedade

A perspectiva é de um projeto institucional permanente, com base em iniciativas continuadas, criativas, instigantes e com enfoque cultural.

O projeto é lastreado na percepção de que a disposição doadora deve integrar uma concepção de vida, de cidadania e de cultura a ser desenvolvida e firmada na consciência individual e coletiva para erigir- se à condição de um valor universal que consagra a vida como o bem mais precioso do ser humano.

Não se trata de uma campanha pontual, momentânea, de motivações circunstanciais. Em que pese o respeito a todas as iniciativas sobre esta delicada questão, que felizmente várias entidades, instituições e o próprio poder público têm desenvolvido, o projeto da Fundação Ecarta partirá do pressuposto de que uma cultura doadora é um projeto de fôlego que precisa ganhar a adesão e o engajamento num tempo que vai além dos parâmetros de uma campanha para se consolidar em um tempo que transcende gerações.

O parâmetro geracional nos é familiar por nossa origem na categoria dos professores enquanto profissionais voltados à formação de gerações.

Temos presente que a iniciativa deste projeto se insere numa perspectiva de solidariedade que se contrapõe à hegemonia da efemeridade, dos valores individualistas e alienantes que marcam o tempo histórico que vivemos.

A disposição doadora, seja de tecidos como atitude periódica e normal de nossa vida corrente, seja de órgãos após a morte, exige uma consciência que é preciso desenvolver em nós e em quem educamos, seja na família ou no exercício profissional da educação.

A possibilidade da doação é uma importante conquista da ciência. Sua efetivação, no entanto, precisa vencer obstáculos múltiplos que vão da indiferença individualista, passam pela revisão de valores e, especialmente, pela superação das deficiências estruturais das instituições de saúde.

Queremos somar no momento presente e, fundamentalmente, multiplicar para o momento futuro.Que a nossa criatividade possa motivar a inclusão do tema da doação como objeto de informação e formação educativa. Que os professores e a escola possam ser os formadores de uma cultura doadora mais do que qualquer outra instituição social.

A presença do tema de forma transversal no currículo e/ou no projeto pedagógico da escola fará uma diferença fundamental na atitude da sociedade brasileira nesta e nas próximas gerações.

Marcos Julio Fuhr
Presidente da Fundação Ecarta

 

Tudo começou com uma sutura
Por Clarinha Glock e Marcia Camarano

Especial | Cultura Doadora

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Um assassinato ocorrido no final do século XIX, deu início a uma sucessão de descobertas da ciência rumo aos transplantes de órgãos e tecidos.

A vítima, o presidente da França, Sadi Carnot, que visitava Lyon em 24 de junho de 1894, foi apunhalado no pescoço e, apesar do esforço dos médicos para salvar sua vida com uma cirurgia vascular, morreu três horas depois. O estudante de medicina Alexis Carrel ficou impressionado com a incapacidade de recuperar a veia lesada, o que ocasionou a morte da vítima. E decidiu dedicar- se ao estudo das suturas vasculares, comprovando que a anastomose arterial (conversão do orifício redondo dos vasos em triangular para proporcionar a sutura) era possível, o que levaria aos transplantes de órgãos e lhe renderia o Prêmio Nobel de Medicina em 1912.

“O presidente da França morreu sangrando porque ninguém sabia suturar uma artéria e isso estimulou estudos que acabaram nos transplantes como vemos hoje”, explica o médico Valter Duro Garcia, chefe da Equipe de Rim da Santa Casa de Porto Alegre e plantonista da Central de Transplantes do Rio Grande do Sul. A sutura, diz, é como um bordado ou rendado, um procedimento extremamente delicado que salva muitas vidas. “No momento em que se sutura a veia, pode-se fazer o transplante”, resume.

Embora a técnica tenha sido desenvolvida no início dos anos 1900, só funcionou, efetivamente, meio século depois. O primeiro transplante bem-sucedido foi de rim, feito pelo médico Joseph Murray, em 1954, em Boston (EUA), com gêmeos univitelinos. “Um deles morreu cerca de dez anos depois da intervenção, por infarto; e o segundo faleceu há pouco (em decorrência de outros fatores que não o transplante)”, ilustra.

Nos anos 60, foram relatados 35 desses transplantes renais entre gêmeos. Num dos casos, Edith Elm, que recebeu um rim da irmã, casou-se, teve filhos e netos e 45 anos depois mantinha funções renais normais, assim como a doadora. Os transplantes de rim se consolidaram a partir de 1965 como tratamento da insuficiência renal e abriram caminho para as tentativas de transplantes de fígado, coração, pulmão, pâncreas, que viriam a apresentar resultados satisfatórios somente a partir do final dos anos 70, com a descoberta da droga imunossupressora ciclosporina.

Bip alugado, nasce a Central de Transplantes

Especial | Cultura Doadora

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No Brasil, os transplantes começaram nos anos 60 com a mobilização da classe médica em São Paulo e Rio de Janeiro. O primeiro transplante de rim ocorreu em 1964. Quatro anos depois, ocorriam os primeiros procedimentos com coração e fígado. O Rio Grande do Sul iniciou suas atividades em 1970, com um transplante de rim feito no Hospital Moinhos de Vento. A mãe do paciente foi a doadora. “A transplantada tinha 14 anos e viveu por mais 20”, recorda Garcia.

Em meados da década de 70, vários hospitais gaúchos passaram a fazer transplantes, todos com doadores vivos. No início dos anos 80, aconteceu o primeiro transplante de rim de um doador morto. Em 1984, foi transplantado um coração, no Instituto de Cardiologia. Um ano depois, fígado, em São Paulo e, em 1987, pâncreas na Santa Casa de Porto Alegre. Em 1989, a Santa Casa volta a ser pioneira, desta vez, com um transplante de pulmão.

Todas essas atividades acontecendo e não havia uma instituição ou entidade que fizesse as buscas por doadores. Valter Garcia era um jovem médico quando se interessou pelo problema. Ele trabalhava na Santa Casa e tinha colegas em outros hospitais. “Cada um tinha sua equipe de transplante, mas não de forma organizada”. Garcia lembra que o único lugar onde havia doador era o Hospital de Pronto Socorro (HPS).

Ele e um colega (enfermeiro, que mais tarde viria a ser médico), Nilo Hoelfmann, passaram a se revezar em visitas diárias ao HPS para ver se havia prováveis doadores. Foi então que constataram a necessidade de criar um espaço organizado para gerenciar os serviços ligados a transplantes. Em 1987, Garcia elaborou o projeto de uma Coordenação de Transplantes no Estado. “Eu pensei: não vai ser muito caro, sou médico, havia um enfermeiro, dava para começar…”, resume.

O Hospital de Clínicas cedeu espaço para o início dos trabalhos. “A ideia era começar e fazer uma avaliação de três em três meses. Se estivesse dando certo, continuaríamos. Se não, voltaríamos a fazer o que fazíamos antes”. Em janeiro de 1988 começaram as atividades. As reuniões eram feitas com oito equipes de transplante de rim, três de córneas e uma de coração. “Aí se estabeleceu a forma de funcionamento. Alugamos um bip, que ficava ligado 24 horas. Naquela época não havia telefone celular”. Nilo ia todas as manhãs ao HPS verificar se tinha alguém com morte encefálica. Depois, outros profissionais se somaram à equipe.

Em 1997, a Coordenação se transformou em Central de Transplantes. Nela trabalhavam o médico Roberto Schlindwein e a enfermeira Heloísa Foernges. “Nós dois listamos tudo que era necessário para o funcionamento da Central, desde a infraestrutura até o perfil da equipe”. Passaram a buscar um espaço neutro para a Central funcionar, pois o abrigo em um hospital poderia sugerir favorecimento.

Mitos e tabus

Há dois tipos de doadores de órgãos. Os doadores vivos são pessoas saudáveis que decidem doar um dos rins, parte do fígado ou do pulmão, medula óssea. A Legislação permite esse tipo de doação por parentes até 4º grau e cônjuges. Não parentes podem doar somente com autorização judicial. O outro tipo de doador é o que teve constatada morte encefálica ou parada cardíaca. Certificada a morte encefálica de um potencial doador, cabe aos familiares até segundo grau ou cônjuge decidir sobre a doação dos órgãos, o que tem o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar (médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos). Confira no alto das páginas e a seguir, algumas dúvidas frequentes sobre doação de órgãos e transplantes:

Após a doação o corpo fica deformado?
Não. O corpo é reconstituído após a intervenção cirúrgica e o doador pode ser velado normalmente, inclusive com o caixão aberto.

Alcoolismo ou doenças podem impedir a doação?
Pressão alta, diabetes, problemas cardíacos, miopia, glaucoma não são impeditivos. A doação é vetada para doadores com algum tipo de câncer e HIV. Portadores de marcas dos vírus de hepatite B e C só podem doar para receptores com o mesmo tipo de vírus, inativo. Leucemia ou linfomas impedem a doação de córneas, mas não há restrição nos demais casos de câncer – mesmo com metástase. O alcoolismo inviabiliza a doação do fígado.

Fontes: Cristiano August Franke, coordenador da Comissão
Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para
Transplantes do HCPA; Alexandre Marcon, diretor do Banco
de Córneas da Santa Casa e Secretaria Estadual da Saúde.

Valdira voltou a enxergar

Especial | Cultura Doadora

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O médico Alexandre Marcon, diretor do Banco de Córneas da Santa Casa de Porto Alegre, propõe uma metáfora para se entender o drama de quem deixa de enxergar devido a doenças nas córneas, que normalmente levam à necessidade de transplante. “Imagine que o olho é um farol. Pois a córnea é o vidro desse farol”, compara. Esse “vidro” pode perder sua transparência por doenças genéticas, ceratocone (córnea bicuda), edemas, cicatrizes por traumas. A perda de transparência deixa a córnea escura e somente a colocação de “outro vidro” pode resolver o problema.

O tempo na fila de espera por um transplante de córnea diminuiu para três meses no RS graças à agilidade da captação, comemora o oftalmologista. Há seis anos, a professora aposentada Valdira Boff Tezzari teve de esperar durante um ano pela córnea para repor a visão do olho direito. Ela relata que ficou apavorada quando soube que tinha Distrofia de Fuchs, enfermidade que pode levar à perda total da visão. A professora lecionou anos em uma escola de Maximiliano de Almeida, a cerca de 400 km da capital, e usava óculos para corrigir miopia e astigmatismo. Aposentada, pensou que poderia se dedicar mais à leitura, mas se deparou com a doença. Ao saber da possibilidade de transplante, resignou–se. Aos 84 anos, adaptada à nova córnea, Valdira lê, tricota, distingue cores e caminha com firmeza ao lado do marido, Albery José. O olho direito continua doente, mas o esquerdo foi recuperado. “É comum que o transplante não seja feito nos dois olhos até que se tenha a segurança de que a primeira cirurgia foi bem-sucedida”, explica Marcon. Para Valdira, foi um milagre. “Rezo todas as noites pelo doador”, revela a aposentada.

 

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