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Nº 168 | Ano 17 | Out 2012
MOVIMENTO

A ciência encontra a fé

Medicina e espiritualidade se aproximam, mas pesquisa revela que 55% dos pacientes gostariam que seus médicos falassem com eles sobre aspectos religiosos
Por Jacira Cabral da Silveira

Foto: Marcello Casal Jr.

Foto: Marcello Casal Jr.

Foto: Marcello Casal Jr.

Mesmo depois que cientistas importantes do século passado previram que a religiosidade desapareceria ou decresceria durante o século 20, chegando ao completo laicismo da sociedade, profissionais da saúde, pesquisadores e população em geral têm, cada vez mais, reconhecido a importância da dimensão religiosa e espiritual para a saúde. No Brasil, o Censo de 2010 apontou que apenas 8% dos recenseados se declaram sem religião, mas muito provavelmente esse percentual inclui pessoas com alguma expressão de espiritualidade, ainda que não estejam ligadas. Entretanto, esse cenário não está completamente abolido do preconceito e reconhecer esse fato é importante para aqueles que procuram entender a questão: “Não importa se possuímos crenças materialistas ou espirituais, atitudes religiosas ou antirreligiosas, necessitamos explorar a relação entre espiritualidade e saúde para aprimorar nosso conhecimento sobre o ser humano e nossas abordagens terapêuticas”, afirma o diretor do Núcleo de Pesquisas e Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora, o psicanalista Alexander Moreira Almeida.

No dia 14 de setembro, Porto Alegre reuniu mais de mil pessoas, entre médicos, enfermeiros, religiosos e leigos, para participar do Seminário Intercrenças: Ciência, Espiritualidade e Saúde promovido pelo Hospital São Francisco/Santa Casa de Misericórdia. Entre as questões abordadas, os palestrantes buscaram ilustrar questões como: “A oração influi no resultado do tratamento médico? O que acontece com o paciente quando o médico reza com ele? A espiritualidade influi sobre a saúde?”

Segundo o médico Fernando Lucchese, coordenador do evento, a comunidade médica não só está madura para desenvolver esse debate como também está precisando realizá-lo. Tal carência ficou expressa em alguns dos dados da pesquisa desenvolvida no Hospital São Francisco sobre crenças, opiniões e necessidades religiosas de médicos cardiologistas e de pacientes cardiológicos. Conforme o estudo, 55% dos pacientes ouvidos gostariam que seus médicos falassem com eles sobre aspectos religiosos, relacionados à sua doença, mas apenas 24% afirmam que seus médicos o fazem. E quando a pergunta foi dirigida aos médicos, o índice caiu para 15%. “Isso já aponta para a primeira necessidade que temos como médicos e como pesquisadores da área. Além de não ser um tema abordado na universidade, os médicos se veem pressionados pelo tempo das consultas. Mas esse é um tema importante que temos que abordar”, observou o médico Mauro Pontes, coordenador científico do Hospital São Francisco durante sua apresentação da pesquisa.

Idealizador do seminário, Lucchese assegura que ele próprio tem evidências em seu exercício profissional que comprovam o quanto os pacientes respondem positivamente quando o médico leva em conta a religiosidade ou necessidades espirituais daqueles a quem está prestando assistência médica.

Ana Alice, indiretamente, é um desses casos. Presente ao seminário, ela aproveitou o intervalo entre a primeira e a segunda etapas do encontro para se dirigir ao cardiologista e agradecer a forma como ele encaminhou a operação de seu sobrinho: “Ele presta atenção nos sentimentos de seus pacientes”, comenta. Desde abril deste ano, Ana está se submetendo ao tratamento de um linfoma: “Acabei de receber a notícia de que estou curada, que agora só vou fazer radioterapia para a manutenção. Sem fé a gente não faz nada. Tem que acreditar”, enfatiza.

Pacientes buscam conforto na espiritualidade

Harold Koenig, da Duke University | Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

Harold Koenig, da Duke University

Foto: Igor Sperotto

O convidado especial do encontro foi o diretor do Centro para Teologia, Espiritualidade e Saúde e professor de Psiquiatria e Ciências do Comportamento da Duke University (EUA), Harold Koenig, maior especialista mundial no conhecimento da espiritualidade e sua influência sobre a saúde. De acordo com ele, embora o campo da religião, espiritualidade e saúde ainda estejam na “infância” e sejam necessárias muitas pesquisas para verificar descobertas prévias, já foi realizado muito trabalho neste sentido. “Existe boa razão para começar a implantar parte do que já é conhecido na prática clínica”, recomenda.

Um desses estudos, realizado na Carolina do Norte com 838 pacientes hospitalizados, mas que Koenig garante ser a tendência nacional, constatou que 98% pertenciam a algum grupo religioso, 38% participavam de serviços religiosos semanalmente (apesar dos problemas de saúde), 81% oravam em particular uma vez ao dia ou mais e 51% liam a Bíblia ou outra literatura inspiradora, no mínimo, diversas vezes por semana.

Hospital de Clínicas e a atenção a crenças e valores dos pacientes
Em 2010, o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), buscando credenciamento da Joint Commission International Accreditation Standards for Hospitals, organização independente que acredita e certifica mais de 19 mil organizações de saúde e programas nos Estados Unidos, passou por uma avaliação de seus procedimentos internos.

Entre os critérios a serem avaliados dentro das exigências do Joint Commission, o HCPA não obteve boa pontuação no item que trata sobre os direitos de pacientes e familiares, especialmente no quesito que se refere ao respeito e à atenção a crenças e valores espirituais.

De acordo com a enfermeira Luciana Dezorzi, que trabalha no setor de Oncologia Genital do Hospital de Clínicas, tal pontuação deveu-se ao fato de não ter sido encontrado nenhum registro nos prontuários ou fichas de internação dos pacientes relativos à opção religiosa ou valores espirituais dessas pessoas: “Não encontraram registros de conversas com os pacientes nesse sentido”, completa.

Esses registros só apareceram, ainda que em pequeno número, nos casos de pacientes diagnosticados como fora de possibilidade terapêutica de cura: “Quando se tem mais nítida a questão da morte, provavelmente as questões espirituais abordem com mais facilidade. Mas as questões espirituais estão entrelaçadas no cotidiano”, enfatiza a enfermeira.

Luciana faz parte de um grupo de profissionais do HCPA que vem desenvolvendo, já há alguns anos, uma série de ações para trazer à discussão as práticas integrativas de saúde, as questões relacionadas ao autoconhecimento e as questões de espiritualidade. Segundo ela, essas atividades têm contribuído para dar visibilidade e legitimar a importância do aspecto espiritual no atendimento aos pacientes e seus familiares.

Uma das atividades mais recentes foi a criação no início deste ano de um cadastro de religiões para atender as solicitações de acompanhamento religioso/ espiritual de pacientes e seus familiares.

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