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Nº 170 | Ano 17 | Dez 2012
CULTURA
HISTÓRIA

A música no tempo

Produto formador da memória e das representações sociais, a música pode ser utilizada em sala de aula para o ensino de História
Por Caroline da Silva

Foto: Igor Sperotto

Igor Sperotto

Igor Sperotto

Quais artifícios de resistência ao regime militar no Brasil foram criados no começo da década de 1970? Um deles foi “a composição e a veiculação de canções populares de caráter crítico, explicitamente políticas ou não, no campo da arte engajada”. A resposta é da historiadora e professora de História na Universidade Federal de Minas Gerais, Miriam Hermeto. Ela lançou recentemente o livro Canção popular brasileira e ensino de História – palavras, sons e tantos sentidos (Ed. Autêntica, 2012, 214 págs.) e afirma que a análise de documentos-canções desse período pode ser uma opção para responder a um problema histórico formulado – “assim como os periódicos da imprensa alternativa, os documentos dos arquivos da repressão e tantas outras fontes”.

Na obra, a autora ressalta que a música é importante na constituição da cultura histórica dos sujeitos e construtora de representações sociais. A publicação foi elaborada para auxiliar educadores a ajudarem seus alunos a “ler” a canção popular como algo mais do que mero entretenimento, mas também uma forma de interpretar e criar o mundo, conforme Miriam – doutora em História e mestre em Educação – responde em entrevista. “Alguns dos traços de ‘didatismo’ do livro se traduzem, por exemplo, em ‘protocolos de leitura’ (como define Roger Chartier), como os boxes que propõem exercícios de escutas de canções, para auxiliar professores leigos em música a lidar com a ‘gramática da canção popular’ (termos, gêneros, ritmos, timbres, sujeitos etc.), a fim de utilizá-la como fonte (documento) e objeto de estudos da História em suas práticas educativas”.

OPÇÃO DIDÁTICA – Uma das referências da pesquisa são os textos de Fernando Seffner, docente da Faculdade de Educação da Ufrgs, sobre as relações entre teoria, metodologia e ensino de História. Assim, a autora explica que a utilização de fontes históricas em sala de aula é apenas uma alternativa, não se configurando em uma obrigação ou um imperativo para os professores. “É uma opção interessante, se bem feita”, opina Miriam.

Também doutor em História, Ramiro Bicca Jr. – que foi aluno de Seffner – concorda sobre o caráter positivo desta alternativa e com a observação de Miriam: “Claro que não é absolutamente necessário. O professor não precisa entender de música popular e tocar violão para dar uma boa aula. Têm muitas maneiras, essa é somente uma”. Atualmente lecionando nos colégios Anchieta e Unificado em Porto Alegre, ele acredita que utilizar a arte em sala de aula é uma forma de despertar o interesse dos estudantes.

Bicca compõe canções sobre o conteúdo trabalhado (Iluminismo, Revolução Francesa, Independência do Brasil etc.) em aula e as interpreta com violão e voz na sala. “Esse é um diferencial, componho a letra e a música; é diferente de uma paródia, que é usar uma música pronta e trocar a letra’’. Ele ainda não compôs conjuntamente com os alunos, no entanto é uma ideia a ser concretizada. Essa sua experiência foi compartilhada durante o TEDxUnisinos na Fiergs, em 29 de novembro. O professor sempre se interessou por música e preferia tocar os compositores mais antigos, antes mesmo de estudar História. A sua tese de doutorado defendida na Unisinos em 2009 foi sobre as canções de Noel Rosa, e como elas representavam a sociedade brasileira dos anos 30.

Foto: Igor Sperotto

Igor Sperotto

Bicca compõe temas sobre conteúdo trabalhado

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RETRATOS DE ÉPOCA – Além de Noel Rosa, Bicca diz que há compositores de diversas vertentes cujas músicas podem ser um documento histórico. “As canções da ditadura se referem ao que aquele poeta estava passando naquele momento. No samba Apesar de você, Chico Buarque está expressando a sua angústia, a sua contrariedade ao regime militar”. Outra abordagem que pode ser feita é das músicas já existentes que se referem especificamente a um período histórico, como Mestre-sala dos mares. “Trata-se de um samba que fala sobre a Revolta da Chibata no Brasil. João Bosco não viveu aquilo, aconteceu 40 anos antes de ele nascer”, explica.

Dentro do rico cancioneiro popular nacional, Miriam ainda destaca na obra títulos de Luiz Gonzaga e Gilberto Gil. A partir do problema histórico “Por que as representações do Nordeste e dos nordestinos, produzidas na trajetória artística de Gonzaga, fizeram sucesso junto a diferentes grupos sociais, especialmente entre as décadas de 1940 e 1970?”, a historiadora consegue discutir a criação do baião como gênero, as representações estereotipadas de diferentes sujeitos sociais e as relações entre a obra do sanfoneiro e a realidade brasileira desse período (situação econômica, fluxos migratórios etc.). Esse é somente um dos exemplos de como identificar as vozes que falam sobre um tempo, outras possibilidades podem ser formuladas a partir dele.

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