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Nº 170 | Ano 17 | Dez 2012
ESPECIAL

Escola não fala a língua dos surdos

As redes escolares pública e privada ainda não estão preparadas para oferecer educação inclusiva para pessoas com deficiência auditiva de forma satisfatória
Por Jacira Cabral da Silveira

Foto: Divulgação

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Enquanto a Secretaria de Educação do Estado, numa perspectiva de educação inclusiva, comemora a ampliação do número de salas de recursos multifuncionais nas escolas regulares, passando de 283 para 647 em 2011, o que vem ocorrendo nas escolas está muito longe de um projeto efetivamente inclusivo, que propicie educação para todos.
Foto: Igor Sperotto

Igor Sperotto

Igor Sperotto

Especialmente no caso do aluno surdo, o modelo de inclusão adotado no estado, que centraliza o atendimento ao aluno especial nas salas multifuncionais, tem se mostrado insuficiente para dar conta de um efetivo trabalho pedagógico que implica o conhecimento e o respeito à cultura surda, conforme define o artigo 24 da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência: “garantir que a educação de crianças surdas seja ministrada nas línguas mais adequadas para o indivíduo e no ambiente que maximiza o desenvolvimento acadêmico e social e empregando professores que são qualificados em língua de sinais”.

Esse distanciamento, entre projeto e prática que ocorre no Brasil e em especial no Rio Grande do Sul, tem resultado em pouco aprendizado e evasão. De acordo com Carina Priscila Viegas, intérprete de Libras e responsável pelo Atendimento Educacional Especializado (AEE) numa sala de recursos do estado, sua escola perdeu quatro alunos do Ensino Médio ao longo deste ano. Embora reconheça que o fracasso não seja pessoal ou do setor, lamenta a falta de um envolvimento maior da escola como um todo para promover um real aprendizado para esses alunos.

A política de inclusão do surdo no sistema estadual de ensino prevê três modalidades: as escolas especiais (são cinco: Caxias do Sul, Porto Alegre, Novo Hamburgo, Santa Maria e Esteio); as salas de alunos surdos nas escolas comuns; e a inclusão de alunos surdos em turmas comuns, junto com estudantes ouvintes. Conforme o censo demográfico de 2000, a população surda brasileira entre 0 e 24 anos é de 766.344 indivíduos. Destes, apenas 56.024 estão matriculados, e somente 3% concluiu o Ensino Médio.

Christian Strack, membro regional da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis), e professor surdo de História e Geografia na Escola Estadual Especial Keli Meise garante que a evasão ocorre principalmente entre os alunos inclusos: “Eles começam a desistir da escola no terceiro mês, ou acabam ficando porque o professor termina dando tudo de mão beijada”. Por outro lado, Christian afirma que esses alunos têm a consciência de que, embora tenham a mesma qualificação dos colegas ouvintes, eles sabem que não aprenderam: “Esse é um problema muito sério, é uma diminuição da capacidade do surdo, uma infantilização desse jovem”.

Marizete Almeida Müller, coordenadora da Assessoria de Educação Especial da SEC, não tem conhecimento do número de alunos surdos evadidos no estado; segundo ela, tais informações ficam ao encargo das coordenadorias, mas ela “acha” que não há muitos casos: “Se existe é muito pouco”, supõe. Por outro lado, ela reconhece que é recente a demanda de alunos surdos chegando à rede regular de ensino e que isso tem demandado uma preparação por parte dos sistemas para darem conta desse novo contexto. Nesse sentido, ela diz que está prevista para 2013 a formação de 900 professores que já atuem com alunos surdos em Libras.

ESPECIAIS − Na rede privada existem experiências de educação para surdos como a Unidade de Ensino Especial Concórdia, criada em 1996 e especializada na educação de surdos desde a estimulação precoce, a partir do diagnóstico de surdez, até a educação profissional. Na avaliação da diretora da escola, Hiltrud Elert, uma das responsáveis pela organização do XII Encontro Estadual de Escolas de Surdos do RS, que ocorreu no dia 15 de novembro no teatro Dante Barone, a inclusão do surdo nas escolas privadas tem ocorrido de forma semelhante às públicas.

Hiltrud cita como principais problemas nas escolas regulares que incluem o aluno surdo a falta de professores suficientemente preparados e a inexistência de uma cultura escolar aberta ao aluno surdo, ou seja, onde todos, do guarda da recepção ao setor pedagógico, passando pelos alunos e demais funcionários da instituição escolar tenham conhecimento de Libras para que o aluno surdo possa se comunicar: “Enquanto isso não for possível, defendo a escola especial para alunos surdos desde a Educação Infantil ao Ensino Médio”.

PRECONCEITO LINGUÍSTICO – Ainda que a presença do surdo venha se tornando comum no cotidiano das cidades, quer seja dentro dos ônibus, ou nas ruas, comunicando-se com gestos animados, numa total sintonia entre os interlocutores, a cultura surda está muito longe de ser compreendida e reconhecida como um direito de expressão. E muito desse desconhecimento resulta em preconceito, que por vezes é incorporado até mesmo pela própria família da criança surda ao reproduzir um comportamento da maioria da sociedade.

Nesta ignorância, muitos pensam que para se comunicar com os surdos basta aprender o alfabeto em Libras, mas a Língua Brasileira de Sinais é muito mais do que reproduzir as letras e compor frases no ar. Por isso, em função de tal complexidade, especialistas afirmam que para uma criança aprender Libras é preciso oferecer a ela um ambiente rico na cultura surda.

É difícil para um ouvinte colocar-se no lugar do surdo para compreender a extensão que representa a ausência de sons na bagagem de uma criança surda matriculada numa turma de escola comum. Por mais que a menina surda escove os cabelos de sua boneca desde muito cedo, ou o menino surdo segure a bola nas mãos antes de chutá-la com os pés (e o importante aqui não é a questão de gênero), em termos de aquisição de uma língua que represente tais objetos a criança surda só vai ter oportunidade de construir tal conhecimento através da língua brasileira de sinais, que não se restringe ao alfabeto de Libras, mas é também símbolos e sensibilidade.

“A língua de sinais usa todo o corpo para se expressar, por isso a criança surda tem que frequentar uma escola bilíngue, que proporcionará todo o ambiente linguístico favorável à aquisição dessa língua”, sintetiza a coordenadora pedagógica da Escola de Surdos Bilíngue Salomão Watnick, Denise Schmitz Hirt, formada em Educação Especial para Surdos na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

A bagagem é desigual

Foto: Igor Sperotto

Igor Sperotto

Denize Bochernitsan, pedagoga da Escola de
Surdos Bilíngue Salomão Watnick

Igor Sperotto

Denize Bochernitsan, pedagoga com capacitação em Educação para Surdos, há dez anos é professora de Ensino Fundamental para surdos. Atualmente, é titular de uma das turmas da Escola de Surdos Bilíngue Salomão Watnick, do município de Porto Alegre. Com base em sua experiência, ela assegura que o aluno surdo que entra diretamente numa escola inclusiva não chega com a mesma bagagem de um aluno ouvinte na mesma escola.

Enquanto as crianças ouvintes estão sempre em contato com o código falado que depois será base para a futura alfabetização, pois todos os sons à sua volta são fonte de informação e aprendizagem, isso não ocorre com a criança surda, daí o fato dela chegar em desvantagem à escola comum no que se refere às informações sonoras, comparada à criança ouvinte.

Somado a essa falta de pré-requisitos, Denize afirma que, grande parte das vezes, a professora que recebe esse aluno numa turma comum não entende a dimensão do que representa a cultura surda: “A professora não está preparada para esse mundo [do surdo], para trabalhar com ele junto com os outros 29 em sala de aula, e a oportunidade de ocorrer aprendizagem acaba se perdendo para esse aluno surdo’’, explica.

Esse ingresso prematuro na escola comum vai repercutir mais à frente na vida escolar do surdo, garante a especialista. Para ilustrar uma dessas consequências, ela comenta que é comum notar entre os alunos maiores que chegam à sua escola, egressos do sistema comum de ensino, umdeslumbramento com as possibilidades motoras e lúdicas na hora do recreio: “A gente se surpreende com o entusiasmo dos jovens de 14 anos andando na gangorra. Não sabem subir numa árvore, andar de bicicleta. Não aprenderam futebol na escola”, detalha.

O direito de brincar

Foto: Igor Sperotto

Igor Sperotto

Alunos surdos, egressos do sistema comum
de ensino, deslumbram-se em poder brincar
no recreio

Igor Sperotto

Isso ocorre, de acordo com a professora, porque a criança surda incluída tem o seu tempo todo tomado com atividades que privilegiam a cognição. Num turno frequenta a escola, e duas ou três vezes na semana faz o contraturno, na Sala Multifuncional, onde revê tudo o que foi exposto em sala de aula: “Mas será que é justo que crianças de sete a dez anos de idade não tenham infância? O brincar é importante e isto está sendo negado a elas”, indigna-se.

Considerando essa e muitas outras particularidades da cultura surda e os equívocos que vêm ocorrendo na tentativa de incluir a criança surda no sistema de ensino comum nos anos iniciais, a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis) reivindica que se assegure à criança surda – com idade de ingresso na escola infantil até o quinto ano do Ensino Fundamental – a oferta de ensino em escola bilíngue.

A Feneis não é contrária à inclusão de qualidade no Ensino Médio, mas reitera que parte importante do sucesso escolar desse aluno surdo incluído nessa etapa escolar só é possível de ser atingido se ele teve a oportunidade de desenvolver sua cultura surda numa escola especial na infância.

Integração não é inclusão

Carina Priscila Viegas, intérprete de Libras numa escola estadual, onde também presta Atendimento Educacional Especializado (AEE) na Sala de Recursos Multifuncionais de sua escola, também não é contra a inclusão, mas faz algumas ressalvas quanto ao efetivo aprendizado proporcionado via essa modalidade de ensino oferecido ao surdo, pois acolhe muitos alunos surdos que reclamam das imensas dificuldades em sala de aula.

Para Carina, está havendo uma confusão entre o que é inclusão e o que é integração na rede estadual de ensino: “A integração é uma inclusão superficial que visa muito mais a acessibilidade arquitetônica do que qualquer outra coisa. E a inclusão não é só colocar o cara lá dentro [da escola], ela visa muito mais do que isso. A inclusão visa mudanças profundas dentro do próprio currículo e no Projeto Político Pedagógico da escola”.

A questão do currículo foi um dos temas discutidos no XII Encontro Estadual de Escolas de Surdos do RS, que ocorreu no dia 15 de novembro no teatro Dante Barone. Na ocasião foram feitas críticas e sugestões quanto ao currículo específico de educação para surdos: vencer a ideia de superioridade da cultura ouvinte sobre a cultura surda que se expressa, entre outras questões, na discrepância de horas-aula destinadas às disciplinas de Libras e Português, enquanto a primeira tem um período na semana a segunda tem cinco períodos semanais.

Na avaliação da coordenadora pedagógica da Escola Estadual Especial Keli Meise Machado Ana Paula Jung, presente ao encontro, a forma preconceituosa com que o aluno surdo ainda é tratado nas escolas comuns, e por parte de alguns profissionais nas escolas especiais, deve-se ao fato de não haver uma política pública que permita um amplo conhecimento da cultura surda. “O professor é uma vítima de um sistema que não está preparado, assim como as famílias que também não têm essa informação”, observa a professora.

 

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