Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 170 | Ano 17 | Dez 2012
ENTREVISTA | RENATO CANINI

Simples assim

Por César Fraga
Renato Canini | Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

Renato Canini

Foto: Igor Sperotto

Ao chegar à residência de Renato Canini, em Porto Alegre – a maior parte do tempo vive em Pelotas com a esposa, Lourdes – , ele já brinca: “não me faz pergunta inteligente!”. Como quem diz não ser apenas o traço simples que define o artista, trata-se também de uma forma de encarar as coisas, a própria vida e a arte. A inteligência de Canini está justamente aí, na sua simplicidade. Na capacidade de fazer humor com poucos elementos sem querer parecer elaborado, mesmo quando é. Nesta entrevista, um dos mais respeitados cartunistas do país, com reconhecimento internacional e influente sobre várias gerações, conta um pouco da sua história, vencendo a timidez que lhe é característica. Fala do seu novo livro Pago para ver, lançado na última Feira do Livro de Porto Alegre e conta como foi a sua trajetória nestes seus 76 anos de vida, desenhando desde que se conhece por gente. Uma semana antes desta entrevista, foi homenageado durante a Feira do Livro, em evento ocorrido no Santander Cultural, por colegas do humor, Fraga, Santiago, Verissimo, Goida, Edgar Vasques e Lancast Mota.

Extra Classe – Como foram seus primeiros anos?
Renato Canini
– Lá em casa éramos quatro filhos: duas irmãs mais velhas do que eu e uma mais moça. Cada um veio com um dom, e falar em público não era comigo. Nasci em Paraí. Saí de lá com pouco mais de um ano. Meu pai tinha uma pequena farmácia, apesar de não ser farmacêutico. Nos mudamos para uma vila chamada Barril, onde hoje é Frederico Westphalen. O lugar cresceu muito e não pretendo voltar lá, porque não quero estragar minhas memórias de infância

EC – Desenhar foi influência paterna?
Canini
– Meu pai gostava muito de desenho, mas naquele tempo ser profissional era pior do que hoje. E ele me incentivava muito. Me colocava em cima do balcão da farmácia para desenhar. Só que ele morreu quando eu tinha dez anos. Isso bagunçou a família toda. Minha mãe não tinha emprego, dependia dele e não podia continuar com todos os filhos. Então os irmãos foram espalhados para vários lugares. Eu fui morar em Garibaldi com avó e tia paterna. Uma irmã foi para Santa Maria e outra para Palmeira das Missões. Uma delas ficou comigo.

EC – Era um guri rebelde?
Canini
– Sim, (risos). Em menos de um ano já deu problema, pois apesar de minha avó paterna gostar de mim havia uma grande incompatibilidade com minha tia. Eu era muito revoltado e rebelde. Ela me dizia uma coisa, eu respondia outra. Aí, já viu. Depois de um ano, ela me exportou (mais risos). Me mandaram para ficar interno na Escola de Aprendizado Agrícola de Gravataí. Ficávamos na enxada e na lavoura. Depois de uma ano escrevi uma carta para minha tia. Nela eu dizia: “por favor, me tire daqui e prometo me comportar” (mais risos). De volta a Garibaldi, estudei um pouco em grupos escolares (escolas públicas municipais) e em uma escola Marista. Mas o bom comportamento não durou muito. Rodei no exame de admissão e fui novamente exportado, desta vez para Passo Fundo em um internato chamado Instituto Educacional de Passo Fundo, onde fiquei dos 15 aos 18 anos. Foi então que servi no quartel de cavalaria daquela cidade. Já tinha certa intimidade com cavalos e essas coisas, pois meus avós maternos eram fazendeiros em Palmeira das Missões.

EC – Como foi a experiência no quartel?
Canini
– Lá no quartel a gente andava a cavalo o dia inteiro e isso não era pra qualquer um, mas com 18 anos, no auge da força, fazer aqueles malabarismos era tranquilo.

EC – Nessa época, o senhor continuou desenhando, como lidou com a irreverência?
Canini
– Lá cada um ganhava um cavalo e ficava dez meses com ele. O meu era cego de um olho, mesmo assim era um cavalo muito bom. Uma vez escrevi na baia dele: “Isso não é nada Pinhão, Camões também era cego”. Isso acompanhado de um desenho grande. Um dia, o comandante estava fazendo a revista das baias e viu aquilo, me fez apagar tudo e me deixou preso no quartel. Depois dali, com 19 anos, vim para Porto Alegre. Fui morar na casa da Julia Jockymann, mãe do Sérgio Jockymann, o jornalista, radialista e dramaturgo. Como eu tinha feito um pouco de contabilidade, ela queria que eu trabalhasse em um banco, mas eu tinha pavor de banco e de matemática. Eu queria desenhar, mas a profissão não era muito conhecida naquela época.

EC – Que tipo de coisa o senhor desenhava antes de ser profissional?
Canini
– Desenho livre. Ilustrações de livros que eu reproduzia. Um começo muito ruim, como geralmente é o de todo mundo

EC – Chegou a estudar desenho?
Canini
– Nunca.

EC – E quando começou a viver de desenho?
Canini
– Em 1957, eu estava em Porto Alegre, tinha feito um exame para tentar continuar contabilidade, pois havia ficado em segunda época. Mas não cheguei a fazer, porque eu vi nas bancas a revista infantil Cacique, da SEC (Secretaria de Educação e Cultura), com histórias infantis e infanto-juvenis. Peguei uns desenhos meus, levei lá. Como naquele tempo era mais fácil arranjar trabalho, graças a Deus consegui um emprego ali. Foi quando começou minha vida profissional. Trabalhei lá por dez anos. Só que a revista Cacique durou apenas mais quatro anos e foram me transferindo para vários outros setores. Mas aí eram muitos desenhos técnicos, de engenharia, aquelas frescuras. Tinha pavor. Mas eu fui levando, porque depois de dez anos poderia tirar licença-prêmio. Nesse tempo, eu já colaborava no Diário de Notícias e Correio do Povo.

EC – Isso foi em paralelo com a cooperativa?
Canini
– A Cooperativa Editora de Trabalho de Porto Alegre, a CETPA, surgiu em 1962, em Porto Alegre. Na época, o Brizola deu uma força na compra de maquinário. Ali, veio o José Geraldo que era um desenhista do Rio, e ele queria criar uma cooperativa para nacionalizar um pouco as histórias em quadrinhos, para ter mais artistas brasileiros trabalhando. Ele trouxe com ele o Júlio Shimamoto (de São Paulo), assim como ele, um desenhista muito bom e consagrado, o Luiz Saidenberg, o Flávio Colin (que não veio, mas morava em Curitiba e mandava os desenhos), o Getúlio Delphin e alguns outros.

EC – Foi aí que surgiu o Zé Candango?
Canini
– O José Geraldo criou esse personagem, o Zé Candango, e eu desenhei. Era um cangaceirinho que batia nos heróis estrangeiros, principalmente nos americanos. A cooperativa também chegou a publicar a História do Rio Grande do Sul, desenhada pelo Shimamoto. O Mottini, que era outro desenhista gaúcho, criou o Abas Largas, que era uma revista da Brigada Militar. A coisa foi indo, foi indo, até que acabou, dizem que por desvio de dinheiro, coincidiu com a renúncia do Jânio Quadros e tal. Mas eu continuei aqui no estado até 1967.

EC – Teve também uma passagem pela TV?
Canini
– Sim, uma época fazia desenhos para um programa esportivo com os resultados dos jogos para a antiga TV Piratini. Isso durou um ano. Ali conheci o Sampaulo. Tinha uma americana que apresentava um programa chamado Gladis e seus bichinhos com uns desenhos que ela fazia e era muito chato. Aí o Sampaulo criou um quadro chamado Sampaulo e seus bichões, sobre política. Era um mestre nessa coisa.

EC – Como foi a ida para São Paulo?
Canini
– Como eu era da Igreja Metodista, mandava para a imprensa evangélica desenhos para os periódicos, pois além das revistas para adultos, havia duas infantis: a Bem-Te-Vi e a Flâmula Juvenil. O diretor dessas publicações, que era filho de americanos, mas era gaúcho, veio visitar a família e quis me conhecer. Então, me perguntou se eu queria ir para São Paulo por dois anos para substituir um desenhista que havia ganhado uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. E eu fui. Hoje não teria coragem de ir, mas na época… A gente quando é moço faz qualquer coisa. Depois fiquei dez anos desenhando as revistas.

EC – E como chegou à editora Abril?
Canini
– Depois de dois anos, eu já estava querendo voltar para Porto Alegre e encontrei nas bancas a revista Recreio, da primeira fase. Juntei uns desenhos e me apresentei para pedir trabalho. A diferença é que as revistas daquela época eram feitas “no braço” e agora é tudo computadorizado. Ali eu ilustrava histórias infantis, passatempos e jogos. Era uma revista muito bem-aceita e vendia de 200 a 300 mil exemplares. O que para a época era muito bom. Lá na Abril tinha um salão grande dividido em duas partes, a da revista Recreio que era menor e a da Disney que era maior. Nessa época, em 1971, havia uns dois ou três desenhistas que faziam o Zé Carioca: Jorge Kato, Edgard Herrero e Waldyr Igayara. Também tinha uma gurizada que fazia os balõezinhos todos a mão. Vinham as histórias americanas do Pato Donald e outros para serem adaptadas.

Zé Carioca

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EC – Como foi que o Zé Carioca entraria na sua vida e você na dele?
Canini
– Fiquei um ano e meio na revista Recreio e comecei a ter saudade de Porto Alegre e das minhas irmãs. Ao mesmo tempo, havia feito amizade com a turma de desenhistas, principalmente com o Igayara, falecido há pouco tempo. Ele me disse, “tenta desenhar o Zé Carioca e despacha os desenhos de Porto Alegre” (via sucursal da Abril, que tinha um escritório no Centro, perto de onde eram as Lojas Renner). Eu não lembro direito se eu fiquei um pouco por lá aprimorando o desenho do personagem ou se fiz isso daqui. Mas sei que eles me liberaram. Vim para Porto Alegre, me instalei na rua da Praia, e dali, durante seis anos, sistematicamente, eu fiz as histórias do Zé Carioca.

EC – O Zé Carioca, antes de Canini, era um personagem que de brasileiro só tinha o nome. Usava paletó, chapéu de palha, fumava charuto. Como é essa história de um dos principais responsáveis pelo acariocamento do personagem Disney ser gaúcho e nunca ter pisado no Rio de Janeiro?
Canini
– Charuto era coisa de Havana e de americano, né? Mas então, formei dupla com o Ivan Saidemberg, que escrevia as histórias. Foi ele quem criou a vila Xurupita. Tudo para acariocar o personagem. Tinha ainda aquele casaco com a gravata borboleta. Com o tempo, fui me libertando. Até com camisa de física eu vesti o personagem, mas o chapeuzinho de palha mantive até o fim. E o engraçado é que não conheço o Rio (risos). A minha mulher, quando conheci já havia ido 18 vezes ao Rio. Eu, que desenhava o Zé, fazia isso me baseando em cartões postais e fotografias. O resto era imaginação.

EC – E como fazia para assinar, já que a linha de montagem da Disney não reconhecia a autoria das histórias e dos desenhos?
Canini – Naquela época, não saía nem o nome do desenhista, nem do argumentista, mas tínhamos uns truques. Como o barraco do Zé era todo remedando, volta e meia aparecia num remendo “Feijão Canini” ou numa pedra de sabão “Sabão Canini”. Este era o meu grito de revolta contra o anonimato. Só depois, na Disney, é que começaram a creditar os autores, inclusive, os nossos e a gente ficou mais conhecido.

Kactus Kid

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EC – Como foi a experiência com a Crás e o nascimento de Kactus Kid?
Canini – A revista Crás surgiu neste meio tempo, também na Abril, que queria fazer uma revista apenas com desenhistas brasileiros. Então me pediram que eu criasse um personagem e nasceu o Kactus Kid. Era uma gozação com o faroeste americano.|

EC – Mas o nome do personagem antes de ser publicado era outro, não é mesmo?
Canini
– Criei como Coca Kid, mas na editora rebatizaram Kactus Kid sem me consultarem e ficou assim. A revista durou um pouco mais de dois anos, não correspondeu nas vendas e acabou. Foi uma pena.

EC – E o Kactus Kid tem mesmo um pouco do Kirk Douglas?
Canini
– Me inspirei muito naqueles personagens que se transformavam. Como o Cavaleiro Negro, que era um que eu gostava muito e era feito pelo mesmo desenhista do Capitão América. Tinha o Doutor Robledo que se transformava em herói. Até o cavalo dele ficava mais forte depois da transformação. Foi aí que eu botei um agente funerário careca, desdentado, que quando se transforma em Kactus Kid usa uma peruca, os dentes e faz um furinho no queixo com a unha grande do dedo mindinho, aí ele fica com a cara do Kirk Douglas. Não deu tempo de desenvolver mais as histórias. Tinha planos de botar gaúchos no meio do faroeste para bagunçar mais, mas não deu. Basicamente, ele virava herói para ter defuntos para enterrar.

EC – E como o senhor foi demitido pela Abril das histórias do Zé Carioca?
Canini
– Quando vejo minhas primeiras histórias do Zé, as considero muito ruins, mas quando achei que estava encontrando o traço que me agradava, chegou um ultimato da Disney. Queriam que me demitissem porque eu não estava de acordo com os padrões de qualidade deles. Estava bagunçando muito o personagem (risos). Fiquei sem emprego, mas como eu escrevia histórias do Pato Donald e outros, fui me mantendo como argumentista.

EC – E as homenagens?
Canini
– Uns dois anos atrás surgiu uma revista americana em que fui selecionado para ganhar um prêmio pela história e não pelo desenho, o que me frustrou um pouco. Até acho que os desenhistas que vieram depois de mim fizeram melhor o Zé Carioca do que eu. Mas como eles queriam, no padrão Disney. Como eu vinha desde a infância de um desenho livre eu não aceitava aquilo. Mesmo assim, dizem que a minha dupla com o Ivan foi a melhor dupla.

EC – Mas veio o reconhecimento 30 anos depois, como foi isso?
Canini
– Aquelas ironias da vida. Os americanos resolveram premiar os melhores desenhistas do mundo que haviam trabalhado para a Disney. Publicaram uma série de revistas especiais intituladas Mestres Disney. Foi realizada uma votação entre e fui escolhido. Inicialmente, eu não queria, pelo que me fizeram e tal, mas acabei aceitando a homenagem e saiu uma revista especial assinada com as minhas melhores histórias do Zé Carioca, mesmo assim também não eram todas as que eu mais gostava.

EC – O que o senhor lia quando criança?
Canini
– Tenho mal e mal uma imagem na cabeça de um gibizinho que alguém teve e eu li. Não lembro exatamente o que era, mas foi esse o meu primeiro contato com essas coisas. Em Garibaldi, já com dez anos, foi que comecei a ir às matinês no cinema e ler histórias em quadrinhos. Havia as leituras da escola, mas eu queria o gibi. Achava muito chato o Monteiro Lobato e aquela turma. Eu lia revistas como O Guri, Capitão América, Capitão Marvel. Aquilo era uma alegria pra mim. Engraçado, como o contentamento que tínhamos naquele tempo com as revistinhas hoje não se tem mais. Tudo tem seu tempo e sua hora, apesar das bancas estarem cheias.

EC – E as colaborações com o Pasquim?
Canini 
– Participei da primeira fase. Mandei alguns desenhos aqui de Porto Alegre, mas não fui muito assíduo. Mandava de vez em quando. Como eu era primo do Claudius, o desenhista, me chamaram para colaborar, não que eu tivesse um pistolão. O fato é que ele era bem mais politizado do que eu. Embora tenham prendido gente, eu nunca fui preso, apesar de ter feito várias charges sobre a ditadura e gozando os militares da época. Também colaborei para o Coojornal, a Folha da Tarde e o Correio do Povo. Teve também o Quadrão, na Folha da Manhã, com Edgar Vasques, Fraga e Santiago.

EC – O Carlos Estêvão lhe influenciou?
Canini
– Existia uma revista chamada O Cruzeiro, tinha o Carlos Estêvão e o Péricles que desenhava o Amigo da Onça. Eu até gostava mais do Estêvão do que do Péricles. Quando ele morreu, o Carlos começou a desenhar o Amigo da Onça. Muita gente acha até melhor do que o original, mais povão, porque o Péricles era muito perfeccionista, que nem o Ziraldo, cheio de tracinhos e réguas. Até acho que copiei uns desenhos do Estêvão, depois me libertei. Ou se liberta ou morre. “Copiação” é necessário para todo mundo. A gente compra as revistas de que gosta e elas são o teu professor. A gente gosta de um estilo e vai seguindo.

Tibica

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EC – E o Tibica, que recém estreou aqui no Extra Classe, como surgiu?
Canini
– O nome Tibica peguei de um amigo meu lá de Passo Fundo, que estudou comigo no internato. Ele era de Lagoa Vermelha, o Darcy. Depois eu fui pra revista Cacique. Eu criei um personagem que era um negrinho que usava um gorrinho vermelho que se chamava Tibica. Quando acabou a Cacique, morreu o personagem. Mais ou menos na época em que eu desenhava o Zé Carioca surgiu o projeto Tiras, da editora Abril. Então, eles me pediram um personagem para esse projeto com distribuição em todo Brasil. Foi então que criei o indiozinho. Como eu gostava do nome Tibica, botei esse nome nele. As tiras foram publicadas no Jornal do Brasil e Última Hora, mas não foi muito longe. Em 1978, a editora Formato/Saraiva começou a publicar umas coisas minhas e eu mandei o Tibica. Ele é um indiozinho ecológico, um pouco sarcástico.

EC – E o Doutor Fraud?
Canini
– Como eu sou crente, lia muitos livros em que apareciam psicólogos cristãos dando seus testemunhos de Deus, bem ao contrário de Freud. Na época, 1974, trabalhava para a revista Patota, da Artenova, no Rio de janeiro. Que também não durou muito. Depois reuni as tiras que havia produzido e publiquei na Luzatto. Ali eu fiz o livro em duas partes. E o Fraud analisava qualquer objeto. Ele não foi o melhor, mas talvez tenha sido o primeiro personagem psicanalista dos quadrinhos no Brasil, pois o Analista de Bagé só chegaria depois.

Doutor Fraud

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EC – Colaborou também com a revista Pancada?
Canini
– Sim, era uma espécie de Mad, de quem era concorrente também nos EUA, onde se chamava Cracker. Aquele foi um período bom como desenhista. Fazia o Zé Carioca, Recreio, Pancada, Crás. Estava bem solicitado. Nesta revista, me davam uma ou duas páginas e eu podia criar o que quisesse. Também colaborei com a Mad brasileira. Mas nem lembro exatamente o que saiu publicado.

EC – Alguns trabalhos o senhor já recusou por questões religiosas?
Canini
– O Laerte, desenhista, diz que tudo é válido, que a gente não deve ter freio. Mas o cara que é cristão não vai entrar na onda assim, vai produzir de acordo com o que a consciência dele acusa. Pornografia e outras coisas não preciso fazer e não me faz falta. E esse humor novo da TV, principalmente o que veio depois do Casseta & Planeta em que tudo pode, também não me serve. O Tibica não me condena. O Pago pra ver também não.

EC – Tem alguma coisa da sua obra que hoje o senhor rejeitaria por suas convicções?
Canini
– Nunca fiz nada que comprometesse.

Foto: Igor Sperotto

Igor Sperotto

Igor Sperotto

EC – O senhor tem um senso de humor bem sacana e irônico, até que ponto a religião atrapalha ou ajuda a compor o seu estilo?
Canini
– Um pouco de sacanagem pode. O Verissimo se referiu poucos dias atrás a um desenho meu que é uma pastorinha que se abaixa para pegar uma flor e as ovelhas brancas todas estão pastando para ao outro lado, enquanto a ovelhinha preta fica olhando para as calcinhas dela por debaixo da saia. Ninguém é de ferro.

EC – Cinco quadrinistas que admira:
Canini
– Vou dizer os que eu gosto, porque não chega a ser influência: Will Eisner, Moebius, Carlos Estêvão, Alex Raymond (principalmente desenhando o Nick Holmes), Jack Cole (com o Homem de Borracha). Mas tem uma turma grande aí, uma porção de brasileiros que eu gosto, sem contar os argentinos. O José Salinas bota todos os brasileiros no chinelo. Aqui no Brasil tínhamos o João Mottini. Agora, temos o Edgar Vasques.

EC – E o livro novo, Pago Pra ver?
Canini
– São variações sobre o mesmo tema. Como eu não sou o Santiago, que entende mais de gaúcho do que eu, fiz o meu gaúcho, que é o tema do livro, mais de imaginação mesmo. E é um livro mais de ilustrações do que de humor. Tem coisa séria ali, maldade com os animais, entre outras coisas. Acho esse livro mais importante do que o Zé Carioca. Dei tudo o que pude para ter um álbum de 200 páginas. O Fraga, que me incentivou com o livro, diz que se for menos de 200 páginas não é álbum.

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