Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 174 | Ano 18 | Jun 2013
PALAVRA DE PROFESSOR

Câmeras na sala de aula

Por Cecília Farias*

As manchetes de jornais e revistas apresentam crimes desvendados pela análise de vídeos colocados nas ruas e em estabelecimentos comerciais. A sociedade tenta se proteger da criminalidade utilizando recursos que possam identificar bandidos. Na base deste problema, estão as precariedades do poder público quando oferece uma educação que promove a ascensão cultural e social dos indivíduos e segurança para uma vida digna.

Para surpresa de muitos, a câmera de vigilância chega, agora, às salas de aula!

Essa vigilância, que coloca em risco a espontaneidade, a confiança e o compromisso mútuo de professores e alunos, não tem relação com o necessário ambiente propício a aprendizagens, tanto na aquisição de conhecimentos, quanto no trabalho com valores que estimulem alunos a construírem sua trajetória de vida.

As câmeras de vigilância nas salas de aula são a comprovação da incapacidade de as escolas atingirem seus objetivos mais elementares, qual seja, a emancipação do indivíduo.

As escolas que utilizam esse recurso, já no primeiro dia de aula, informam aos seus estudantes que aquele é um lugar inseguro, que necessita de um estado de alerta constante, desprovido de possibilidades de crescimento humano. As escolas indicam que não são capazes de desenvolver um projeto que, de fato, eduque seus estudantes, proporcione a cada um deles a responsabilidade por seus atos, reafirmando a sua incompetência. As câmeras têm como objetivo o controle acintoso das ações de estudantes e professores no processo educativo.

Na verdade, representam a desmoralização das escolas que não conseguem transformar seu projeto pedagógico em um processo de emancipação, de cidadania. A câmera tem um papel de delação incompatível com o processo pedagógico!

A sala de aula deve ser o lugar de relações fraternas e de pessoas que, coletivamente, se desenvolvem, buscam sua emancipação, se protegem. É necessário que as direções dos estabelecimentos de ensino façam essa reflexão. Não deveriam dar um atestado de sua incapacidade de educar!

Deveriam, sim, confiar no indivíduo que formam para o exercício da cidadania; deveriam acreditar nos seus professores e nas múltiplas possibilidades de crescimento intelectual e social que eles, com certeza, desenvolvem quotidianamente de maneira correta, com responsabilidade por seus atos.

* Professora, diretora do Sinpro/RS, conselheira do Conselho de Educação do RS.

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