Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 175 | Ano 18 | Jul 2013
WEISSHEIMER
MARCO WEISSHEIMER

O grande desentendimento

Marco Weissheimer

Pensar, falar e, principalmente, escrever sobre os protestos de rua que sacudiram o Brasil nas últimas semanas tornaram-se atividades desafiadoras. A velocidade com que tudo começou a acontecer é uma das principais dificuldades para a análise, mas não é a única. A formação de multidões em várias cidades do país, articuladas em larga medida pelo Facebook, sem lideranças ou organizações definidas, com uma agenda de reivindicações que iniciou com o preço do transporte coletivo para se estender a praticamente todos os problemas nacionais e até, de modo mais geral, a “tudo que está aí” compõe um quebra-cabeças gigantesco, cujos contornos mais gerais estão sendo lentamente identificados e, mesmo assim, sem muita certeza. Numa situação como esta, mais do que nunca, um certo distanciamento espacial e temporal parece ser requerido para tentar entender o que está acontecendo.

No curto espaço dessa página, vou apenas sugerir a leitura de um autor que talvez possa contribuir para uma reflexão sobre a natureza do que está acontecendo no país. Em seu livro O desentendimento (publicado na França em 1995 e, no Brasil, em 1996, pela Editora 34), o filósofo político francês Jacques Rancière investiga as relações entre filosofia e política e a própria existência de algo que possa ser chamado de “filosofia política”. Rancière emprega o conceito de “desentendimento” como fio condutor dessa investigação.

Ele define assim esse conceito:
“Por desentendimento entenderemos um tipo determinado de situação de palavra: aquela em que um dos interlocutores ao mesmo tempo entende e não entende o que diz o outro. O desentendimento não é o conflito entre aquele que diz branco e aquele que diz preto. É o conflito entre aquele que diz branco e aquele que diz branco, mas não entende a mesma coisa, ou não entende de modo nenhum que o outro diz a mesma coisa com o nome de branco” (p. 11) 

Weissheimer

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

O desentendimento é definidor da política

O desentendimento, esclarece, ainda, Rancière, não é de modo nenhum o desconhecimento (que pressupõe uma ignorância em uma interlocução entre duas pessoas) e tampouco o mal-entendido, que ocorre pelo uso impreciso das palavras. Os casos de desentendimento, prossegue, são aqueles em que a disputa sobre o que dizer constitui a própria racionalidade do debate. Temos aí uma situação paradoxal: os interlocutores entendem e não entendem a mesma coisa nas mesmas palavras. Embora o interlocutor X entenda claramente o que o interlocutor Y diz, ele não vê o objeto do qual o outro lhe fala, assinala o autor. O desentendimento, assim, conclui, não diz respeito apenas às palavras, mas à própria situação daqueles que falam.

Essa situação, defende Rancière, é definidora da política. As estruturas do desentendimento (e, portanto, da política) são aquelas em que a discussão de um argumento remete ao litígio do objeto da discussão e sobre a condição daqueles que o constituem como objeto. O encontro da filosofia com a política seria justamente a tentativa de entender esse desentendimento.

Sem pretender fazer uma aplicação mecânica do conceito de desentendimento, tal como apresentado por Rancière, algumas perguntas sobre a realidade brasileira podem ser pertinentes: Do que é mesmo que os manifestantes estão falando? A partir de que situação estão falando? Quem são seus interlocutores? Estão falando das mesmas coisas nessa interlocução?

De que democracia estamos falando?

Como se sabe, os manifestantes estão falando de muitas coisas ao mesmo tempo. Começou pelo transporte coletivo e logo se estendeu para a saúde, educação, segurança, corrupção, PEC 37, cura gay, Copa do Mundo e por aí vai. Supostamente, os interlocutores de suas palavras são os políticos, as autoridades e a sociedade brasileira como um todo. Supostamente também, todos parecem estar falando das mesmas coisas e parece haver um razoável consenso acerca da importância de boa parte dessas pautas. Supostamente apenas. Como no exemplo de Rancière, parece que X e Y estão dizendo “branco”, mas não estão entendendo a mesma coisa. Se trocarmos “branco” por “democracia”, o desentendimento parece ficar mais evidente. De que democracia está se falando? Com partidos ou sem partidos? Com representação ou sem representação? Com violência ou sem violência?

E de que lugar, os manifestantes estão falando? A resposta aí parece ser mais difícil ainda, dada a natureza das redes sociais e de suas formas de mobilização. Comunidades virtuais de pessoas que, em sua maioria, não se conhecem, formaram multidões reais com agendas multiplicadas quase ao infinito. É como se o desentendimento fosse elevado à enésima potência numa velocidade muito rápida. O impacto disso para a democracia brasileira será positivo ou negativo? Se o desentendimento é o terreno próprio da política, como diz Rancière, podemos estar assistindo o nascimento de algo novo no país ou tudo acabará num grande entendimento? Prosseguirei essa reflexão na próxima coluna.

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