Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 178 | Ano 18 | Out 2013
ESPECIAL
ENTREVISTA

Plugado 24 horas por dia

O economista em doutor em Ciência Econômica Marcio Pochmann, critica o excesso de trabalho causado pelas novas tecnologias em prejuízo dos trabalhadores
Por Marcia Camarano

O economista e doutor em Ciência Econômica Marcio Pochmann alerta sobre as profundas alterações que os processos de trabalho vêm sofrendo desde a década de 1970 em decorrência da adoção de novas estratégias empresariais visando ao aumento da competitividade. Nesta entrevista ao Extra Classe, ele aponta mais retrocessos que avanços nas condições e relações de trabalho e diz que entre os principais segmentos que compõem o curso da reestruturação capitalista encontram-se os serviços influenciados pelas novas tecnologias da informação e comunicação. De acordo com ele, a tecnologia não é neutra e pode ser usada dependendo da correlação de forças existentes. Uma correlação que não pende para os trabalhadores.

Foto: Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Extra Classe – Qual a relação que o trabalho tem com novas tecnologias?
Marcio Pochmann
 – Há duas décadas se mencionava que os avanços tecnológicos viriam acompanhados de tempo livre para a sociabilidade, ampliação de conhecimentos, maior permanência com a família. Mas o tempo livre se reduziu a viver um avanço rápido para uma sociedade pós-industrial e o que é predominante é o trabalho imaterial, que gera uma alienação grande.

EC – Mas as novas tecnologias não seriam aliadas para a redução do tempo de trabalho?
Pochmann
 – Como vivemos em uma sociedade capitalista, o objetivo não é aumentar a produção e sim aumentar o lucro. A disputa da relação capitalista com as novas tecnologias tem feito com que o ser humano se mantenha plugado no trabalho heterônomo 24 horas por dia.

EC – O que pode acarretar a elevação dos níveis de exploração do trabalho?
Pochmann 
– A intensificação e extensão do labor sob as novas tecnologias de informação e comunicação resultam no avanço de doenças mentais. No Brasil não são identificadas associações do crescimento de adoecimentos mentais com o trabalho. Vários países já demonstram este vínculo e muito destes adoecimentos está vinculado a metas de produção, a estar ligado com as questões de trabalho 24 horas por dia. Estar conectado permanentemente acarreta ansiedade, depressão. E, lamentavelmente, existem poucas pesquisas sobre estas questões no Brasil.

EC – Existem formas legais para a defesa dos trabalhadores nesta esfera?
Pochmann
 – A legislação é escassa. São muitos anos de trabalho material. O trabalho imaterial passaria a exigir não uma atualização da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), porque há uma mudança profunda no mundo do trabalho. Esta condição de supertrabalhador requer outro padrão de segurança social e trabalhista.

EC – Qual o papel da educação neste contexto?
Pochmann
 – É consenso que educação é fundamental. Ninguém fala em contra- -educação. Educação é portadora do futuro e da nova riqueza da sociedade internacional, que é o conhecimento. Informação não é conhecimento. Conhecimento requer cada vez mais superação. A educação hoje não deve estar voltada somente para a criança e o adolescente. Tempos atrás o adulto era aquele que não estudava. Quando olhamos esta sociedade que falamos tecnológica, percebemos que a educação necessita ser transformada em algo para a vida toda. Todos precisam continuar estudando. E a universidade, tal como a conhecemos, deve perder o monopólio da formação superior. É hoje uma universidade muito associada à ideia do passado. A sala de aula, também na escola, é um espaço específico para isto. A escola é uma forma de ver a educação formal. A sala de aula foi transformada em presídio, com seguranças para a entrada e saída das crianças. Bem diferente do que precisamos em termos de educação hoje. Há uma desconexão do que se ensina na sala de aula com o que o aluno tem interesse em aprender. É o método de ensino papelaria, só papel. E estamos numa sociedade digital.

EC – Como o senhor vê a distribuição do tempo de trabalho? Em alguns artigos, o senhor tem mostrado ser possível postergar a entrada no mercado de trabalho para bem depois de 20 anos…
Pochmann
 – É fundamental se preparar para o mercado de trabalho. Há uma pressão por trabalhar cedo. A educação é ainda funcionalista, voltada para o mercado de trabalho. Mas estamos falando de uma educação diferente, uma educação para a vida. Trabalhar depois dos 20 anos é prerrogativa exclusiva dos filhos dos ricos. Eles entram bem mais tarde e, por isto, mais preparados para obter os principais postos de ocupação, enquanto os filhos dos pobres estão condenados a ingressar cedo no mercado de trabalho e se conformar com os serviços subalternos.

EC- Qual a consequência disto?
Pochmann
 – A consequência direta é a reprodução da desigualdade entre pobres e ricos.

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