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Nº 179| Ano 18 | Nov 2013
FRAGA

Greves

Por Fraga

Greves

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Desculpa aí, ô Gúgol, mas muita coisa o Fraga já sabia antes de vc espalhar conteúdo induzido, informação equivocada, cultura inútil.

Por exemplo, greve. Nem precisa ser etimólogo pra etimologar de ouvido: basta saber das paralisações na Place de Grève, em Paris. Antes do verbete cruzar os braços, a partir do final do sec. XVIII, queria dizer “terreno plano composto de cascalho ou areia à margem do mar ou do rio”, típico lugar onde os gravetos faziam happy hour. Isso até a Wiki sabe.

Hoje greve é direito universal. Imagine impor esse conceito revolucionário além do sistema solar. Às vezes, até as sondas espaciais nos confins estelares paralisam as funções, como celulares obedientes ao comando dum sinal grevista.

Mas é na Terra que a coisa pegou. Não há categoria que não recorra a uma paradinha, até baterias de escolas de samba ousam interromper as atividades, e em pleno desfile de carnaval!

Ousadia que transparece nos movimentos grevistas dos serviços essenciais. Greve bancária põe os bancos em xeque; o xis da questão, porém, é outro: juros não fazem greve. Os bombeiros adotam estratégia insuspeita: param exatamente nos períodos que os incendiários param. O notável é que ninguém nota.

Já os carteiros contam com os gênios da informática, que inventaram os emails. É a greve mais bem disfarçada que há. Na Brigada Militar deve haver grevistas: quase não se vê nenhum nas ruas. Já greve generalizada, só os generais fariam. E o funcionalismo público? Ah, o poder de reivindicação de um casaco largado na cadeira o dia inteiro! (Com o cuidado, claro, de não cruzar as mangas dos casacos.)

Contorcionistas fazem a greve mais fácil de todas: apenas cruzam os braços, sem adotar outras contorções durante os espetáculos. Para exigir benefícios, pescadores lançam linhas às águas sem iscas nos anzóis; de longe, parecem pescar.

Nem todas as greves chamam atenção. A dos preguiçosos, infiltrados em todas as profissões, costuma aplicar operação tartaruga em qualquer expediente. Em vez de pararem por dias ou semanas, se afastam das tarefas por breves instantes, só que continuamente. O efeito é o mesmo: baixa produção. Deve haver um poderoso sindicato da lentidão a coordenar bilhões no planeta.

Em Brasília, a mais forte palavra de ordem do país é imbatível: os políticos param segunda, quinta e sexta – 12 dias por mês!

Sou favorável a greves por justas melhorias, inclusive por melhores condições de greve. Nenhuma classe reivindica hematomas.

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