Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 186 | Ano 19 | Ago 2014
L. F. VERÍSSIMO
VERISSIMO

Manchetes

Por Luis Fernando Verissimo

Manchetes

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Há notícias de primeira página que nunca chegam a primeira página. Ou por falta de espaço – caso do Brasil no último mês, quando o futebol dominou as primeiras páginas de todos os jornais – ou por decisão editorial. Entre as notícias de primeira página que não viraram manchete durante a Copa está a declaração formal das forças armadas brasileiras que nada de anormal, como tortura e mortes, aconteceu em qualquer dependência militar no Brasil no período da ditadura. E pronto. Notícia paralela que também ficou nas páginas internas foi a da prescrição do caso da bomba no Riocentro, que não será mais investigado.

Também: assunto encerrado. Quem insistir que houve tortura e morte nos quartéis durante a ditadura, segundo relato de sobreviventes e averiguações criteriosas já feitas, estará chamando a instituição militar brasileira de mentirosa. Sobre a ação criminosa abortada pela explosão prematura daquela bomba no Puma jamais se saberá mais nada.

Outra notícia que merecia manchetes mas não passou do bloqueio da Copa foi a de que dos 32 países que participaram do campeonato, o Brasil foi o que apresentou maior queda nos índices de mortalidade de crianças de até cinco anos de idade nas últimas décadas.

Maior do que ocorreu na Alemanha, na Holanda e na Argentina, para ficar só nos quatro finalistas da Copa. Os dados são da Parceria Para a Saúde Materna de Recém-Nascidos e Crianças, entidade coordenada pela Organização Mundial da Saúde. A divulgação desses números com o destaque merecido talvez diminuísse os insultos à presidente, que, estes sim, sempre saem na primeira página. Ou talvez aumentasse, vá entender.

Por que?

O terremoto que arrasou Lisboa também sacudiu a intelectualidade europeia da época, que se dividiu entre os que consideravam a catástrofe um ato de Deus para punir a pecaminosa capital portuguesa e os que diziam que a Natureza, e não um Deus cruel, era responsável pelo cataclismo. Voltaire manteve que o terremoto provava a inexistência de Deus e fez pouco dos que defendiam que era um castigo divino, num famoso poema em que perguntava: se o objetivo era acabar com o pecado, por que escolher logo Lisboa e não Paris, onde havia muito mais pecadores, “mergulhados nas d e l í c i a s”, do que em Lisboa? “Lisboa está arruinada”, escreveu, “e dança-se em Paris”. Exatamente o que sentimos depois dos 7 a 1, guardadas todas as gigantescas proporções.

Nosso futebol está arruinado, e dança-se em países que não têm metade das nossas taças e glórias. E por que nós?

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