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Nº 186 | Ano 19 | Ago 2014
WEISSHEIMER
COLUNISTA

O Brasil pós-Copa: o que está em jogo nas eleições

Por Marco Weissheimer

O Brasil pós-Copa: o que está em jogo nas eleições

Foto: Alexandre Macieira/Riotur

Foto: Alexandre Macieira/Riotur

A Copa do Mundo acabou acontecendo, afinal de contas, para frustração de alguns e para satisfação da imensa maioria da população que acabou se envolvendo com o clima da competição que superou positivamente quase todas as expectativas, seja do ponto de vista técnico, logístico e de repercussão internacional. O #imaginanaCopa acabou se transformando em uma surpresa positiva. Não houve caos nos aeroportos, onda de assaltos contra turistas, confusão nos estádios ou problemas do gênero. A nota negativa veio de onde se menos esperava: ninguém, nem nas previsões mais negativas, esperava o 7 x 1 que a seleção brasileira acabou sofrendo da Alemanha.

Mas, no final das contas, a satisfação por ter promovido um grande evento planetário com ótima repercussão mundial acabou prevalecendo. Passada a Copa, as atenções se voltam para o processo eleitoral que apontará os novos governantes do país, dos estados e os novos parlamentares. Não é pouca coisa que está em jogo. Questões muito mais importantes que as futebolísticas, certamente. E que transcendem as fronteiras nacionais.

O mundo inteiro e a América Latina em especial olham com muita atenção para a eleição no Brasil. Ela define o futuro do maior país da América Latina e, de modo indireto, de todo o continente. Alguns setores tentaram alimentar o movimento “Não vai ter Copa”, que chegou a assumir ares de grande arma da oposição política e social ao governo federal para derrubar a popularidade da presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição. Esses setores apostavam em um clima de conturbação social nas ruas capaz de transformar a Copa num pesadelo para o atual governo, que, como se sabe, acabou não acontecendo.

Na contramão de boa parte do mundo
O debate, agora, volta-se, entre outras coisas, para o conjunto de políticas públicas universalizantes, que caminham na contramão do que está se fazendo hoje em boa parte do mundo. Qual será o futuro dessas políticas? O Bolsa Família, para citar o caso mais conhecido, atinge hoje cerca de 50 milhões de pessoas e mobiliza um conjunto de outras políticas. Já são quase 12 anos de uma infância sem fome, com resultados muito positivos.

Houve uma redução de 58% da mortalidade infantil causada por problemas relativos à desnutrição. O segundo impacto positivo é na educação, com a alteração da trajetória educacional das crianças. Essa alteração aparece nas taxas de aprovação. Os jovens do Bolsa Família tem um melhor desempenho escolar no ensino médio do que os jovens que não são beneficiários do programa. A taxa de aprovação dos alunos com Bolsa Família no ensino médio é de 79,7%, enquanto a dos alunos sem Bolsa Família é de 75,7%. Houve uma redução de 89% da extrema pobreza, lembrando que essa pobreza se concentra mais entre jovens até 15 anos.

O PT e seus aliados tentarão emplacar um quarto governo para manter e fazer avançar essas políticas. A oposição, que tem no senador tucano Aécio Neves seu principal representante, quer levar o país para outra direção, cujos contornos ainda não estão muito bem definidos. Durante recente ato político no Rio Grande do Sul, Aécio Neves reafirmou alguns elementos que caracterizam o modelo de choque de gestão defendido tradicionalmente pelo PSDB: economizar recursos, diminuindo os gastos com o custeio da estrutura administrativa; enxugar a máquina e distribuir melhor os recursos. Não fica claro ainda o que seria das políticas sociais caso essa proposta seja a vitoriosa. O que é certo e dito pelo candidato é que ocorrerão cortes e mudança de rumo.

Movimentos sociais e o plebiscito pela Reforma Política
Outra incógnita diz respeito ao tema da Reforma Política. A presidenta Dilma Rousseff apresentou, no ano passado, a proposta de realização de um plebiscito e de uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva para fazer a reforma política. A proposta foi imediatamente bombardeada pelos mesmos setores que vêm emperrando qualquer mudança mais profunda no sistema politico-eleitoral do país. Para tentar destravar essa pauta, diversos movimentos sociais participam da organização de um plebiscito que será realizado de 1º a 7 de setembro em todo o país. Embora não tenha força legal, a iniciativa espera desencadear uma mobilização em defesa da convocação de uma Constituinte exclusiva para fazer a reforma política.

Em 2002, uma iniciativa similar foi feita para consultar a população sobre o possível ingresso do Brasil na Área de Livre Comércio das Américas (Alca), proposta que estava então na agenda do governo de Fernando Henrique Cardoso. Na ocasião, foram coletados 10.234.143 votos em 46.475 urnas, graças ao trabalho voluntário de mais de 157 mil pessoas. O resultado não deixou dúvida sobre a vontade da população: 98,32% dos eleitores se declararam contra a entrada do Brasil na Alca. A ideia, agora, é repetir a mesma estratégia em relação ao tema da reforma política. Que a grandiosidade dos melhores momentos da Copa do Mundo inspirem o Brasil a obter uma grande vitória nesta direção.

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