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Nº 187 | Ano 19 | Set 2014
CULTURA DOADORA
ARTIGO

30 anos de transplantes cardíacos no RS

O transplante cardíaco é hoje uma rotina não só no Instituto de Cardiologia, mas em todo o mundo
Por Ivo Nesralla

O transplante cardíaco é hoje uma rotina não só no Instituto de Cardiologia, mas em todo o mundo. E especialmente no RS essa história teve mais um impac­to: os transplantes cardíacos alavancaram outros tipos de transplantes no estado como de rins de doador cadáver, e, posteriormente, fígado, pâncreas e pulmão. E tudo graças a esse primeiro doador de coração e a todo o en­gajamento da sociedade que veio a seguir. Um primeiro coração mudou o rumo da história de muitas pessoas.

Falar sobre transplante de coração sempre mexe comigo, não só porque significa salvar vidas, mas também porque leva a um grande acontecimento para cirurgia cardíaca gaúcha e brasileira: a retomada dos transplantes cardíacos no Brasil.

Nos anos 1960, o homem estava protagonizan­do grandes avanços. Em 1968, o cineasta Stanley Ku­brick lançou o filme de ficção científica 2001 – Uma Odisseia no Espaço. O homem pisou na lua em 1969. Pisar na Lua e trocar corações eram acontecimentos que faziam o homem acreditar que tinha poderes sobre-humanos. O primeiro transplante cardíaco foi feito por Christiaan Barnard em 3 de dezembro de 1967, na África do Sul. No Brasil, foi realizado em 1968, quando o professor Euryclides de Jesus Zerbini fez a cirurgia pioneira na América Latina, em São Paulo. Então, em 2 de junho de 1984, realizamos, no Instituto de Cardiologia, o primeiro transplante car­díaco no RS e quarto no Brasil, representando a reto­mada dos transplantes cardíacos, já que esse tipo de cirurgia havia tido uma pausa desde aqueles três pri­meiros transplantes feitos na década de 1960 pelo dr. Zerbini, em função do problema da rejeição do órgão pelo organismo do receptor. O próprio dr. Zerbini, a respeito deste feito do IC-FUC, chegou a escrever no seu livro intitulado Operário do Coração: “Em junho de 1984, um cirurgião brasileiro fora do eixo paulista – o dr. Ivo Nesralla, de Porto Alegre – realizou o pri­meiro transplante sul-americano dessa nova era, com emprego da ciclosporina, o quarto da história do país. O paciente não sobreviveu, mas estava aberta a nova temporada de transplantes”.

Comemoramos no dia 2 de junho deste ano os 30 anos desse primeiro transplante que tantas vidas mudou e me percebo emocionado. Estamos agora no transplante cardíaco número 199 da instituição e sinceramente espero que na publicação deste jornal Extra Classe estejamos festejando o txc nº 200. Olho para trás e vejo que valeu a pena não só para esses pacientes como para todos os transplantes de outros órgãos no estado. É o efeito locomotiva do transplan­te: puxando avanços científicos.

30 anos de transplantes cardíacos no RS

Foto: arquivo pessoal

Foto: arquivo pessoal

*Cirurgião cardiovascular pioneiro nos transplantes cardíacos. Professor da Ufrgs. Diretor-presidente do Instituto de Cardiologia do RS. Membro da Academia Brasileira de Medicina.

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