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Nº 187 | Ano 19 | Set 2014
ENSINO PRIVADO
MERCANTILIZAÇÃO

IES gaúchas na mira de grupos econômicos

A Faculdade Porto-Alegrense (Fapa) foi comprada pela Laureate e é administrada pelo UniRitter

Foto: Igor Sperotto

A Faculdade Porto-Alegrense (Fapa) foi comprada pela Laureate e é administrada pelo UniRitter

Foto: Igor Sperotto

Faculdades, centros universitários e universida­des privadas do RS nunca sofreram tanto o assé­dio de grupos econômicos ligados à educação como nesses tempos de ampliação do poder aquisitivo e consequente acesso ao ensino superior de amplas camadas da população. Do total de matrículas da graduação, que na última década cresceu de 3,9 mi­lhões para mais de 7 milhões, mais de 70%, ou 5,1 milhões, estão no setor privado. Nesse mercado em expansão, empresas que dominam o ensino privado estão incorporando instituições, sejam elas de pe­queno, médio ou grande portes, estejam ou não en­dividadas. O negócio é lucrativo para as empresas. Já para professores e alunos, se traduz, na maioria dos casos, em padronização do ensino, salas de aula lo­tadas, tentativas de supressão de direitos trabalhistas e contenção salarial. O acompanhamento anual do Dieese junto às instituições aponta para um reajuste acumulado de 82,61% nas mensalidades das parti­culares gaúchas entre 2005 e 2014, enquanto que o INPC do período foi de 58,81%. Em 2014, as men­salidades subiram 8,15% e o INPC 5,95%.

O mais recente e expressivo caso de aquisição envolve a Faculdade Porto-Alegrense (Fapa) insti­tuição fundada há 46 anos, com 3 mil alunos, com­prada pela rede Laureate International Universities (LIU). Sem transparência, a transação vinha sendo negociada há vários meses, mas só foi anunciada no dia 14 de agosto.

A compra da Fapa pela Laureate foi vista com reservas pelo Sinpro/RS, que destacou o impacto da transferência de uma instituição tradicional para o setor mercantilista, especialmente em um estado em que, historicamente, predominam instituições públicas, confessionais, comunitárias, filantrópicas e sem fins lucrativos. “O Sinpro/RS reitera a con­vicção de que a educação é um bem público, cuja oferta não pode estar à mercê da lógica do mercado e pautada tão somente pela expectativa de lucro. Os reflexos do avanço da mercantilização em nosso es­tado ameaçam o padrão de qualidade do ensino su­perior do RS, reconhecido em todo o país”, ressaltou a entidade em nota aos professores.

Dias depois do anúncio da venda, no entanto, os efeitos da aquisição já são sentidos por professo­res e alunos. Contrariando o espírito de uma par­ceria entre instituições que marcou o comunicado inicial sobre a transação, foi iniciado um processo de transferência de alunos da Fapa para o UniRitter, aumentando as especulações sobre o esvaziamento da instituição, cujos professores terão que se sub­meter a novo processo seletivo para serem admiti­dos pelo UniRitter, que passou a administrar o novo campus. Em reunião com a direção do Sinpro/RS, a Reitoria da UniRitter informou que manterá os professores da Fapa enquanto houver matrículas na instituição – mas deixou claro que a “marca” Fapa vai desaparecer. Os dirigentes do Sinpro/RS mani­festaram estranheza com a falta de perspectiva de aproveitamento dos professores da Fapa e as ini­ciativas que apontam para uma iminente extinção da Fapa. “As primeiras iniciativas evidenciam que, o que houve foi, efetivamente, uma venda da Fapa, ao invés da parceria institucional inicialmente ale­gada pela Reitoria”, critica Marcos Fuhr, diretor do Sinpro/RS.

De acordo com o dirigente da Laureate, Eduardo Mendonça, aquisição da Fapa é estratégica para expansão do grupo no estado

Foto: Igor Sperotto

De acordo com o dirigente da Laureate, Eduardo Mendonça, aquisição da Fapa é estratégica para expansão do grupo no estado

Foto: Igor Sperotto

IPA – Cercadas de sigilo e negativas por par­te de gestores, as negociações envolvendo a compra de uma parte do campus central do IPA já estariam concretizadas. O terreno já teria sido adquirido por uma incorporadora do ramo imobiliário, por R$ 50 milhões. “Há um movimento de desmonte do IPA, que passa pelo endividamento e inviabilização da instituição, para justificar a venda de patrimônio”, denuncia a empresária Lisiane Collares, integran­te do movimento denominado Juntos somos mais, que reúne cerca de 2 mil ex-alunos da instituição. A mobilização, segundo o advogado Mauro Pache­co, reivindica transparência por parte da Reitoria em relação às dívidas do IPA e às notícias de ven­da do patrimônio. “Não somos contra a venda, mas queremos que esse patrimônio, que é a história do IPA e a identidade dos professores e alunos com a instituição, seja preservado”. Mais impactante ainda foi a especulação sobre a venda de cinco instituições metodistas do país, duas delas no RS, veiculada pelo jornal Valor Econômico, na edição do dia 5 de agosto.

TECNODOHMS – No final de agosto, ou­tra negociação envolvendo a venda de instituição de ensino privado veio a público. Desta vez, sobre a compra da Tecnodohms, faculdade de tecnolo­gia mantida pela Comunidade Evangélica de Por­to Alegre (Cepa). A instituição demitiu diretores e chegou a comunicar a professores que a instituição estaria passando por reformulações, quando, na ver­dade, tratava-se de um processo de venda para a fa­culdade Instituto Brasileiro de Gestão de Negócios (IBGEN). Por meio de sua assessoria, o IBGEN informou que só se manifestará quando tiver uma “posição concreta” sobre a venda. A Cepa não se ma­nifestou

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