Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 187 | Ano 19 | Set 2014
CULTURA DOADORA
NA ESCOLA (2)

“Ninguém” ganhou vida

Recurso pedagógico para formar consciência

Foto: Leonardo Savaris

Recurso pedagógico para formar consciência

Foto: Leonardo Savaris

“Ninguém” não tinha cara, não tinha corpo, não ti­nha identidade. Foi sendo construído coletivamente pela professora, pelas crianças, por pais e mães que doaram um pouco de seu tempo, sua atenção, suas roupas, seus afetos. Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Presidente Hermes da Fonseca, em Novo Hamburgo, “Ninguém” era um menino e uma menina feitos de meia­-calça de nylon recheada de papel que, depois de meses de construção, sendo levados para a casa de um e outro, e por votação, receberam o nome de Marina e Michel.

A proposta de transformação de “Ninguém”, criada pela psicopedagoga, atriz e escritora Márcia do Canto e disponível no site da Fundação Ecarta dentro do projeto Cultura Doadora, inspirou de tal forma a pro­fessora Lisiane Hoffman Allet, que ela se emociona ao contar a experiência. “Nunca havia pensado em falar com minha família sobre doar órgãos, agora vou falar”, avisa. A emoção contagiou os familiares das crianças de sete e oito anos que adotaram os bonecos e a ideia. “Desde pequenos, eles aprendem que pequenas ações podem ajudar o próximo”, diz Cristina Gatelli Blume, professora e mãe de Beatriz, sete anos, aluna de Lisiane que participou do projeto. Juntas, as duas fizeram o ca­belo e o charmoso chapéu da boneca Marina. O nome foi sugestão de Beatriz. Ganhou na votação. Não por acaso, é também o nome de sua irmã, de um ano de idade. “O mais legal foi ver nascer, cada um colocar algo”, disse o pai, João Batista Blume.

Quando Beatriz recebeu a boneca para contribuir com algo seu, ela só tinha os olhos. “Não tinha boca”, explica a menina. A ideia é justamente esta: dar (boca) e voz às crianças, observa Márcia do Canto. “Quando se trabalha regras, moral e ética, principalmente nas séries iniciais, a generosidade e a educação com o outro é sem­pre frisada”, explica a pedagoga. “Trabalhar de forma mais ampla a doação de uma parte nossa, como olhos e rins, é uma tema natural. Os adultos têm mais dificul­dade para lidar com isso porque significa falar de morte, mas falar de morte é falar de parte da vida, também é im­portante conversar sobre isso com as crianças”, orienta. Um boneco que traz a voz da doação de órgãos e pele pode ajudar a levar esta discussão para as famílias. A criança introjeta a informação de forma não racional.

A pedagoga propõe outras brincadeiras, como um hospital de bonecos: “Temos uma cultura de jo­gar fora os brinquedos estragados. Há também um ideal de um ser humano ‘perfeito’. Numa turma, co­meçamos a consertar bonecos e a conversar sobre como é ter uma só mão ou uma perna diferente da outra. Pode-se trabalhar ética e estética”, sugere.

Dois poemas de Márcia do Canto serviram de base para o início do trabalho na escola Hermes da Fonseca:

Ninguém
Meu nome é ninguém / Sou ninguém porque
Ainda nada sou / Não tenho cabelos
Nem boca nem olhos / Falta um coração para amar
O que você pode me doar? / Não ando, não falo
Me calo e nada escuto / Não escolhi ser assim
Mas é sua escolha / Dar algo para mim
Me faça alguém / Me dando o que tem
Pouco ou muito /O que lhe convém!

Alguém (nome escolhido)
Uma boneca contente fiquei
Até um nome ganhei / Você que doou
Forte assim me deixou
Mas o que não pensava
É que forte também ficaria
Doar é um ato de gratidão
A todos que participaram
Obrigado/a de coração

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