Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 189 | Ano 19 | NOV 2014
ENTREVISTA | CÉLI PINTO

Conservadores de plantão

Por César Fraga

Conservadores de plantão

Foto: Leonardo Savaris

Foto: Leonardo Savaris

Céli Regina Jardim Pinto é cientista política, professora do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), possui graduação em Licenciatura em História pela Ufrgs, mestrado em Ciência Política pela Ufrgs e doutorado pela University of Essex (Inglaterra). É professora associada IV da Ufrgs. Tem experiência na área de Ciência Política e História, com ênfase em Teoria Política, e História Política Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: história e política brasileira, teoria da democracia, participação política e feminismo. Atualmente é professora permanente do PPG em História da Ufrgs. Esteve como acadêmica visitante na Universidade da California – Los Angeles (EUA), em 1997; na Universidade Livre de Berlim, em 2010; e na Universidade de Oxford, em 2014. É pesquisadora do CNPq. Nesta entrevista ao Extra Classe, Céli Pinto avalia o processo eleitoral, compara projetos políticos e afirma que o país vive uma onda de pensamento conservador como não se via há décadas. Presidente da comissão que implantou as cotas raciais e sociais na Ufrgs, fala também sobre os maiores focos de conservadorismo na universidade.

Extra Classe – Qual a sua avaliação sobre a composição do Congresso eleito, considerado o mais conservador desde 1964?
Céli Pinto – De fato, este é o Congresso mais conservador desde sempre, excetuando o período da ditadura. Ele revela um processo de construção de um pensamento conservador no Brasil, que vem acontecendo já há muito tempo, e que vem se radicalizando de uns três anos para cá. Existe uma campanha muito forte e muito bem organizada de construção do pensamento conservador e essa construção tem amparo de uma mídia altamente conservadora e que criou uma posição antigoverno, antipetista e antiesquerda muito forte. Um exemplo disso se deu quando o governo declarou que estava preparado caso houvesse um caso de ebola no Brasil. O jornal Hoje, da Rede Globo, deu a seguinte notícia: “o ministro da Saúde disse estar preparado para enfrentar um caso de ebola”, ou seja, o governo afirmou que estava preparado, não disse “estar”. Da forma como foi noticiado, já colocava em dúvida a afirmação do ministro. E, muitas notícias foram dadas desta forma ao longo de muito tempo. Fora isso, tivemos um avanço muito grande das igrejas pentecostais, e que já agregam 30% da população. Elas são absolutamente conservadoras e defendem uma agenda política nesse sentido. Boa parte dos congressistas são provenientes dessas igrejas, e trata-se de religiões que dominam muito a vida das pessoas, pois definem os valores a serem defendidos pelos seus fiéis. De outro lado, o que também não é pouca coisa, foi a importância da revista Veja, com mais de 1 milhão de exemplares por semana, que abandonou o jornalismo para se tornar um partido político paralelo e muito forte nos últimos dois anos e que tem uma importância relevante na formação de opinião. Há, portanto, todo um conjunto de situações no Brasil que formam este cenário conservador em que vivemos. Não há como fugir de que estamos em um momento conservador, com ideias conservadoras, com coisas que há 20 anos no Brasil eram impensáveis e agora se pensa. Infelizmente, não há surpresa nisso.

EC – Esse neoconservadorismo não passa também por uma reação aos avanços e liberdades que foram sendo conquistados, propostos pelos governos do PT, como maior distribuição de renda e que uma classe sentiu-se afetada no seu status quo e reagiu a isso?
Céli – Certamente. E acho que é justamente esse o partido da Veja. Com todos os defeitos que possam ter os governos petistas, e tiveram muitos, não há dúvida de que existe um aumento da qualidade de vida das populações mais pobres. O Bolsa família mudou qualitativamente a vida de grande quantidade da população nordestina. O programa Minha casa minha vida, as cotas nas universidades, ProUni, Pronatec e demais programas educacionais. Então, se a gente perguntar se a classe média tradicional perdeu seus privilégios, a resposta é não. O que a classe média perdeu foi o privilégio de ela ser só ela. Esse é o grande problema. Quando as pessoas dizem que o aeroporto parece uma rodoviária, o subtexto é “como essas pessoas agora andam de avião se antes era só eu?”. Quando as pessoas reclamam do trânsito na rua se perguntam: “como é que pode ter esse monte de carros? Isso é coisa da Dilma, do PT e do Lula, pois antes só eu andava de carro”. Então há uma perda de privilégios no sentido aristocrata do termo. Eu escrevi um livro sobre isso, que se chama A banalidade da corrupção, em que as pessoas acham legítimo existir uma hierarquia em que algumas pessoas são superiores a outras e essas que se acham superiores, consideram legítimo pensar assim. Esse sentimento de exclusividade sobre determinadas questões. Eu sou professora da Ufrgs há 30 anos, onde fui diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e como diretora do Instituto no Conselho Universitário fui a presidente da comissão que implantou as cotas raciais e sociais na universidade eu ouvi da parte de médicos, em consultórios, a pergunta: “como vai ficar a nossa Ufrgs com isso?”. Era obrigada a responder que a Ufrgs não é nossa. Aliás, a classe médica do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre achava que a Ufrgs era propriedade dela. Essa é a ideia: “como vai ser a Ufrgs cheia de negros, de pobres?”

‘‘Não há como fugir de que estamos em um momento conservador, com ideias conservadoras, com coisas que há 20 anos no Brasil eram impensáveis e agora se pensa. Infelizmente, não há surpresa nisso’’

EC – Dentro da Ufrgs quais são os cursos mais conservadores e mais resistentes às cotas e ações afirmativas na universidade pública?
Céli – O foco de maior resistência a qualquer abertura, a qualquer iniciativa mais democrática é a Faculdade de Medicina e isso tem reflexo também nas entidades de classe, como Simers e Cremers. Ou seja, a classe médica é a mais perversa das classes profissionais atualmente no Brasil. Aliás, a classe médica brasileira é uma vergonha para o país lá fora. É motivo internacional de vergonha. Ela perdeu qualquer sentido moral ou ético. É atualmente uma coisa que temos, como acadêmicos, um sentimento de profundo constrangimento. Vou muito a universidades no exterior e as posições políticas e declarações públicas das corporações médicas no Brasil são sempre referidas de forma não elogiosa. Outro curso muito conservador é a Engenharia. Ou seja, na bolha do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas tudo acontece diferente. Onde estão os conservadores na Ufrgs? No cursos onde imaginam ganharão mais dinheiro.

EC – Isso também se reflete fora da academia?
Céli – A política dos médicos é mais que conservadora. Ser conservador é absolutamente legítimo, porém, a prática política expressa por eles é indecente. A campanha que fazem contra o SUS, que fizeram contra o Mais Médicos, o que eles dizem todos os dias nas redes sociais. A propaganda que o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul faz diariamente. O não atendimento, ter um serviço de 6 horas, atender 2 horas e ir embora. A falta de atenção com as pessoas. Há estudos no RS que demonstram que os médicos do SUS atendem com tempos diferentes gestantes negras e brancas. Essa é uma prática amoral. E, no exterior, as pessoas questionam: o Brasil, sendo um país com o crescimento que tem, como é que criou essa classe? Repito: a classe médica envergonha o país atualmente. Durante a eleição, eu vi coisas em Facebook de médicos em Porto Alegre que são inclassificáveis. Não sei como uma classe que custa tão caro para todos nós pode ter uma postura tão arrogante. Sim, porque um curso de Medicina custa muito caro para a sociedade. E justamente por isso eles deveriam ser mais humildes. Mesmo quem estuda na PUCRS, quem paga grande parte do curso é o Ministério da Educação. A sociedade paga muito caro para ter um médico para que ele depois se transforme nessa coisa asquerosa e malcheirosa. Veja o que são os perfis de Facebook de muitos médicos de Porto Alegre…

EC – Até que ponto os movimentos de junho de 2013 contribuíram para essa onda?
Céli – Fui muito criticada porque desde o início eu apontava esses movimentos como movimentos de direita, que havia de um lado o Passe Livre, que é um movimento extremamente interessante, que caiu fora porque se deu conta claramente que o movimento havia sido instrumentalizado. De outro, havia os black blocs anarquistas que eram mais radicais, que ficaram brigando com a polícia. Agora, a massa que estava na rua com aquela cartolina na mão dizendo “eles não nos representam”, essa era uma massa conservadora. Essa massa votou em Ana Amélia Lemos, no RS. Essa massa votou em Marina e Aécio Neves nacionalmente. Não se trata de uma massa politizada, pedindo por mais direitos, essa coisa de voz da rua é a voz do povo… Todos os políticos criaram um discurso sobre o que aconteceu em junho de 2013, que não aconteceu. Muita gente da universidade ia num dia e depois não ia mais. Quem estava na rua era uma classe média que queria contestar quem estava no governo.

Foto: Leonardo Savaris

Foto: Leonardo Savaris

EC – Mas esse descontentamento num ambiente democrático não é legítimo?
Céli – Claro que é legítimo, mas não podem dizer que era um movimento de esquerda como foi dito. Quando as pessoas dizem que querem mudança, estão expressando um certo vício, principalmente aquelas pessoas mais ligadas à esquerda, de acreditar que toda mudança é para melhor. Ora, pode ser uma mudança para voltar o velho status quo. Pode ser mudar para voltar a ser conservador. Mudar porque não quer dar dinheiro para pobre. Querer mudança para que a Universidade permaneça elitizada. Já se falou claramente no pagamento de mensalidades em universidades públicas. A mudança pela mudança não significa mais democracia, que seja mais igualitária. Pode ser mais elitista, para que se tenha orgulho da roupa das pessoas que circulam pelos aeroportos. Agora, considero completamente legítimo que todo mundo se manifeste, só que a interpretação dessa manifestação, na minha perspectiva, é que ela é de direita.

EC – Lula disse que não se tratava de Dilma contra Aécio, mas de uma eleição que escolhia entre duas concepções diferentes de país. O que esteve, de fato, em jogo neste segundo turno?
Céli – Eu acho que o que esteve em jogo foi uma proposta neoliberal, que foi a marca dos dois mandatos de FHC, cuja preocupação fundamental sempre foi o capital financeiro, com privatizações, com a questão financeira como base. Eu acho que o fato de Aécio Neves escolher Armínio Fraga como ministro da Fazenda foi muito significativo, pois tratava-se de um projeto em que para se obter uma inflação baixa, juros altos – aliás, seguindo a cartilha do Fundo Monetário Internacional – um certo grau de desemprego seria muito bem-vindo. Ou seja, a produção diminuiria assim como o consumo.

EC – O desemprego seria bem-vindo por que geraria uma reserva de trabalhadores e isso facilitaria baixar salários?
Céli – Exatamente. Óbvio, que no momento da campanha se falava em não acabar com políticas sociais, mas sabemos que elas não cabem nesse modelo econômico. A própria Marina dizia que só faria programas sociais se sobrasse dinheiro. O outro modelo é o que obteve crescimento muito baixo nos últimos anos, que é o petista. É fato que o crescimento foi muito pequeno, mas houve um gasto muito grande com programas sociais. Uma proposta privilegia o desenvolvimento sem preocupação com a questão social, a outra, tem preocupação social como prioridade. Esses dois tipos de projeto representaram, no processo eleitoral, dois grupos distintos na sociedade e duas formas diferentes de pensar a política e o país.

EC – São dois tipos de capitalismo?
Céli – Acho que não dá para dizer que são duas formas de capitalismo, porque o capitalismo não dá tanta liberdade assim para os políticos se moverem. Mas resumiria assim: um tenta concentrar e outra desconcentrar renda. O problema reside na diminuição de riqueza nas mãos de poucos. Isso que existe ainda é uma grande concentração de renda. O Brasil foi campeão de concentração de renda 20 anos atrás. Ainda existe, e muita, mas tem muito mais distribuição; e se tirou 30 milhões de pessoas da miséria em 12 anos. Só que isso tem um custo para o capitalismo, que esse grupo mais neoliberal, mais ligado ao capitalismo financeiro, não quer pagar. Afinal, o que está em disputa é o lucro.

Com todos os defeitos que possam ter os governos petistas, e tiveram muitos, não há dúvida de que existe um aumento da qualidade de vida das populações mais pobres. A classe média tradicional não perdeu seus privilégios, perdeu foi o privilégio de ela ser só ela…

EC – Além dos legislativos terem composições mais conservadoras, também não há um crescimento desse conservadorismo nos outros poderes, inclusive nas diversas instâncias do Executivo e Judiciário?
Céli – O Judiciário é uma das maiores caixas-pretas desse país. Eu quero falar muito do Judiciário, e vou falar, mas bem depois da eleição. Não vou falar antes disso. No que se refere ao restante da pergunta, eu acho que há uma covardia por parte dos governos, e incluo os governos de Dilma e Lula; dos governos estaduais, na forma como tratam e colocam em debate temas que são fundamentais para o Brasil. Considerando que há um avanço conservador dramático, visto que o pensamento mais aberto e progressista está perdendo terreno, são três os temas que considero fundamentais – e o PSOL fez uma bela campanha sobre isso – que é enfrentar a questão do aborto, da redução da maioridade penal e pena de morte. E não se trata de fazer referendo ou plebiscito. O Brasil, muitas vezes, me dá a impressão de ser um país infantilizado. Nós sabemos, por exemplo, que o sistema prisional é falido no mundo inteiro. O Brasil tem a segunda maior população prisional do mundo em termos proporcionais e tem alta criminalidade. Então, se colocar gente na cadeia resolvesse, o Brasil seria uma Suécia. Tudo bem que não se discuta isso antes das eleições, mas durante quatro anos? A relação das pessoas com esse tema da violência no Brasil é primária. Todos nós sabemos que quem morre de violência no Brasil são dois tipos de gente: homens negros entre 18 e 24 anos e mulheres dentro de casa pelos seus maridos, pais, irmãos, padrastos etc. A grande violência não está em Petrópolis (bairro de classe média-alta), está na Bom Jesus (periferia). E de vez em quando algum latrocínio numa porta de garagem de bairro de classe média, daí há estardalhaço na mídia.

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