Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 189 | Ano 19 | NOV 2014
POLÍTICA

Da radicalização do debate à barbárie

Tristeza pela derrota nas eleições cede espaço a manifestações de ódio racial e preconceito em manifestações nas redes sociais
Por Flavia Bemfica
Alto astral da ‘miltância’ tucana deu lugar a manifestações de ódio contra nordestinos e ataques a Dilma Rousseff

Foto: Bruno Magalhães/Coligação Muda Brasil

Alto astral da ‘miltância’ tucana deu lugar a manifestações de ódio contra nordestinos e ataques a Dilma Rousseff

Foto: Bruno Magalhães/Coligação Muda Brasil

Em seu primeiro pronunciamento após a eleição mais disputada desde o processo de redemocratização do país, a presidente reeleita Dilma Rousseff (PT) disse não acreditar que o Brasil tenha saído dividido das urnas, mas pediu união. Poucas horas antes, em solo gaúcho, Dilma havia admitido que a campanha presidencial fora marcada por “momentos lamentáveis”. Nas entrevistas que concedeu na segunda-feira após o pleito, usou as palavras consenso, ponte e mudança. Entre a vitória e as falas de Dilma, petistas, aliados, e eleitores que optaram por sua reeleição, comemoraram. Mas foi uma comemoração discreta, contida, diferente das históricas e alegres manifestações de militantes e simpatizantes petistas. Enquanto isso, como poucas vezes se viu no passado recente, em diferentes cidades do país, parte dos eleitores de Aécio Neves (PSDB) dava à tristeza típica da derrota a conotação de raiva e preconceito.

Nas redes sociais as mensagens expressas de ódio – os alvos prediletos durante e após a campanha são ‘petistas’, ‘pobres’, ‘nordestinos’ e o ‘povo’, alcançaram números estarrecedores. Levantamento feito pela organização SaferNet Brasil (entidade que atua no enfrentamento aos crimes e violações aos direitos humanos na internet), indica que em apenas 4 horas (entre às 20h, quando ficou conhecido o resultado da eleição presidencial, e a meia-noite do domingo, 26 de outubro) foram denunciadas 305 novas páginas criadas para supostamente promover o ódio e a discriminação na internet. Em função do que já tinha sido observado no primeiro turno, a SaferNet projetou que a “onda de ódio” nas redes sociais se mantivesse em linha ascendente pelo menos no decorrer da primeira semana pós-eleição.

Os dados não incluem, é claro, as postagens que muitos brasileiros leram de amigos, conhecidos ou familiares em suas páginas no Facebook e no Twitter. Deixam de fora manifestações repletas de preconceito feitas dentro e fora da rede por personalidades do esporte ou do mundo artístico. E passam longe das mensagens trocadas em grupos no WhatsApp. Uma farta parcela da população, além de cientistas políticos, sociólogos, filósofos ou analistas de diferentes áreas, busca explicações para o que está acontecendo. Esta parcela sabe o quanto é tênue a linha que separa a radicalização do debate da barbárie.

E que quando um ser humano em qualquer parte do planeta classifica outro de ‘merda’ ou avalia que pessoas de um grupo social diferente do seu ‘comem merda’, a linha foi ultrapassada. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala em ‘ódio de classe’. O governador Tarso Genro, em fratura social. O governador eleito, José Ivo Sartori, em respeito à diversidade. O filósofo Renato Janine Ribeiro repara nesse fenômeno a dificuldade do brasileiro em perceber a existência do outro. “O fato é que o debate fugiu completamente à racionalidade, passou para o campo emocional e está sendo levado às últimas consequências. Parece que, a partir das manifestações de junho do ano passado, algo se estabeleceu. Mas ainda não temos luzes suficientes sobre isto”, resume a professora Maria Izabel Noll, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Ufrgs.

Radicalização e violência esvaziaram mobilização
Com estudos sobre democracia, eleições e elites, a professora Maria Izabel Noll lembra as manifestações de junho de 2013 porque é possível estabelecer a partir delas uma linha marcada pela agressividade extrema e a intolerância. Com reivindicações legítimas, elas começaram de forma pacífica. Mas, logo, as reivindicações ficaram difusas, o governo Dilma Rousseff se tornou um alvo específico, e a radicalização alimentada por movimentos e partidos à esquerda e à direita tomou conta das marchas. Saques, depredações e a inversão da lógica de que cabe ao Estado o monopólio da violência esvaziaram os movimentos.

A ‘onda’ da intolerância voltou a ficar visível com a realização da Copa do Mundo. Primeiro, o movimento Não vai ter Copa, solapado pela conclusão dos estádios e a apresentação de infraestrutura adequada ao tamanho do evento. Depois, o constrangimento das vaias e xingamentos pesados à presidente Dilma na abertura da Copa, proferidos, em sua maioria, por ocupantes da área VIP do estádio. Para completar, o retorno da intolerância na mesma moeda: a caracterização, por parte de lideranças petistas e intelectuais ‘à esquerda’, da existência da chamada ‘elite branca’. A expressão mirou em uma parcela da população ‘rica, reacionária e intolerante’, mas ofendeu outra muito mais numerosa, também branca, só que civilizada, nem sempre conservadora, e preocupada com suas próprias demandas, como as despesas com o plano de saúde e a escola particular dos filhos. O caldo fervente para as eleições estava pronto.

Reação às mudanças no padrão de desigualdade
Para o professor Marcelo Kunrath da Silva, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Ufrgs, a dimensão de ‘classe’ é apenas um recorte dentro da série de conflitos observados na sociedade brasileira. “A dimensão de classe tem a ver com um conjunto de pequenas mudanças que afetaram o padrão histórico de desigualdade e geraram uma reação. Mas não é a única. Há uma série de questões que não são de classe, elas tem a ver é com o conservadorismo enraizado no país”, adianta ele ao admitir que o ambiente altamente radicalizado foi tensionado pela disputa eleitoral.

Grupo de funk anima o Churrascão da gente desinformada, na Praça Roosevelt, em SP, em apoio à reeleição de Dilma

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Na outra ponta, existe a crítica de setores que consideram que as mudanças operadas até agora estão muito aquém das prometidas quando do início da era Lula. Somam-se a eles a expectativa frustrada de uma larga parcela da população, não alinhada às bandeiras petistas, mas que, no passado, depositou no PT seus votos, na esperança de alcançar a moralidade na política. Como pano de fundo de todo o processo, uma histórica questão cultural: a incorporação, por parte dos que estão abaixo na pirâmide social, de valores e práticas daqueles que estão acima, como forma de sentirem-se parte deste segmento mais próspero e, portanto, ‘melhor’. Na prática, após as eleições, esta forma disfarçada de preconceito foi evidenciada no discurso dos descontentes que, entre palavrões e ofensas, bradaram. “Eu posso me mudar para Miami”.

CONSERVADOR – Não foi apenas o resultado apertado da eleição presidencial que deixou evidente a fragmentação e a radicalização na política. A fragmentação fica clara no resultado das eleições estaduais. Nove partidos diferentes, três a mais do que nas eleições de 2010, vão comandar os 27 estados brasileiros. Na divisão por estados, o PMDB ficou com sete governadores. O PT e o PSDB elegeram cinco cada. O PSB três, e PDT e PSD, dois cada. PP, PCdoB e Pros comandarão um estado cada um. No Congresso, os dois maiores partidos (PT e PMDB), perderam número significativo de cadeiras, a bancada eleita é mais conservadora do que a atual e os campeões de votos traduzem o movimento que se observa, das ruas às redes sociais. Celso Russomano, do PRB de São Paulo, foi o deputado federal mais votado no país, com 1,5 milhão de votos. Tiririca, do PR, manteve os altos índices, e obteve pouco mais de 1 milhão de votos. E Jair Bolsonaro, do PP do Rio de Janeiro, defensor de pautas como a instituição da pena de morte e conhecido pelas declarações polêmicas em relação à tortura, racismo e homofobia, ficou em terceiro lugar, com 464,5 mil votos. “É uma grande besteira dizer que o país está dividido, o que há é uma gradação. Mas, é verdade, nota-se sim a perda de algo fundamental, a capacidade de tolerância, que é a base da democracia”, avisa a professora Maria Izabel Noll.

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