Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 191 | Ano 20 | Mar 2015
L. F. VERÍSSIMO
COLUNISTA

Protestos

Protestos

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Com nenhum negro na lista de candidatos ao prêmio de melhor ator, a última entrega dos Oscar prometia ser uma festa não só monocromática mas branca, também, no sentido de engomada e sem nódoas. Acabou sendo um evento muito mais político do que se esperava. A falta de negros entre os premiáveis foi compensada pela quantidade de negros entre os apresentadores, e o maior homenageado da noite foi Martin Luther King, apesar de o filme Selma, sobre a marcha contra o racismo e pelo direito do voto que ele liderou em 1965 só ter merecido um prêmio, pela música.

Mas a música, Gloria (que também fala de incidentes raciais recentes, como o de Ferguson), mexeu com a plateia, e seus dois intérpretes, ao agradecerem o prêmio, fizeram fortes e bem articulados protestos contra o racismo que ainda persiste no país – e também foram ovacionados.

O próprio apresentador da noite, tão criticado pelo seu mau desempenho, deu uma leve cutucada política na plateia quando esta aplaudiu o nome de Martin Luther King, que durante tantos anos representou para os brancos a ameaça da insubmissão dos negros: “Agora vocês gostam dele…”. Também houve protestos contra a discriminação das mulheres no mercado de trabalho e contra a homofobia, e – para completar o que foi tudo menos uma noite branca – o filme premiado na categoria de documentário longo foi sobre o Edward Snowden, que está proibido de entrar nos Estados Unidos depois que revelou segredos da bisbilhotice mundial praticada pela Agência de Segurança Nacional americana.

Também ovacionado. E, como se não bastasse tudo isso, o maior premiado da noite foi um diretor mexicano, o que valeu como um protesto velado contra as leis de imigração americanas que o Obama está tentando mudar.

Tomadas
O filme premiado do mexicano, Birdman, é bom. Sua proeza técnica mais comentada – o filme é feito no que parece ser uma única tomada, sem cortes, do começo ao fim – já tinha sido realizada pelo Alfred Hitchcock em Festim Diabólico ou coisa parecida. Como os rolos de negativos da época (1948) só duravam 10 minutos, Hitchcock se obrigou a grandes malabarismos para disfarçar os cortes. Brian de Palma também gostava de tomadas longas, embora nunca, que eu saiba, fizesse um filme inteiro com uma tomada só. E o mais recente exemplo de tomada inacreditável foi no filme argentino O Segredo dos seus Olhos, em que a câmera começa focando um estádio de futebol do alto, vai descendo, descendo e acaba enquadrando em close o rosto de um homem no meio da torcida do Racing, sem que se note quando a câmera do helicóptero vira a câmera do close. De certa maneira, Hitchcock também foi um grande homenageado na noite dos Oscar.

Cuidado
Entre as muitas razões para se assistir ao Porta dos Fundos, estava a Leticia Lima, rara combinação de beleza e talento, e – mais raro ainda – talento para a comédia. Li que ela foi contratada pela Globo, ainda não se sabe para o quê. Olhe lá o que vão fazer com a moça, Globo!

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS