Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 202 | Ano 21 | Abr 2016
WEISSHEIMER

Globo, do Capitólio à Tarpeia

Um grupo de brasileiros residentes na França decidiu criar o Movimento Democrático 18 de Março (MD18) para denunciar a tentativa de golpe de Estado em curso no Brasil. A data escolhida assinala o 145° aniversário da Comuna de Paris. Nesse dia, o MD18 fez sua primeira manifestação pública em defesa da legalidade democrática no Brasil e denunciando o movimento golpista. Além de promover manifestações na França, o MD18 pretende “informar a imprensa e a comunidade internacional sobre a real situação pela qual passa o Brasil, denunciando a parcialidade e a partidarização da grande mídia brasileira e oferecendo um ponto de vista alternativo”. A atuação da chamada grande imprensa brasileira na tentativa de golpe atravessou as fronteiras nacionais, despertando interesse em vários países.

Manifestação em frente à sede da emissora, no Rio, em março, no auge das investidas dos telejornais contra Dilma e Lula e divulgação de grampos ilegais

Foto: Fernando Frazão/ABR

Manifestação em frente à sede da emissora, no Rio, em março, no auge das investidas dos telejornais contra Dilma e Lula e divulgação de grampos ilegais

Foto: Fernando Frazão/ABR

Um dos pronunciamentos mais contundentes acerca do comportamento da mídia brasileira na atual crise política partiu do jornalista inglês Glenn Greenwald, escolhido por Edward Snowden para revelar ao mundo as práticas de espionagem em massa realizadas pela Agência Nacional de Segurança (NSA), dos Estados Unidos. Em artigo publicado no site The Intercept (18/03/2016), Greenwald afirma que “a mídia corporativa brasileira age como a verdadeira organizadora dos protestos e como relações públicas dos partidos de oposição” (…) “os perfis no Twitter de alguns dos jornalistas mais influentes (e ricos) da Rede Globo contêm incessantes agitações anti-PT”,  diz ainda Greenwald, que também faz menção ao episódio do vazamento de uma escuta telefônica entre Dilma e Lula, que foi parar no programa jornalístico mais influente da Globo, “de forma tão melodramática e em tom de fofoca, que mais se parecia com uma novela do que com um telejornal”.

Degradação e triunfo
O grau de manipulação da informação chegou a tal nível que vários intelectuais e acadêmicos decidiram não dar mais entrevistas para veículos da Rede Globo. Um dos primeiros a tomar essa decisão foi o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser. Convidado por uma jornalista a comparecer aos estúdios da GloboNews para falar sobre os atentados no metrô da Bélgica, Nasser respondeu: “Não dou entrevista para um canal que além de não fazer jornalismo incita a população ao ódio num grave momento como esse”. Há mais de dez anos, ele participava de diversos debates na GloboNews, na área de política internacional. O professor de Ciências Políticas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) João Feres Junior, também decidiu não divulgar pesquisas do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa), do qual é coordenador, ao portal G1, também ligado à Rede Globo.

O Tea Party brasileiro
Greenwald lembra ainda que, durante meses, as quatro principais revistas jornalísticas do Brasil “dedicaram capa após capa a ataques inflamados contra Dilma e Lula, geralmente mostrando fotos dramáticas de um ou de outro, sempre com uma narrativa unificada de forma impactante”. O jornalista faz uma comparação entre a imprensa brasileira e a   norte-americana para dar uma ideia da dimensão do que está se passando no Brasil. Ele escreve: “Para se ter uma noção do quão central é o papel da grande mídia na incitação dos protestos, considere o papel da Fox News na promoção dos protestos do Tea Party. Agora, imagine o que esses protestos seriam se não fosse apenas a Fox, mas também a ABC, NBC, CBS, a revista Time, o New York Times e o Huffington Post, todos apoiando o movimento do Tea Party. Isso é o que está acontecendo no Brasil: as maiores redes são controladas por um pequeno número de famílias, virtualmente todas veementemente opostas  ao PT e cujos veículos de comunicação se uniram para alimentar esses protestos”.

A participação de grandes empresas de comunicação em movimentos para a derrubada de governos constitucionais não chega a ser uma novidade na história do Brasil. Esses grupos têm em seu currículo campanhas contra a criação da Petrobras, pela derrubada de Getúlio Vargas e do governo constitucional  de  João Goulart,onde tiveram uma participação ativa na execução do golpe civil-militar de 1964. Um elemento comum destaca-se nas campanhas contra Vargas, Jango, Lula e Dilma: o combate à corrupção. Curiosamente, o fim do governo de Getúlio, com o suicídio, e a derrubada de João Goulart não eliminaram o fenômeno da corrupção. Após a derrota de ambos, o tema foi varrido para debaixo do tapete ou engavetado.

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