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Nº 204 | Ano 21 | Jun 2016
MARCOS ROLIM
COLUNISTA

Sobre a intolerância e o ódio

Sobre a intolerância e o ódio

Ilustração: O rapto de das Sabinas, de Pablo Picasso (1963)

Ilustração: O rapto de das Sabinas, de Pablo Picasso (1963)

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) instalou, em 25 de maio, o seu Comitê contra a Intolerância. A iniciativa é uma resposta institucional a manifestações de ódio e a provocações de perfil fascista que já ocorreram nos campi. Com o Comitê, se pretende desenvolver atividades preventivas e de formação que afirmem a cultura de paz e que valorizem a tolerância diante das diferenças. Outra missão do Comitê será a de receber denúncias de tal forma que se instruam processos administrativos para a responsabilização dos autores de práticas discriminatórias e/ou violentas. A convite da Reitoria, realizei, na oportunidade, uma conferência sobre o tema, propondo uma reflexão sobre os conceitos e as origens da intolerância e do ódio.

Elie Wiesel, um dos sobreviventes dos campos de concentração e Nobel da Paz em 1986, disse que a intolerância está situada no início do ódio. A relação me parece correta. A intolerância é uma indisposição diante do outro; uma variedade da impaciência que autoriza a separação, a não convivência, o isolamento e o desprezo. O ódio vem depois.  O ódio é uma escada na qual se sobe ou não. O problema é que, depois que subimos, é difícil descer. Para vencer o ódio é preciso impedir que se suba o primeiro degrau da escada.

O ódio pode ser definido como uma disposição favorável à destruição do outro. Ele tem parentesco com a raiva e, desde um ponto de vista evolucionário, sabemos que a raiva é uma emoção primitiva, desenvolvida em nosso sistema límbico, particularmente nas amígdalas cerebrais, onde estão também os mecanismos que nos permitem outros sentimentos básicos como o medo. O ódio, entretanto, é mais do que uma decorrência da luta pela sobrevivência e Darwin reconheceu que ele é muito mais complexo que a raiva e o medo. O ódio talvez seja a raiva transformada em conceito.O que há de pontual e explosivo na raiva, adquire o sentido da permanência e da frieza com o ódio. É possível que o ódio seja o mais potente sentimento de hostilidade que os humanos são capazes de produzir. Pensado por este caminho, não deve haver sentimento paralelo nas demais espécies animais conhecidas.

A intolerância é uma indisposição diante do outro; uma variedade da impaciência que autoriza a separação, a não convivência, o isolamento e o desprezo. O ódio vem depois.  O ódio é uma escada na qual se sobe ou não. O problema é que, depois que subimos, é difícil descer. Para vencer o ódio é preciso impedir que se suba o primeiro degrau da escada.

Há algo em comum entre o ódio e a intolerância e se pode observar isso quando nos damos conta de que eles se encontram no plural. Como regra, os dois sentimentos se manifestam diante de grupos que seriam definidos por características vergonhosas e/ou ameaçadoras. Um racista odeia os negros, os índios, ou os judeus, não um negro em particular ou este índio ou este judeu. O mesmo vale para as demais formas de ódio e intolerância que se obrigam a lidar com estereótipos, não com pessoas concretas. Aqui, a biologia se cruza com a cultura, porque intolerância e o ódio precisam ser ensinados. As crianças, por isso mesmo, embora possam ser perversas, não são intolerantes. Para que a intolerância se construa e se transforme em ódio, é preciso, afinal, uma base teórica-discursiva, ainda que rudimentar.

Quanto menor é o coração, mais ódio carrega.
Victor Hugo

Entendo que a primeira tradição a oferecer esta base é o fundamentalismo religioso. Para o fundamentalista, quem discorda já está no pecado. Há mesmo uma contradição básica entre fé e debate. Pelo debate, admitimos que nossas perspectivas são sempre parciais e, portanto, unilaterais. Por isso, ouvimos com atenção as posições diversas e, se temos a pretensão de influenciar os demais, então temos a obrigação moral de admitir a possibilidade de sermos influenciados pelos outros. Sem isso, não haverá debate, mas um ritual hipócrita. Pela fé, há uma verdade revelada a qual devemos aderir, o que é exatamente o contrário do debate.

A outra tradição que alimenta a intolerância e o ódio são as ideologias. Para a perspectiva humanista, as pessoas nos oferecem uma dimensão a ser respeitada incondicionalmente. Algo que, em termos pagãos, poderíamos denominar como “sagrado” e que Luc Ferry, retomando Nietzsche, definiu como “aquele limite que não se poderia ultrapassar sem entrar na esfera do mal absoluto”.As concepções políticas anti-humanistas, à direita e à esquerda – aquelas que estiveram na fundação das experiências totalitárias – recusam precisamente este limite. Para elas, os humanos se definem sempre pela particularidade (pela “nacionalidade” ou “raça” para o nazismo, pela “classe” ou “alinhamento político-ideológico” na tradição comunista) e só existem na condição de meios para seus fins. As ideologias portam a pretensão de uma explicação total e, por isso, tendem a um processo de autonomização diante da experiência, libertando-se daqueles fatos que poderiam contestar ou relativizar seus pressupostos. O resultado, todos conhecem, são legiões sectárias cujos membros recusam tudo o que não for espelho.

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