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Nº 205 | Ano 21 | Jul 2016
FRAGA
COLUNISTA

Te cuida, coração

Te cuida, coração

Ilustração: Sica

Ilustração: Sica

Era uma vez um coraçãozinho muito original: em vez de bater por alguém, batia por si mesmo. Não cuidava da vida de outro, tratava da sua. Uma vida cheia de iniciativa: além de sístoles e diástoles, possuía outros impulsos. Quer dizer, produzia novos ritmos cardiovasculares.

Sim, era um coraçãozinho criativo, incapaz de apenas obedecer a uma arritmia aguda ou disritmia crônica (ou vice-versa, ele era bom em misturar sintomas). Na verdade era ótimo em inventar cadências. Por isso vivia muito mais feliz com seus tans-tans que os demais corações com seus tuns-tuns.

Às vezes, nos devaneios pulsantes, lembrava de alguns batimentos sensacionais que havia sacado e saracoteado, porém quem diz que lembrava. Se torcia e contorcia, pulsava pra lá e pra cá, sem acertar passo e compasso.

Até que, estalo: podia gravar suas criações! Para isso serviam os eletrocardiogramas. Se o exame registrava distúrbios, podia gravar seus inspirados batimentos.

Começou a gravar e em pouco tempo lançou seu 1° álbum de tans-tans. Nada mais era que a tirinha de eletro, como se fosse uma partitura cardíaca. De fácil leitura para átrios e ventrículos, que podiam reproduzir os biorritmos e assim quebrar a rotina peitoral.

Logo o coraçãozinho se viu no showbiz: todos os corações rotineiros queriam bater suas batidas.

Foi quando teve a ideia de criar um selo para proteger suas gravações. Pensou numa fruta que se assemelhasse à sua própria forma. Resolveu que maçã servia bem.

Afinal, pelo que sabia, nenhuma outra fruta conseguia simbolizar tanta gente – Adão e Eva, Guilherme Tell, Isaac Newton, Branca de Neve. Assim adotou o logotipo frutífero, e o coraçãozinho estourou nas paradas. Seus eletros eram sucesso! De tanto gravar vivia estafado, estressado, porém feliz.

Até que um dia vieram dois advogados de uma vez. Cada qual com sua pasta, dispostos a processar o coraçãozinho: dívida de milhões em direitos para seus clientes. O coraçãozinho ficou apoplético: não copiava ninguém, batia só do seu jeito!

Mas os processos e as cobranças não eram pelas batidas, eram pela marca. Os advogados dos Beatles e da Apple foram cruéis: ou ele pagava pelo crime de apropriação indébita ou parava de bater diferente.

Muita pressão e nenhuma calma nessa hora. Não deu outra: infarto fulminante.

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