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Nº 207 | Ano 21 | SET 2016
ARTE+
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Audiovisual não vê a crise

Por César Fraga

Audiovisual não vê a crise

Foto: Helena Rocha/ Famecos/ PUCRS

Foto: Helena Rocha/ Famecos/ PUCRS

Estudo preliminar da Fundação de Economia e Estatística (FEE/RS) aponta que o setor do audiovisual no Rio Grande do Sul deve encarar a crise econômica sem maiores percalços. Entre as razões, estão as políticas públicas nacionais das últimas décadas e a legislação, que criaram mecanismos de financiamento e fomento para cinema, além de obrigatoriedade para que TVs exibam conteúdos locais e de produção independente. Soma-se a isso o fundo setorial, que, graças à participação das empresas de telefonia – as quais passaram a exibir imagens em vídeo –, acumulam R$ 200 milhões por ano para fomentar o setor. Além disso, não se deve esperar muitas mudanças nas regras, segundo os especialistas, por ser a Rede Globo de TV e a Globo Filmes as maiores beneficiárias desse mercado e por serem regras que acabam por manter todo setor aquecido, fixando o Estado entre terceiro e quarto polo de produção audiovisual no país.

A pesquisa vem sendo desenvolvida pela FEE/RS desde o final de 2015, com o objetivo de mapear de modo geral o impacto da economia criativa para economia do RS, tendo em conta que existem poucos estudos na área. De acordo com o sociólogo Tarsòn Nuñez, da FEE/RS, a economia tem toda uma tradição de pesquisar muito os setores primário e secundário e acumula poucos estudos do setor terciário, que, geralmente, é visto como um elemento adicional: que são serviços para a indústria, agricultura e comércio.

Rio Grande do Sul é o terceiro polo de produção audiovisual do país e concentra grande potencial do mercado, avalia Tarsòn

Foto: Igor Sperotto

Rio Grande do Sul é o terceiro polo de produção audiovisual do país e concentra grande potencial do mercado, avalia Tarsòn

Foto: Igor Sperotto

Economia criativa – o sociólogo destaca que, ao olharmos para a economia mundial, hoje, o estado mais rico do país e mais rico do mundo tem sua economia baseada, em grande parte, na economia criativa, que é a Califórnia, nos Estados Unidos. O mesmo vale para a Inglaterra. “Aliás, foi da Inglaterra que surgiu o termo economia criativa, nos anos 1990, quando os especialistas começaram a se dar conta de que um dos grandes ativos daquele país não era a produção industrial, mas justamente a produção daqueles setores em que o valor não vem da matéria, mas de uma dimensão imaterial. Uma delas e bem significativa são os royalties por direitos autorais. Aliás, o tema do direito autoral é o grande tema em discussão na World Intellectual Property Organization (WIPO), que vem propondo esse debate, porque justamente a questão dos direitos autorais arbitra o valor de todas as indústrias culturais”, explica.

Os estudos da FEE/RS englobam a cadeia audiovisual e a cadeia dos games, que, em parte, se superpõem. Também estão iniciando um trabalho na área da música. A ideia é que essas informações sirvam para lastrear políticas públicas na área da indústria cultural. “Resolvemos começar pelo audiovisual porque é a área onde o Rio Grande do Sul tem a maior tradição tanto do ponto de vista da sua presença no cenário no mercado nacional, quanto do ponto de vista da sua organização institucional. Hoje, uma das coisas que faz com que o RS seja o terceiro polo de produção audiovisual”, justifica Nuñez. De acordo com ele, esse ranking é construído com a quantidade de filmes produzidos com apoio da Ancine, 60% no Rio de Janeiro, 30% em São Paulo e entre 3% e 4% no Rio Grande do Sul. “O fato de ser o terceiro parece uma coisa ruim, por existir uma disparidade muito grande entre o primeiro e o terceiro. Mas que, por outro lado, indica que há um potencial grande de mercado”, observa.

O estudo abrange os vários nichos que compõem a cadeia audiovisual no RS. Existe a produção de cinema pura e simples, tem a publicidade (segundo dados da Associação Rio-grandense de Propaganda, o setor movimentou R$ 4,3 bi em 2013). Existe também um campo de vídeo institucional cada vez mais forte, onde se produz vídeo para empresas, seminários e eventos, além de web tv. Há ainda o segmento que produz vídeos de formatura, casamentos e aniversários. Tudo isso compõe a cadeia do audiovisual, explica o pesquisador.

Cinema ainda não é indústria

Set de produção do filme Comboio Sal e Açúcar (2016), dirigido por Licínio Azevedo

Foto: Divulgação Panda Filmes

Set de produção do filme Comboio Sal e Açúcar (2016), dirigido por Licínio Azevedo

Foto: Divulgação Panda Filmes

Para Beto Rodrigues, cineasta, gestor da Panda Filmes e presidente da Fundacine (Fundação Cinema do RS), o Estado começou a formar um polo audiovisual consistente, mas ele analisa que o Brasil ainda não tem uma indústria cinematográfica no sentido clássico, da forma que se compreende esse tipo de indústria. “Agora, para a indústria audiovisual, talvez a gente pode já considerar como havendo. E digo isso em função do espaço que ocupa desde os anos 1950 a televisão, porque é parte da indústria audiovisual, faz parte do mainstream do setor. E o cinema não.”  Segundo Rodrigues, o cinema desde os seus primeiros anos, na década de 1930, nunca se consolidou como modelo que se pudesse considerar, porque o sistema de distribuição estrangeira acabou sufocando a indústria nacional sempre que esta se tornava competitiva. “A televisão, de certa forma, mesmo que possa ser vista como um investimento privado, é uma concessão pública. De certa forma, tem um incentivo estatal, fora a quantidade de recursos que o Estado aplica em mídia comprada nas TVs, pois, em muitos momentos, nas crises das emissoras de TV, era o Estado que chegava lá e salvava.”

Para Rodrigues, existem três marcos nessa história. A criação da Lei do Audiovisual em 1993, a qual repôs o cinema brasileiro no cenário nacional e internacional, a criação da Ancine em 2001, que recria uma instituição gestora e capaz de centralizar os esforços e o compromisso do Estado com o desenvolvimento audiovisual brasileiro; e a criação, em 2007, do fundo setorial do audiovisual; esse sim a revolução. Esse fundo de fomento é alimentado com recursos da própria atividade e recursos que vêm do Fistel (Fundo de Fiscalização das Telecomunicações). Na medida em que a telefonia celular passou a ter o direito de exibir conteúdo audiovisual e faturar com isso, ela também tem de recolher sua contribuição. Então, dessas áreas vem um dinheiro que hoje chega a 200 milhões de dólares por ano e que, apesar da recessão e da crise que o país passa, tem mantido o setor extremamente aquecido e ativo, fez o cinema brasileiro voltar a figurar no cenário internacional e trouxe uma grande novidade que é uma produção independente de televisão.

“Uma coisa é o mundo do cinema e outra é o mundo da televisão. A produção está superaquecida. Há 12 anos, quando se ligava os canais por assinatura, só tinha série estrangeira. Hoje, temos de 30 a 40 séries brasileiras. Os canais infantis têm conseguido colocar animação brasileira, programas no Discovery, no History Channel e FOX, por exemplo. Isso aqueceu o mercado e está potencializando a criatividade do cinema e do audiovisual no Brasil, e aqui no Rio Grande do Sul também, superando nossa síndrome de patinho feio, do sentimento que tudo só acontecia em Rio e São Paulo.” O cineasta refere-se à dificuldade de os empreendedores de cinema gaúchos serem contemplados em concursos da Petrobras e captar na Lei Rouanet. A partir da criação do fundo, passam a existir cotas regionais, que estão garantindo para todas as regiões do Brasil uma capacitação à produção. “No Rio Grande do Sul, há um outro fenômeno: até 2003 não existiam escolas de cinema e audiovisual. Agora, essas escolas fornecem um grande número de profissionais que encontram um mercado aquecido que, se, por um lado, não contrata da maneira tradicional, com carteira assinada, por outro vem garantindo empregabilidade e boa remuneração”, conclui.

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