Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 207 | Ano 21 | SET 2016
FRAGA
COLUNISTA

Pódios

Sem competição, o planeta seria uma planície.

Porém, mal a crosta terrestre se formou, o magma ondulou e a lava fervente fez o horizonte corcovear: coxilhas e colinas iniciaram suave disputa em direção às alturas. Logo surgiram morros e montes, num incessante concurso de cimos, cumes e picos. Não demorou um sismo e as montanhas roçaram as nuvens. Era, enfim, a vitória da topografia.

Só após zilhões de anos e trocentas cordilheiras depois fomos conferir quantos concorrentes havia no teto do mundo. E até onde galgara o campeão da geologia. No alto do pódio da paisagem lá estava ele, imponente como nenhum outro abaixo dele. O Everest.

Pódios

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

 

Como a evolução não fica quieta, quis ela experimentar pódios biológicos de todos os tipos. Povoou águas, terras e ares de seres vivos de todos tamanhos, pesos e aparências. E dividiu a concorrência em duas categorias, fauna e flora. E, cada uma mais exuberante que a outra, lá foram organizar  suas disputas.

No lado da zoologia, para competir entre si, as espécies entraram num sangrento jogo universal, chamado sobrevivência. Seu pódio eterno: a pirâmide alimentar. Já no lado botânico, a convivência era, e ainda é, pacífica e harmoniosa. Desde as selvas até os campos floridos, em vez de carnificina, preferem a fotossíntese e sais minerais. Por isso os vegetais adotaram um pódio único, onde cabem desde sequoias até gramíneas: a primavera.

Até que surgiu a coisa que achou os pódios da natureza (a plumagem mais vistosa, o quadrúpede mais veloz,a flor mais perfumada, o córrego mais cristalino) algo chinfrim. Com aptidão mais ferozmente competitiva que a dos animais, inventou sua competição particular. Na primeira prova exclusiva – primata contra primata – o vitorioso foi o autointitulado homo sapiens.

Do topo da própria petulância, esse supercompetidor se aperfeiçoa. Passa a criar pódios reais e imaginários, surreais e inimagináveis. A partir da pior raia para concorrer – a capitalista – ele perpetua a cultura do Mais: o PhD, o best-seller, o top of mind, os nobéis, os oscarizados, as celebridades, os campeões de audiência, as misses, o livro Guinness, o escambau. Sem falar nas Olimpíadas e Paralimpíadas, onde o fracasso inicia logo no 4º lugar.

Como não há pódios para multidões, o sistema distribui derrotas a esmo. O que faz lembrar o inesquecível Millôr Fernandes: Humor é a vitória de quem não quer concorrer.

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