Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 208 | Ano 21 | OUT 2016
FRAGA
COLUNISTA

Símbalos

Fraga

Ilustração: Sica

Ilustração: Sica

Outro dia, ao passar por uma bandeira nacional – nacional do Brasil, pois tem bandeira nacional de todas as nacionalidades – pendurada ao alcance da mão, resolvi conferir suspeita recente. Com o cuidado que a situação pedia e o respeito que o lindo pendão merece, segurei-a perto dos olhos e rapidamente examinei os quatro lados da bainha da bandeira. Tudo normal. Quer dizer, não havia nenhuma etiqueta com o aviso “Uso exclusivo das Forças Armadas”.

A quem pertence, afinal, a bandeira nacional? Era a dúvida que as Olimpíadas e Paralimpíadas plantaram no meu cérebro a cada cerimônia de entrega de medalhas e subidas nos pódios. Nas trocentas vezes que assisti os vitoriosos perfilados ouvindo hinos e admirando bandeiras sendo içada por militares a pergunta veio, como um flashaço no cocoruto: por que devem ser sempre militares a içar as bandeiras, se as Olimpíadas e Paralimpíadas são eventos civis?

Vai ver, no fundo, no fundo, as Olimpíadas e Paralimpíadas seriam mesmo guerras por outros meios: uma pacífica batalha pelo gigantesco faturamento planetário dos jogos olímpicos e paralímpicos (patrocínios, bilheterias, direitos de transmissão). Talvez haja acordo implícito entre as autoridades que cedem os campos de batalha a cada quatro anos: olha, a garotada vem competir, ok, mas na hora das premiações o público tem que saber quem manda de verdade.

Não sei o que pensam atletas e paratletas, treinadores e treinadoras, federações e confederações, os comitês nacionais e o comitê internacional, mas eu acho o seguinte: é pura prepotência. A meninada vem com garra e gana, um exército que se digladia por centímetros e milésimos de tempo, e aí, na hora do pódio, surgem soldados de diferentes corporações e tomam conta do show. Oito militares que, com seus passos sincronizados, conduzem a bandeira até o mastro e então a erguem solenemente.

Depois de questionar a presença militar nesse evento civil, vem outra questão: por que os jovens, selecionados por méritos passados ou presentes, não podem eles mesmos conduzir a cerimônia? Será que temem que a garotada vá falhar nesse cerimonial? Ou sou só eu que estranho essa interferência do Estado num espetáculo totalmente autossuficiente, de livre cidadania?

Todo esse aparato militaresco com a bandeira durante os jogos é exagero exclusivista. O cidadão também é dono da bandeira. E, respeito por respeito à verde flâmula, não vejo nenhum nos plenários do país, nem em outros tantos recintos (governamentais ou não) onde reinam, juntas, a bandeira e a corrupção.

Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.