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Nº 209 | Ano 21 | NOV 2016
EXTRA CLASSE
PERFIL

O velho Marcão de volta à política

Da Redação

Considerado um arquivo vivo da época de contestação à ditadura militar, o ex-vereadorMarcos 2.JPG (40624 bytes) Marcos Klassmann, cassado em 1976 pelo antigo MDB, retoma a militância no PDT e promete uma atuação marcante como nos bons tempos. De quebra, vem renovado e com duas novas companhias inseparáveis: a filha Júlia e a mulher Rossana

A mesa um do Bar Odeon , na rua Andrade Neves (centro de Porto Alegre), tem dono. Ela pertence a Marcos Klassmann, o menino de futuro promissor na política, eleito vereador pela oposição aos 23 anos, em 1976, e cassado logo no primeiro discurso. Marcão, como é conhecido devido a seus 1m82 de altura e a voz de trovão, costuma fazer deste e de outros bares da cidade – entre eles o Naval, no Mercado Público – a extensão de sua casa, onde recebe amigos que o acompanham há anos. Klassmann é uma espécie de arquivo vivo de um período dos mais ricos da política gaúcha.

Por exemplo: em 1975, para evitar a primeira prisão de sua carreira, Marcão saiu da Assembléia Legislativa de Santa Catarina escondido no porta malas de um Opala amarelo, que era dirigido por um militante do proscrito Partido Comunista Brasileiro (PCB) conhecido como Bode. Klassmann havia denunciado publicamente a prisão e tortura de 16 partidários do PCB e a reação dos militares foi violenta. “Eles cercaram a Assembléia, onde ocorria um seminário em que estava presente o militar que havia ordenado as prisões”, lembra. Anos mais tarde, Bode foi eleito prefeito de Florianópolis: Sérgio Grando. “Ele me escondeu e à minha mulher por três dias na casa dele, até os milicos desistirem de me procurar”, completa.

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Klassmann voltou à política depois de um longo tempo de distância. Voltou no dia 12 de março deste ano, numa reunião da chamada ala esquerda do PDT (partido em que está filiado) na Câmara de Vereadores. O plenário cheio pôde ouvir mais uma vez a voz de trovão se manifestar, cobrando mais dedicação política de seus companheiros. Desta vez Marcão não estará sozinho: traz ao lado a única filha, Júlia, de um ano e nove meses, e a atual mulher, Rossana. “Elas estão sempre comigo”, define.

O “arquivo” de Klassmannn começou a ser construído muito cedo, ainda nos tempos de estudante do Dom João Becker e de morador da vila do IAPI. Líder estudantil, acabou ingressando em 1974 no Setor Jovem do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Sempre com os amigos por perto. “O Marcão era carismático, tanto que foi eleito presidente do Setor Jovem por unanimidade apenas seis meses depois de ingressar”, diz o corretor João Luiz Pinheiro Machado, que o conheceu naquele ano. “A aproximação política firmou uma amizade”, assegura.

1974 foi decisivo porque a oposição, agrupada no MDB, venceu com folga o partido do governo militar. Naquele ano também tinham sido libertados os primeiros presos políticos, entre eles Raul Pont (atual prefeito de Porto Alegre), Pacheco Filho e Carlos Alberto de Ré. Militavam onde? No setor jovem do MDB, uma organização legal que fazia “agitação e propaganda” nos colégios do estado. Dois anos depois, em 1976, o Setor Jovem decidiu que Marcos devia concorrer à Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Durante a campanha eleitoral, ele foi detido oito vezes por usar o slogan “Vote contra o governo”.

Dessa campanha resultou uma eleição com 12.118 votos, muito para uma época de liberdade cerceada. Logo já era vice-líder do MDB, comandado pelo vereador Glênio Peres.

Marcos 1.JPG (27677 bytes)Os vereadores tomaram posse no dia 1º de fevereiro e, depois doMarcos 1.JPG (27677 bytes) primeiro discurso, Peres já tinha perdido o mandato. Com a degola política do companheiro cassado, Marcos assumiu a liderança e fez seu primeiro discurso 15 dias depois. Foi cassado 48 horas mais tarde. “Fiquei sabendo da cassação pelo Jornal Nacional, que deu a notícia em três frases”, recorda. Cassados e censurados, acabaram se tornando companheiros permanentes e amigos de verdade.

Marcos Klassmann, que estudou até o terceiro ano de direito, se considera um auto-didata em História e Língua Portuguesa. Mas a militância permanente tomou conta da sua vida. Com a cassação, os projetos pessoais foram por água abaixo. Estava com 36 anos quando parou para pensar: “opa, não tenho vida pessoal”. Entrou numa crise de identidade violenta. Concluiu que o movimento popular podia prescindir dele, eram dezenas, centenas de novos militantes em todo o país, por toda parte. “Então fui me retirando”, conta.

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