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Nº 209 | Ano 21 | NOV 2016
L. F. VERÍSSIMO
ROSINEIDE

Rosineide

Rosineide

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Bill veio passar uma temporada no Brasil, a trabalho, e aconteceu: se apaixonou por uma mulata. A Rosineide. Belíssima. Traços finos. De se levar pra casa. E foi o que o Bill fez: casou-se com a Rosineide e a levou para conhecer seus pais, em Cincinnati

Bill sabia pouco sobre Rosineide. Depois de ser apresentado a ela, tinha ouvido alguém comentar:

– Ela é do balacobaco.

Estranhou. Ela não era carioca?

– Quíssima! –, disse a Rosineide, já no avião a caminho de Cincinnati.

– Mas me disseram que você era de Balacobaco.

Rosineide hesitou antes de responder. Precisava tomar uma decisão. Ou explicava ao Bill o que queria dizer “balacobaco”, com o risco de ele não entender ou, pior, entender, ou partir para a invenção. Optou pela ficção.

– Originalmente de Balacobaco, mas fui criancinha para o Rio.

E, a pedido de Bill, pôs­-se a descrever Balacobaco. Nunca mais voltara à sua cidade natal. Sabia que tinha parentes lá, mas perdera o contato com eles. Onde ficava Balacobaco? Na Amazônia. Para ajudar Bill a localizar sua cidadezinha, Rosineide foi mais específica.

– É parte da Grande Cafundó.

E acrescentou:

– Onde o diabo perdeu as botas.

– O que? –, perguntou Bill, perplexo.

– You know. The devil. Lost his boots.

– The devil?! – Esquece, bem –, disse Rosineide, encerrando o assunto com um beijo.

Bill apresentou Rosineide a seus pais, em Cincinnati.

– She’s from Rio, but originally from Balacobaco.

Os pais do Bill acharam interessante, fizeram muitas perguntas sobre a Amazônia (desmatamento, cobras gigantes etc.) e, em geral, acolheram bem a Rosineide. Que está até hoje morando com o Bill em Cincinnati e prometeu que, da próxima vez que os dois vierem ao Brasil, o levará para conhecer Balacobaco. Ainda mais que agora tem aeroporto em Cucuia, que fica perto de Cafundó.

PAPO VOVÔ

Reclamei para a nossa neta Lucinda, de 8 anos, que ela não estava me dando atenção. E ela, mãos na cintura: “Vô, eu tenho minha vida social!”

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