Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 213 | Ano 22 | MAI 2017
L. F. VERÍSSIMO
COLUNISTA

Constellation

Minha primeira viagem de avião durou quatro dias. Porto Alegre a Miami. Não, o piloto não era o Santos Dumont. E não, não ficamos quatro dias no ar. Ia-se de Porto Alegre ao Rio de Janeiro num daqueles Douglas do tamanho aproximado de uma turbina dos jatos de hoje. No dia seguinte fazia-se o trecho Rio – Recife. No outro, Recife – Trinidade, no Caribe. Finalmente Trinidade – Miami. Chegava-se alguns quilos mais magro, pois uma das atividades de bordo, nos aviões da época, era vomitar. O avião não precisava jogar para você vomitar. O avião não precisava nem decolar. O cheiro do interior dos aviões induzia ao vômito. É a isso, crianças, que se referem aqueles saquinhos de papel com as palavras “Para indisposição”. Quer dizer “Vomite aqui em vez de no vizinho”. Hoje ninguém vomita mais em avião, mas os saquinhos permanecem, talvez prevendo algum regurgitador nostálgico.

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

Com vômito e tudo, viajar de avião era coisa fina. As mulheres se vestiam com o melhor que tinham para entrar num avião. Os homens usavam gravata. Me lembro de quando apareceu o Constellation ”o avião mais bonito já construído até hoje. O fino do fino passou a ser viajar num Constellation”. Nada representava melhor a elegância de voar do que aquele avião comprido com algo de garça no seu formato. Ouviam-se maravilhas da sua velocidade a turbo-hélices e do seu requintado serviço de bordo. Nunca entrei num Constellation, que por isso mesmo ficou para mim como uma referência mítica, o símbolo de viajar com classe, ou simplesmente do prazer de ir para longe sendo bem tratado. Jamais viajei tão bem quanto dentro de um Constellation na minha imaginação. Estas lembranças são só para comentar como voar mudou, não só porque se massificou e os aviões ficaram maiores, mais rápidos e, apesar de tudo, mais seguros (e não cheiram mais), mas porque se perdeu aquela aura de prazer que começava no aeroporto, na expectativa de embarque numa experiência rara. Aquele espírito de Constellation imaginário. Com o agravante das atuais medidas anti-terrorismo, o prazer antegozado virou martírio compartilhado, aqui, nos Estados Unidos e no resto do planeta. E não é preciso nem falar nas poltronas em que cabe só meio Jô Soares.

Hoje, em todos os aeroportos neurotizados do mundo, há um Constellation fantasma pousado no pátio, dizendo “Nunca mais, nunca mais”.

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