Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 215 | Ano 22 | JUL 2017
ARTE+

Legalidade, do microfone às telas de cinema

Por José Weis
O ator Leonardo Machado no papel do governador gaúcho Leonel Brizola, líder do levante, no filme do diretor Zeca Brito

Foto: Joba Migliorin/ Divulgação

O ator Leonardo Machado no papel do governador gaúcho Leonel Brizola, líder do levante, no filme do diretor Zeca Brito

Foto: Joba Migliorin/ Divulgação

“Hoje, nesta minha alocução, tenho os fatos mais graves a revelar. O Palácio Piratini, meus patrícios, está transformado em uma cidadela que há de ser heróica, uma cidadela da liberdade, dos direitos humanos, uma cidadela de civilização, a ordem jurídica, uma cidadela contra a violência, contra o absolutismo, contra os atos dos senhores, dos prepotentes.” Essa é a síntese do pronunciamento do então governador Leonel de Moura Brizola, ao microfone do estúdio de rádio instalado no porão do Palácio Piratini, sede do governo do Rio Grande do Sul, há 56 anos. Palavras que reverberam e atualizam os fatos nos dias de hoje. Remonta ao tempo do Movimento da Legalidade, tema que agora virou filme. Previsto para estrear no primeiro semestre de 2018, Legalidade narra como foram aqueles dias de resistência e união popular.

O trecho dos muitos pronunciamentos de Brizola naquele nem tão distante ano de 1961 traduz resistência e luta nas palavras da neta, Juliana Brizola, que ficou muito emocionada ao assistir no set de filmagens às cenas de Legalidade. “A arma de Brizola não era aquela metralhadora e sim o microfone”, repara a deputada estadual pelo mesmo PDT do avô. Juliana percebe que, com o filme, o Brasil poderá conhecer uma dimensão maior da figura que foi Brizola, “muito além do cara que foi eleito duas vezes governador do Rio de Janeiro, que era o pai da Neuzinha”.

Porto Alegre, naquele agosto de 1961, foi o cenário de um dos mais emblemáticos movimentos de massa na defesa da cidadania e das garantias constitucionais. O estopim do golpe que levaria ao movimento de resistência ocorreu no dia 25, uma sexta-feira, em Brasília. O presidente da República, Jânio Quadros, anuncia sua renúncia. João Goulart, o vice-presidente eleito, está em visita oficial à China. Jango seria impedido de assumir o cargo. Naquele tempo, na eleição para presidente e vice era possível votar em candidaturas separadas. Jânio foi eleito primeiro mandatário com um discurso conservador e moralista no combate à corrupção, com ações  populistas. Na vice-presidência, Jango tinha um viés progressista e popular, herdeiro político de Getulio Vargas. Um Congresso conservador e as forças militares não concordavam com a sua posse.

Houve reação. No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola tinha força política e respaldo popular para convocar a população a se mobilizar em defesa do direito constitucional de João Goulart. O clima esquentou naquele agosto, radicalizou-se a ponto de um confronto armado eminente; forças do Exército e da Aeronáutica de um lado, a Brigada Militar e uma parte da população de outro. O teatro dos acontecimentos seriam o Palácio Piratini e a Praça da Matriz, em pleno centro da capital gaúcha.

Brizola comandava a Cadeia da Legalidade, uma rede de rádios mobilizada pelos insurgentes a partir do equipamento de melhor qualidade existente à época, o da Rádio Guaíba de Porto Alegre. Afinal, o rádio era o veículo mais ágil e de maior audiência naquele tempo. A tensão de um conflito de proporções trágicas, que dividira o país, durou noites e dias. Até que Jango tomou posse no dia 7 de setembro. Seria quase um final feliz. Como frequentemente acontece no país, um arranjo feito às pressas implantou um Parlamentarismo à brasileira. O primeiro-ministro escolhido foi Tancredo Neves.

O diretor Zeca Brito no set de Legalidade: “O filme chega num momento em que há uma tentativa de destruir conquistas da população gaúcha. Do banco ao zoológico, querem vender tudo”

Foto: Joba Migliorin/Divulgação

O diretor Zeca Brito no set de Legalidade: “O filme chega num momento em que há uma tentativa
de destruir conquistas da população gaúcha. Do banco ao zoológico, querem vender tudo”

Foto: Joba Migliorin/Divulgação

Contra a ilegalidade

A produtora executiva Luciana Tomasi, da Prana Filmes, conta que a ideia de contar esta história no cinema surgiu em 2011. “Eu tinha muita vontade de produzir uma ficção sobre o Brizola. Lançamos o projeto a partir deste encontro, ficamos seis anos estudando a Legalidade, tudo que há de material visual, como fotos e filmes, assim como fazendo entrevistas com Flávio Tavares, Carlos Araújo e Carlos Bastos, outras pessoas que viveram aquela época”, relata. Ela avalia o legado do Movimento da Legalidade e o significado de filmar um acontecimento histórico: “Nos tempos atuais, de desrespeito à ética, de corrupção e descrença na justiça, o filme ganha mais força ainda. Fizemos um filme de época, com baixo orçamento, mas que teve uma equipe com muita experiência e muita vontade de contar uma história muito importante para todos”. E destaca “a importância de fortalecer a educação, que foi um emblema do governo Brizola”.

 

"Ele foi transformado no Brizola de uma forma surpreendente", diz a produtora Luciana Tomasi sobre o ator

Foto: Joba Migliorin/Divulgação

“Ele foi transformado no Brizola de uma forma surpreendente”, diz a produtora Luciana Tomasi sobre o ator

Foto: Joba Migliorin/Divulgação

Respeito pelo povo

“Foi uma responsabilidade muito grande trazer esta história que está no imaginário do povo brasileiro, principalmente pelo momento político que vivemos”, sintetiza o diretor de Legalidade, Zeca Brito. Para o cineasta, a importância do episódio relata o momento em que a sociedade esclarecida reage às manobras políticas que atingem sua vontade popular e democrática, como é o caso de quem foi eleito e é atingido no seu direito democrático. A coragem de Brizola em denunciar o que estavam preparando e convocar a população foi fundamental para evitar um golpe. Zeca Brito observa que, mesmo sendo, às vezes, um protagonista contraditório, “Leonel Brizola sempre teve um respeito pelo que representa a vontade do povo”.

O diretor ressalta ainda que grande parte das políticas e dos projetos de Estado que hoje correm o risco de serem dizimados foi iniciativa de Brizola. “O filme chega num momento em que há uma tentativa de destruir conquistas da população gaúcha. Do banco ao zoológico, querem vender tudo”, alerta.

Ao transpor para a tela o que foi o Movimento da Legalidade, o filme narra a história de um relacionamento amoroso que ocorre em paralelo. Zeca Brito diz que os personagens de um triângulo amoroso, vivido pela atriz Cléo Pires e pelos atores Fernando Alves Pinto e José Henrique Ligabue, “são representativos tanto quanto as pessoas reais e comuns que se engajaram na causa da Legalidade”.

A produtora e o diretor destacam o desempenho do ator Leonardo Machado, no papel de Leonel Brizola, e a impressionante semelhança física entre ambos. “Ele foi transformado no Brizola de uma forma surpreendente até para nós da equipe”, revela Luciana. “Para o ator Leonardo Machado, penso que recaíram as maiores responsabilidades e isso me comove profundamente, saber que nas costas de um único ser humano se depositam tantas expectativas e afetos. O momento mais difícil foi dele, segurar a emoção e reviver um discurso real, de um homem real tão importante para nossos destinos”, avalia Zeca Brito. O filme conta com atuação de um personagem que fez parte da História, literalmente. Em 1961, o jovem ator Paulo César Pereio foi autor da música do Hino da Legalidade, escrita por Lara de Lemos. Agora, ele volta à cena dos acontecimentos fazendo uma ponta no filme.

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