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Nº 215 | Ano 22 | JUL 2017
MARCOS ROLIM
COLUNISTA

O experimento de Milgram

Intolerância e ódio: juíza determinou despejo de 70 famílias da Ocupação Lanceiros Negros em uma das noites mais frias do ano

Foto: Divulgação / Ascom DPERS

Intolerância e ódio: juíza determinou despejo de 70 famílias da Ocupação Lanceiros Negros, no centro de Porto Alegre, em uma das noites mais frias do ano. No despacho, a ordem expressa para que a ação ocorresse à noite, para “não atrapalhar o trânsito”

Foto: Divulgação / Ascom DPERS

Adolf Eichmann, criminoso de guerra julgado em Israel, em 1961, um dos responsáveis pelo envio de milhões de judeus aos campos de concentração e de extermínio no Leste Europeu, insistiu em sua defesa que CXOLU“cumprira ordens”, tentando, assim, desresponsabilizar-se diante do genocídio. Hannah Arendt percebeu que o discurso de Eichmann, repetido por outros nazistas, expressava, em seus clichês burocráticos, uma realidade perturbadora que ela chamou de “banalidade do mal”. Com o conceito, a filósofa designou um fenômeno particular, o de que o pior dos crimes já praticados havia sido obra não de “monstros”, mas de pessoas normais, “terrivelmente normais”, segundo ela. Pessoas que, como Eichmann, eram incapazes de refletir sobre suas ações. Por esse caminho, ela sugere que o mal poderia ser o resultado da ausência de pensamento. Os textos escritos por Arendt, publicados originalmente pela revista New Yorker, foram reunidos, posteriormente, no livro Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal (Cia das Letras, 344 pág.). Em seu tempo, notadamente em segmentos da comunidade judaica, as posições de Arendt foram incompreendidas, situação muito bem descrita no belo filme Hannah Arendt, de Margarethe von Trotta.

Três meses após o início do julgamento de Eichmann, um psicólogo norte-americano chamado Stanley Milgram – também de origem judaica, assim como Arendt – resolveu investigar se as pessoas comuns seriam capazes de práticas atrozes se recebessem ordens de alguém investido em posição de autoridade. Para tanto, seria preciso que a experiência descartasse variáveis como vida pregressa violenta ou constrangimentos financeiros. Para realizar seu experimento, Milgram montou um laboratório na Universidade de Yale onde duas pessoas a cada vez, aparentemente voluntárias para pesquisa, seriam sorteadas para as posições de “professor” e “cobaia”. Na verdade, o sorteio era falso e apenas os indicados como “professores” eram voluntários. Quem desempenhava o papel de cobaia era um ator contratado. O teste consistia na repetição pelo professor de pares de palavras que a cobaia deveria memorizar. Para as respostas erradas, o professor deveria aplicar choques elétricos, acionando botões à sua frente. Os choques iam se tornando mais fortes de modo que, a partir de certa intensidade, a cobaia começava a gritar e a exigir que o experimento terminasse. Os choques eram fictícios, mas o ponto é que os voluntários imaginavam que fossem reais. Da amostra de Milgram, 65% foram capazes de ir até o fim do experimento, disparando choques de 450 volts que, se fossem verdadeiros, poderiam matar. Todos os participantes, 40 pessoas, continuaram até o limite dos 300 volts. O resultado dessa pesquisa deu origem a um ensaio, Obediência à Autoridade, que revolucionou a Psicologia contemporânea (mais tarde, em 1974, Milgram relatou o trabalho no livro Obedience to Authority: an Experimental View). Ficava claro que, mesmo em uma democracia, sem a presença de um líder carismático como o Fürher, e sem que as pessoas estivessem sob o constrangimento da perda de seus empregos, por exemplo, elas seriam capazes de torturar alguém, bastando, para tanto, que uma “autoridade” assim o determinasse. A genial intuição de Hannah Arendt ganhava, dessa maneira, evidência empírica dramática e persuasiva.

Essa história está magistralmente contada no filme O Experimento de Milgram, de Michael Almereyda, disponível na Netflix. O filme apresenta não apenas o experimento célebre, mas também a polêmica que ele provocou – e segue provocando – na comunidade acadêmica, além de outros momentos importantes na vida do grande psicólogo, até sua morte em 1984. As atuações de Peter Sarsgaard (no papel de Milgram) e de Winona Ryder (como a esposa Sasha) são excepcionais e o enredo prende a atenção do começo ao fim.

No Brasil, o filme sobre a experiência de Milgram talvez seja ainda mais importante. Penso, especialmente, na circunstância histórica de intolerância e ódio que vivemos e na insensibilidade da opinião pública diante das abordagens violentas impostas a determinados grupos humanos. O que os governos da cidade de São Paulo e do Estado do Rio Grande do Sul fizeram nos casos da “Cracolândia” e da Ocupação “Lanceiros Negros” parece evidenciar o problema. Em São Paulo, a determinação do prefeito João Dória resultou na demolição de um prédio com pessoas dentro. Em Porto Alegre, o despacho da juíza determinou que o ato de reintegração de posse fosse cumprido a qualquer momento, inclusive em feriado e fim de semana, “para evitar transtornos no trânsito”. Em São Paulo, a repressão contra os dependentes químicos multiplicou a Cracolândia em várias outras menores pelo centro da cidade. Ao invés de um problema, a cidade agora tem vários. Em Porto Alegre, não deixa de ser impressionante que alguém no Poder Judiciário se lembre do trânsito quando se trata de desalojar famílias pobres, indígenas e muitas crianças em uma noite fria. Com uma Justiça assim, aliás, o que será a injustiça?

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