Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 217 | Ano 22 | SET 2017
POLÍTICA

O Brasil em transe

O filme Terra em Transe, de 1967, completa 50 anos e discutia, décadas atrás, temas políticos no pós-golpe de 1964 que encontram paralelos na era Temer
por Priscila Lobregatte
Ficção: "O povo no poder, isso nunca, entende? Nunca. Pela liberdade morreremos , por Deus, pelo poder", dizia Porfírio Diaz, o personagem de Paulo Autran encarnou no filme de Glauber Rocha

Foto: Reprodução

Ficção: “O povo no poder, isso nunca, entende? Nunca. Pela liberdade morreremos , por Deus, pelo poder”, dizia Porfírio Diaz, o personagem de Paulo Autran encarnou no filme de Glauber Rocha

Foto: Reprodução

“Até quando suportaremos”? A pergunta, feita em tom aflitivo pelo jornalista e poeta Paulo Martins, vivido por Jardel Filho, ecoa nos minutos finais de Terra em Transe enquanto assistimos à coroação de dom Porfírio Diaz, o político conservador golpista interpretado por Paulo Autran.

Cinquenta anos após o lançamento do clássico de Glauber Rocha, a pergunta ainda soa atual. O país vive mais uma crise, que parece interminável, a envolver os três poderes, sob o comando de um governo ilegítimo que, mesmo mergulhado em denúncias de corrupção e com popularidade baixíssima, consegue se manter à base de acordos e manobras eticamente questionáveis.

Realidade: "Não sei como Deus me colocou aqui, dando-me uma tarefa difícil, mas certamente para que eu pudesse cumpri-la. (...) Não fugirei das batalhas nem da guerra que temos pela frente . Minha disposição não diminuirá com ataques irresponsáveis", afirmou Temer logo após as denúncias de corrupção

Foto: Lula Marques/APT

Realidade: “Não sei como Deus me colocou aqui, dando-me uma tarefa difícil, mas certamente para que eu pudesse cumpri-la. (…) Não fugirei das batalhas nem da guerra que temos pela frente . Minha disposição não diminuirá com ataques irresponsáveis”, afirmou Temer logo após as denúncias de corrupção

Foto: Lula Marques/APT

Distante dos jogos do poder, a população segue em sua indiferença, alimentada pela justa decepção com os acontecimentos, mas, também, pelo processo de desconstrução da política levado a cabo pela grande mídia e pela ação de setores do Judiciário ao longo dos últimos anos. Ao mesmo tempo, se vê diante da necessidade de sobreviver a uma realidade marcada pelo desemprego, a pobreza, a perda de direitos, a violência e as incertezas em relação ao futuro. “Ando pelas ruas e vejo o povo magro, apático, abatido; este povo não pode acreditar em nenhum partido”, disse Paulo ao observar os cidadãos de Eldorado. Ou seja, como no mítico país concebido por Glauber, o Brasil vive seu novo transe.

O país vive a fase do torpor

Ao criar as representações contidas em Terra em Transe, lançado em 1967, Glauber Rocha fazia uma leitura dramática e polêmica da política e da luta pelo poder no país, em que personagens e situações parecem se repetir, com as peculiaridades de seu tempo, em diversos momentos de nossa história. Em Alegorias do SubdesenvolvimentoCinema Novo, Tropicalismo e Cinema Marginal (Cosac Naify 2012), o crítico Ismail Xavier explica que o dado crucial do filme “é a forma sui generis com que articula a representação da intriga política a outras dimensões do processo que, na alegoria de Eldorado, é também cultural, social, econômico, psicológico, religioso. A opção de Glauber é pelo diagnóstico geral do país, a síntese de todos os aspectos, mesmo que seja necessário atravessar a história. Os agentes ganham figuração condensada que dificulta uma relação termo a termo com referentes encontrados, por exemplo, na realidade brasileira, pois a galeria de tipos quer se referir a algo mais que personagens da vida política dos anos 60”.

Neste sentido, é como se o diretor quisesse mostrar arquétipos que permeiam, em maior ou menor grau, as trajetórias brasileira e latino-americana, sem se deter especificamente em nenhum personagem real. No mesmo livro, Xavier explica que “o filme se põe como franca expressão de um estado de espírito e destila um sentimento globalizante da crise, que não hesita em imprimir um sentido mítico fundamental à análise dos eventos políticos, em verdade, assumidos como parte de uma totalidade maior só compreensível a partir de uma peculiar representação da política. No topo dessa figuração que quer totalizar, alcançar ordens que julga mais fundas, há a metáfora do transe para caracterizar a crise nacional”.

A avaliação de Welington Andrade, professor do curso de Comunicação Social da Faculdade Cásper Líbero (SP) e editor da revista Cult, vai ao encontro desta tese: “as coisas estão muito instáveis, em transe; a terra treme, desarticula tudo, desestabiliza, depois tudo volta ao velho equilíbrio de sempre. É preciso que as coisas mudem para que permaneçam como são, dizia Lampedusa, ou seja, a nossa mudança é sempre de fachada, superficial. O Brasil é uma terra em transe constante”.  E completa: “acho que em 2017, o que temos é o torpor depois do transe, uma espécie de anestesia de sentimentos, de moral, de discurso”.

Para ele, o contexto atual e aquele em que o filme foi concebido guarda similaridades que são, no fundo, a essência da trajetória brasileira. “Estamos vivendo uma fase de desmonte de uma série de conquistas que vínhamos tendo recentemente e Terra em Transe retrata isso nos anos 60: o Brasil que chega na modernidade convivendo, ao mesmo tempo, com o arcaico, ou seja, uma modernização conservadora”.

Ao mesmo tempo, Andrade aponta diferenças importantes. “A figura que o Jardel Filho vive, o Paulo, tem um traço forte de interioridade. É um homem atormentado por essas questões todas. É como se o político resvalasse no psicológico e houvesse uma subjetivação do personagem. Eu não vejo isso no Brasil contemporâneo”. Para ele, a reação a essa subjetividade – especialmente nas figuras públicas, seja na intelectualidade ou na política – é o cinismo e a indiferença.

Polêmico desde seu lançamento, o filme está longe de ser consensual. Luciano Miranda, professor da UFSM e autor de tese sobre as relações entre o Estado e os protagonistas do Cinema Novo, rechaça o paralelismo entre o filme e a conjuntura atual e também se remete a Paulo Martins para explicitar sua opinião. “Naquele momento da conjuntura política do Brasil, os intelectuais tinham uma expressão bastante significativa na intervenção política, na difusão de ideias, no engajamento. Já na conjuntura contemporânea, o intelectual perdeu relevância tanto para a direita quanto para a esquerda e num certo sentido, salvo exceções, o próprio intelectual acabou se colocando numa posição comodista ou conformista em relação a um engajamento político para os destinos da nação”.

Miranda completa dizendo que “além de a realidade ser mais complexa, as representações daquele momento, que são mais ou menos estanques, no quadro atual elas se misturaram, se hibridizaram, muito em função das alianças próprias da democracia”, aspecto que, segundo ele, inviabilizaria analisar o filme à luz da crise atual.

O Eldorado é aqui

Como filme metafórico e ficcional, Terra em Transe não pode ser lido como um paralelo direto entre situações determinadas da história, mas por se tratar de uma obra que busca compreender e radiografar o país, seus personagens e situações acabam servindo como elementos de análise de nossa realidade em diversos momentos históricos. “Eu diria que não apenas este filme, como a obra de Glauber Rocha e a produção cultural do período da ditadura militar hoje se tornam absolutamente contemporâneas”, diz Francisco Fonseca, professor de Ciência Política da FGV-Eaesp e da PUC-SP.

Ao analisar o filme, Fonseca resgata o nome do país para apontar semelhanças com a atualidade. “Eldorado não é um nome casual: remete à promessa de uma realização de felicidade. E o golpe contra a presidente Dilma Rousseff também vinha carregado de promessas. O PT era o criminalizado, a Dilma era a incompetente, e todas as políticas feitas pelos governos Lula e Dilma eram ruins. O discurso fácil que engabelou muitas pessoas, propagado infinitamente pela mídia, foi justamente o de que o ‘eldorado’ seria o impeachment”.

Fonseca lembra, no filme, da massa dos cidadãos seguindo o político Felipe Vieira – misto de líder popular e coronel latino-americano interpretado por José Lewgoy – que, depois de eleito governador de Alecrim, não cumpre com o prometido na campanha. “Talvez esta seja, para mim, a melhor síntese. Tudo que vem acontecendo no Brasil antes mesmo do impeachment tinha, na verdade, o objetivo de destruir direitos sociais e trabalhistas, acabar com a Petrobras, com a soberania econômica nacional. Enfim, grande parte dos que apoiaram o processo não sabia que estava apoiando algo contra si próprio”.

Para Welington Andrade, a correspondência entre Temer e Diaz é “quase que integral”. “São figuras comprometidas com um estado de coisas antigas e conservadoras. Temos também os líderes populistas e os empresários que dançam conforme as conveniências. Boa parte do empresariado aderiu ao governo Lula e rapidamente desembarcou do governo Dilma quando as coisas mudaram. E Fuentes (dono dos meios de comunicação vivido por Paulo Gracindo) é um sujeito pragmático, está em todos os lugares, representa muito bem a classe empresarial brasileira”.

Ao finalizar sua análise, o professor ressalta um ponto fora da curva na análise dos dias de hoje. “No cinema do Glauber tem uma coisa que é a ideia do afeto como manifestação política. É um afeto subjetivo, do homem que tenta entender como se colocar neste mundo. E a disjunção disso é a ideia do ódio: hoje o afeto está fora de moda, e na política exacerba o ódio, especialmente nas mídias sociais. É uma diferença brutal entre o Brasil que tenta se entender amorosamente e um Brasil que está se digladiando em meio a uma cultura de ódio”.

Alguns paralelos entre o filme de 1967 e os dias atuais

O golpe – “Temos que dar um golpe, virar a mesa, fazer história”, explica Diaz ao empresário Fuentes, diante da possibilidade de Vieira, apoiado por Paulo e pela população, ser eleito presidente. Logo depois, Diaz declara: “Se houver eleições, Vieira ganha. Se não houver, ganho eu, derrubando Fernandes (o presidente)”.

Em gravação captada em 2015, Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo Temer no Senado, disse: “Tem que mudar o governo para estancar essa sangria”. Mais adiante, diz que uma vez no poder, Temer deveria fazer um pacto nacional “com o Supremo, com tudo” para acabar com a Lava Jato. Os senadores, real e do filme, defendem uma saída  fora das regras democráticas para fazer valer seus interesses.

O povo – “A política é uma arma para os eleitos, para os deuses. Os extremistas criaram a mística do povo, mas o povo não vale nada, o povo é cego e vingativo. Se derem olhos ao povo, o que fará o povo”?, diz Diaz ao empresário Fuentes.

Diaz também diz a Fuentes, em outra cena: “Como feras famintas, eles desejarão sempre mais e mais, até o seu próprio sangue. Eles querem poder. E povo no poder, isso nunca, entende? Nunca. Pela liberdade morreremos, por Deus, pelo poder”.

Temer diz não saber como Deus o colocou ali, mas uma vez na presidência, soube bem o que fazer, optando por uma gestão contrária aos interesses do povo, cujas necessidades Temer parece ignorar: cortou recursos para programas sociais, asfixiou o ensino público superior, retirou direitos trabalhistas, estancou os investimentos públicos e espera aprovar uma reforma que dificulta e piora a aposentadoria. Em seu governo, também aumentou a repressão aos movimentos sociais.

O patrimônio nacional – “…as nossas riquezas, as nossas carnes, as vidas, tudo, vocês venderam tudo, as nossas esperanças, o nosso coração, o nosso amor, tudo, vocês venderam tudo”, diz Paulo, indignado, ao senador Porfírio Diaz.

A sanção da lei que retira da Petrobras a obrigatoriedade de exploração de 30% do pré-sal abriu caminho para a exploração estrangeira de uma riqueza estratégica para o desenvolvimento nacional. Além disso, para agradar a bancada ruralista, o governo Temer tem se dedicado a propostas de redução das terras indígenas, flexibilização de regras para licenciamento ambiental, liberação de agrotóxicos e venda de terras para estrangeiros. O governo também quer vender a Casa da Moeda, a Eletrobras e editou decreto que extingue a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (Renca), na Amazônia, abrindo caminho para a exploração de ouro e ferro, entre outros. E, para responder aos anseios do empresariado, aprovou uma reforma trabalhista que visa aumentar a reserva de mão de obra retirando direitos dos trabalhadores.

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